A Heart of Darkness foi emocionante, movimentado, impactante, bem construído visualmente e finalmente conseguiu resolver um problema criado desde a primeira temporada de Shadowhunters.

Um erro crucial que a série Shadowhunters cometeu lá nos seus primórdios foi o de não explorar e apresentar devidamente o conceito Parabatai dentro da mitologia criada para a adaptação televisiva, jogando tudo de forma descuidada e a meia boca, a série se condenou a caminhar em terreno pedregoso toda vez que recorre a essa temática. Quase todos os erros cometidos na controversa primeira temporada foram ajustados no decorrer das temporadas subsequentes, o único erro que ainda assombrava Shadowhunters é o do não entendimento por parte do seu público do que seria esse Vínculo Parabatai e as suas implicações entre os envolvidos em tal situação. Apesar do episódio Parabatai Lost (2×03) ter sido tocante, poderoso e bem feito, ele chegou um pouco tardiamente para tentar nos situar em um conceito muito subjetivo e o capítulo sequer arranhou a superfície do que seria o vínculo entre dois Parabatais, mesmo assim acho louvável que a série tenha feito um episódio inteiro para trabalhar esse tema, como também congratulo a série por ter nos mostrado em 2×20 Alec sofrendo os impactos do desaparecimento da sua Runa Parabatai após a morte de Jace. Claro que, em minha humilde opinião, eu acredito que esse tema deveria ter sido explorado desde o piloto dessa série, para ir sendo aprofundado no decorrer da primeira temporada, se assemelhando a forma como Malec foi construído. Ledo engano, isso não ocorreu! Como O Vínculo Parabatai não foi devidamente explorado e desenvolvido ao longo das temporadas, algumas afirmações soaram um pouco estranhas em A Heart of Darkness, mas no decorrer do episódio as coisas se acomodaram e creio que Shadowhunters conseguiu resolver um problema que sempre atravancou o seu roteiro.

Shadowhunters/Alec & Jace

Bem, vamos ao menos tentar explicar, de forma resumida, o que seria um Parabatai/Vínculo Parabatai dentro da ideia criada por Cassandra Clare, mesmo levando em consideração que estamos falando de uma adaptação televisiva cheia de licença criativa para tratar o seu conteúdo. Nem todos os Caçadores de Sombras têm um Parabatai e também não são obrigados a ter um, aliás, é considerado uma dádiva ter a sorte de encontrar alguém digno para compartilhar a sua força vital, a amizade verdadeira e amor fraternal – o Códex dos Caçadores de Sombras proíbe o vínculo romântico entre Parabatais, o amor terreno, o Eros, é totalmente vedado entre esses seres que não são como irmãos, mas gozam de um tipo diferente de vínculo que é mais forte que a própria irmandade. Parabatai é um par de guerreiros Nephilim que lutam juntos como parceiros ao longo da vida, unidos por juramento, independentemente do seu gênero. Seu vínculo não se reflete apenas na sua proximidade e vontade de dar a vida uns pelos outros, mas também em uma ligação sensorial que leva um indivíduo sentir quando o outro está em perigo, quando o outro nutre sentimentos de felicidade ou de tristeza. Quando um dos pares morre, a dor descrita pelo que sobreviveu e lancinante e é como se fosse possível sentir a vida do parceiro se esvaindo. É como se um fosse a carruagem e o outro o condutor. Por isso, é muito comum um Parabatai ter a sensação de que não é nada sem o seu par. Esse amor exacerbado entre Parabatais também pode se transformar em ódio incontrolável como foi o caso de Valentine Morgenstern e Lucian Graymark, que foram separados pela transformação de Luke em um ser do submundo, após uma briga quase fatal entre ambos e uma trama horrenda de Valntine contra o seu Parabatai.

