Querem uma prova de como Shameless pode ser incrível? Ela te dá.
Desde que Shameless estreou na TV americana, acredito eu que muito se falou a respeito de como essa é uma série sobre legado, sobre como o sangue de Frank Gallagher não empesteou os filhos de insensibilidade, mas marcou-os com uma boa dose de amoralidade. Amoralidade essa que acabou sendo preciosa, acabou sendo um recurso emergencial da natureza, para tornar possível a sobrevivência de um monte de crianças que não podiam contar nem com o pai e nem com a mãe. E mesmo que pais às vezes sejam problemáticos e negligentes, sempre há alguma coisa que mantém o laço passível de perdões ou de certa ternura.
O caso de Shameless é um pouco diferente… Já são seis temporadas e eu não posso assegurar que não tenha tido mesmo algum momento em que Frank agiu pensando no bem de qualquer outra pessoa que não fosse ele mesmo. Mas, independentemente disso, é bem seguro dizer que não há nada que esse homem possa oferecer de bom para seus filhos e que a presença dele na casa já se tornou injustificada há tempos. Não existe uma só razão para que a convivência com ele seja positivamente relevante em nenhuma esfera e o que Sean se perguntou durante esse maravilhoso episódio, eu já vinha me perguntando frequentemente: o que Frank Gallagher ainda está fazendo ali?
Depois de uma quinta temporada tímida e de um começo de ano estranho, cheio de reajustes, podemos dizer que a série vem crescendo dos três últimos episódios para cá e que alcançou um apogeu climático como há muito tempo não víamos. Além dos núcleos estarem quase completamente alinhados, os roteiristas tiraram das mangas um trunfo inesperado e que faz todo sentido para o momento narrativo do show. A tensão entre Sean e Frank é absolutamente natural para qualquer um que veja de fora o absurdo que é a presença daquele homem no seio daquela família. Consistentemente, ele suja de podre tudo que toca.
Dessa vez foi o casamento de Fiona que sofreu o baque. Quando colocamos esse episódio em perspectiva, é possível notar completamente como todos os filhos estão a um passo de alcançarem algum tipo de superação, mas são arrastados para a lama por questões que sempre tem a ver com Frank de algum jeito. O casamento que Fiona preza tanto por ser o primeiro que ela terá dentro dos padrões “normais” da vida da maioria das pessoas, é arruinado por um pai egocêntrico que dificilmente tem razões emocionais para estar disposto a envolver-se nele. Frank acaba com os planos do casamento ao usar um dinheiro que vem dos avós ameaçados de sua neta, o que, por tabela, também arruína com as chances de entendimento entre Debbie e eles. É um efeito dominó de aniquilações.
Foi incrível ver como o roteiro se amarrou inteiro para nos mostrar que mesmo que os Gallaghers queiram dar bons passos, eles são impedidos por circunstâncias causadas por eles mesmos ou por causa do que eles precisam fazer para sobreviver. Carl não pode ser policial porque já foi preso, Ian não pode ser paramédico porque tem uma doença, Lip não pode terminar a faculdade porque não sabe lidar com a ira psicológica que o possui e que vem de suas raízes hereditárias. Destruiu uma chance de formar-se porque não conseguia resistir ao impulso furioso de quebrar a cara do mentor que lhe lembrava o próprio pai. Todos eles querem conseguir, mas eles não são bons em tentar, em administrar a fúria que trazem dentro de si.
O episódio foi tão bom, tão bem escrito e conduzido que até os alívios cômicos foram certeiros. Kevin, Svetlana e Veronica formam um trio irresistível. Svetlana é uma das personagens mais amadas do show e trabalha duro para manter esse posto. Ela sabe fazer milhões de coisas e ainda tem frases impressionantemente coerentes: “Uma mulher pode amar dois filhos, dois amigos… Por que não amar duas pessoas?”. Acho completamente compreensível que V se apaixone por ela e se continuarem focando nos conflitos de Kevin a respeito de desejar e não entender a situação, continuarão acertando em cheio. Tudo a respeito deles não estava em nada conectado ao evento central do episódio, mas funcionou perfeitamente para os equilíbrios das nossas impressões.
Por fim, preciso dizer que a briga entre Frank e Sean foi a melhor coisa desse ano e uma das melhores coisas de toda a série. Fiona tinha razão a respeito do ego do noivo, mas ao mesmo tempo, já chegou a hora de aceitar que não existe um motivo para manter aquele homem horrível por perto. Mesmo que houvesse dentro dele o mínimo de prazer em ajudar no casamento da filha, isso teria sido provavelmente um acidente, já que pensar em tirar a vida do homem que a ama, já é a coisa mais hedionda que ele considerou fazer. Foi uma grande sequência final, um grande momento do show, daqueles que a gente toma como referência para estabelecer o quanto a vida dos Gallaghers é separada por um limiar muito tênue entre o risível e o trágico… Se Frank levar adiante seu plano contra Sean, aí sim, uma fronteira definitiva seria atravessada, o que não deixa de ser extremamente sedutor… Isso é incrível… Incrível como é complicado assistir uma série em que você torce tanto por pessoas que você já sabe que não se salvarão de nada, nunca.
Franny Cries: Fiona e Sean decidem fazer uma aposta e o que está valendo? Boquete, claro.
Franny Cries 2: Tão bonitinho o bilhetinho de Caleb na lancheira super cool do Ian.
Franny Cries 3: E reunião de família nos Gallaghers é daquele jeito mesmo, com maconha, bebida e infantes no mesmo ambiente.
