Shadowhunters/Alec & Magnus

Dito isso, vou bancar a advogada do diabo, tentarei justificar a polêmica frase dita por Alec Ligthwood para Magnus Bane ao se referir ao seu Parabatai, Jace Herondale. Sei que o fandom surtou e reclamou horrores porque Alec disse a Magnus que não é nada sem Jace e sei também que muita gente achou que ele foi insensível e tratou o namorado de forma desrespeitosa, fato que não concordo. Tudo bem que Alec falou uma coisa difícil de se ouvir da pessoa que se ama, sei que a afirmativa dele parece colocar Magnus em segundo plano quando o assunto é Jace, sei que Alec tem feito muita coisa sem Jace por perto (construiu uma relação incrível com um feiticeiro, tem sido um líder nato no Instituto, tem inspirado pessoas a tomarem o controle de suas vidas, reconstruiu a sua relação com a sua mãe…), mas estamos falando do seu Parabatai e, seguindo a premissa que rege esse vínculo, não vejo outro jeito para Alec lidar com essa situação que não seja essa forma extremista que ele apresentou. Ponto para A Heart of Darkness por ter finalmente colocado o Vínculo Parabatai nos trilhos. Essa situação precisava ser ajustada e o episódio caiu como luva para nos situar mais profundamente sobre esse tema através do estado emocional descompensado de Alec. O Arqueiro se colocou em risco na tentativa de resgatar Jace da tormenta mental imposta por Lilith, se jogou em um viagem obscura dentro da mente do seu Parabatai sem ao menos saber se conseguiria retornar, tudo que ele tinha em mãos era o seu amor incondicional por Jace e a sua fé nos poderes de Magnus, por sorte que o feiticeiro se mostrou maduro o bastante para entender a situação e não pensar mal de Alec, mesmo quando foi atacado por Lilith ele não obteve a atenção do companheiro, que continuava absorto e envolto em sua própria frustração por não ter conseguido salvar o irmão, o feiticeiro se conservou firme em seu propósito.

Acho que vale aqui um momento para exaltar a maturidade e o comprometimento de Magnus nessa situação toda. O feiticeiro nutre um sentimento de culpa por ter dado a Lilith a poção que ajudou nesse processo de manipulação de Jace e por isso quer ajeitar essa situação, mas por outro lado ele ama Alec de verdade e vem mostrando um altruísmo fora do comum. Talvez se estivéssemos no lugar dele desistíssemos de ajudar após as provocações de Jace ou após a emblemática frase de Alec. Ninguém é de ferro, nós sabemos, mas aquele não era o momento para cenas de ciúmes, reclamações por causa de palavras dúbias ou pela falta da atenção dispensada costumeiramente. Magnus se mostrou altivo, inabalável, esgotando as suas energias na tentativa de reativar o Vínculo Parabatai entre Alec e Jace, mostrando que mesmo os seus poderes têm um limite. Talvez por isso ele tenha se sentido tão decepcionado ao ser atacado e subjugado covardemente por Lilith, disposto a morrer nas mãos da vilã, de forma altruísta ele suplicou pelas vidas de Izzy e Alec. Magnus ainda não é como seu pai, forte o suficiente para combater um Demônio Maior como Lilith, isso ficou muito claro para nós, esse deve ser o motivo para ele pedir a ajuda de Asmodeus. Só espero que essa ida dele para Edom, com o intuito de salvar Jace e combater Lilith, tenha sucesso e ele não seja subjugado pelo seu pai. Quer prova maior de amor do que a abnegação mostrada por Magnus durante todo o episódio ao tentar salvar o Parabatai do namorado sem pedir nada em troca ou se questionar se Jace vale a pena ser salvo?

Shadowhunters/Jace

Do outro lado do Vínculo Parabatai temos Jace Herondale, transtornado pela possessão demoníaca, preso pela Configuração Malachi no meio da sala do loft de Magnus, ele se debate e oscila entre insultos e provocações que mexem profundamente com o emocional daqueles que estão próximos a ele. Se Dominic Sherwood estava procurando uma chance para brilhar, ele conseguiu. Como tem sido bom ver cenas de Dom sem Kat por perto, certamente a moça tem impedido o rapaz de apresentar um trabalho mais elaborado. A saga de Jace não tem sido fácil se formos levar em consideração a sua confusão em relação ao seu próprio sobrenome que em um momento é Wayland, em outro é Lightwood, depois Morgenstern e por fim Herondale. É impensável ver o Jace dos livros em uma situação de tamanha vulnerabilidade, apesar da doçura encontrada naquele personagem, mas a série televisiva trilhou um caminho interessante para criar a fragilização momentânea do Caçador, que finalmente mostrou um lado mais humanos e menos genérico. O personagem Jace não é unanimidade em lugar algum, nem nos livros, nem no filme ou na série, mas sou do time dos que gostam de personagens que não nos inspiram simpatia à primeira vista, como é o caso do loiro.

Três entram. Três saem.  Adoro ver Tomaso Sanelli (Jovem Jace), Leonidas Castronius (Jovem Alec) e Ana Maria Mallinos (Jovem Izzy) em cena fazendo o team teen dos irmãos Lightwoods. A interação deles é muito bonita e agradável e muito próxima da interação do elenco adulto. Aliás, gosto demais das cenas com os irmãos Ligthwoods adultos; Matt, Eme e Dom conseguem transmitir a emoção necessária para nos fazer crer que eles são irmãos, que se amam e que cuidam um do outro. Amei forte Izzy cantando em francês e chegando ao coração de Jace através do carinho e da confiança. Foi bem impactante ver Jace desmoronando em lágrimas dentro de um quarto com diversas Clarys mortas pelas suas próprias mãos, ainda bem que Alec, o rei do abraço, estava lá para tirá-lo desse devaneio. Devastador mesmo foi ver o Caçador suplicar para que os irmãos acabassem com a sua vida para impedir que ele cometa mais atrocidades. Jace está possuído, mas interiormente está remoendo as ações cometidas enquanto está sob o jugo do Demônio Coruja, por isso acho que ele nunca mais será o mesmo, caso saia com vida desse pesadelo. Para algumas pessoas essa não é a melhor forma de retratar o impetuoso Jace, porém, essa é a versão do Caçador escolhida para essa série e Dominic tem conseguido defender o seu personagem com bastante dignidade. O ator conseguiu trazer à tona sentimentos de angustia, desespero e medo; ele conseguiu nos mostrar que mesmo sendo forte é possível ser vulnerável também. Muita coisa aconteceu em A Heart of Darkness envolvendo quase todos os personagens, mas tenho que deixar aqui a minha menção honrosa para Dom, Eme, Matt e Harry, os quatro atores têm sido responsáveis por transformar a experiência de assistir Shadowhunters em algo bem agradável.

Shadowhunters/lilith 
Shadowhunters/lilith

Fiquei realmente surpresa por perceber que a Rainha Seelie demostrou ter medo de Lilith. Sei que Lilith é bastante poderosa e deve ser temida por todos, mas a Rainha das Fadas é uma criatura antiga, que detém poderes mágicos, por isso não imaginei que ela se portaria dessa forma diante de um Demônio Maior. A vilã devastou a corte da irônica Rainha em um piscar de olhos, sem sair do salto ou desfazer o cabelo. Na ocasião entendemos um pouco mais sobre as motivações que levaram a Rainha Seelie a conceder a Marca de Caim para Simon, o Vampiro Diurno e entendemos com isso que a marca é, aparentemente, o único elemento que pode banir Lilith de volta ao Edom. Contudo, essa explicação toda não nos ajudou a compreender a dimensão real dos poderes de Lilith, que as vezes é tão poderosa a ponto de mover a cripta de Jonathan para um outro ambiente, mas outras vezes não consegue usar a sua sintonia demoníaca para localizar o Demônio Coruja criado por ela mesma ou não consegue manipular elementos de feitiçaria básica para corporificar uma poção de esquecimento da pessoa amada. O fato é que a Rainha Seelie, mesmo estando por baixo, não perdeu a chance de negociar com a vilã, mostrando de que material ela feita, trocou a informação do paradeiro do Demônio Coruja pela preservação da sua preciosa vida. Achei a cena toda bem interessante e é curioso como eu acho que a menina Lola Flanery é bem mais convincente que Anna Hopkins como personagem de moral duvidosa.

Tenho gostado das interações entre Luke e Maryse, ambos são renegados e passaram por situações muito semelhantes junto a Clave, por isso eles se buscam em momento de crise. Cada dia admiro ainda mais esses dois, mas não me agrada o fato de Maryse ser deixada no escuro sobre o caso de possessão de Jace, já que informação é poder e ela conhece as pessoas certas para ajudar nesse problema. Mesmo assim Maryse decidiu passar por cima do seu orgulho para falar com a sua rival, a mulher que tem um caso com Robert, o seu ex-marido, no intuito de conseguir a ajuda que Clary precisa e para evitar que Luke se coloque em risco. Por outro lado, Luke quer ajudar Clary a todo custo, já que amarga até hoje a perda de Jocelyn. Sinto que Luke ainda vai se colocar em risco ou em rota de colisão ao encontrar com Lilith. Não gostaria que o personagem fosse sacrificado, afinal, ele funciona como uma espécie de mentor, de grande pai da turma jovem. Da mesma forma que temo pelo futuro de Luke, sou pesarosa em relação ao destino de Maryse, caso a personagem não seja envolvida em um plot de romance com Luke ou em alguma posição de interlocução entre os mundanos e o mundo sobrenatural, ela perderá a sua função na trama e isso poderá decretar o seu fim na história, igualmente a Jocelyn. Espero que nada disso aconteça com Maryse ou com Luke, ambos foram o único contraponto de leveza nesse episódio e eu gostaria de ver um pouco mais dos dois em cena.

Shadowhunters/ Clary e Jia Penhallow

A história que menos me importou nesse episódio foi a de Clary em Alicante, não por causa da fraca atuação de Kat, mas o risco construído não foi convincente, já que sabemos que não vão matar a protagonista da história. Sem falar que já estava mais do que na hora de Clary contar a todo mundo a história sobre o pedido feito ao anjo Raziel. O problema dessa história começou com a inexplicável morte de Jocelyn, mãe de Clary. Mataram Jocelyn, Clary sofreu horrores, até fez um pacto de sangue com uma feiticeira na esperança de trazer a mãe de volta, até aí tudo bem, depois disso a moça teve a chance de fazer um pedido ao anjo e ao invés de ressuscitar a mãe, ela ressuscitou o namorado. Eu entendo quando Jia diz a Clary que o dever vem antes do amor, que ser um shadowhunter está diretamente ligado aos sacrifícios que precisam ser feitos. Também entendo que Jia acredita que ter um desejo guardado na manga para os dias difíceis é a melhor chance para o Mundo das Sombras, por outro lado, Clary defende que ter um desejo que pode dizimar populações é muito arriscado e que foi bom ter acabado de uma vez com essa possibilidade. Mas Clary não foi altruísta, ela foi egoísta, não pensou na paz mundial, não pensou na mãe morta, apenas fechou a sua visão para o amor do momento. Isso foi errado? Não foi, ela está apaixonada! Mas também não foi certo, ela é uma Caçadora e deveria ter olhado mais além! O roteiro criou uma armadilha terrível para a personagem, que não é tão bem vista por conta da fraca atuação de Katherine McNamara e agora é constantemente julgada por ter preterido a mãe e escolhido o namorado na hora de trazer do mundo dos mortos um dos dois. O estigma da mãe morta sempre vai pesar sobre o casal, infelizmente. Não sei dizer o que o futuro reserva para o casal Clace, já que Jace está quebrado por causa dos seus atos advindos da possessão demoníaca e Clary é assombrada pelo fantasma da mãe morta que não foi ressuscitada. Mesmo assim, sigo na torcida por eles!

Shadowhunters/Maia & Simon

A tour do triângulo amoroso parece perseguir Simon e mais uma vez o vampiro se vê em meio a uma relação que nem mesmo ele consegue entender ou explicar. Simon nunca acerta na escolha do seu par romântico, mesmo Maia que trouxe para ele uma forma diferente de encarar a sua vida sobrenatural, agora o abandona em meio a uma trama de triângulo amoroso. Seria esse um sinal para o rapaz se aproximar logo de Izzy e formar o nosso shipp master de uma vez? A cena na van foi muito constrangedora e um sinal claro que Jordan ainda se julga parte integrante da vida de Maia. O praetor não conseguiu superar o seu grande amor, apesar de toda a situação do passado, por outro lado, Maia não consegue odiá-lo, apesar de toda raiva e fúria que dormitam dentro dela. Se ela não consegue ao menos odiá-lo é porque ainda há uma fagulha de sentimento que precisa ser queimada, mas não sei como essa dinâmica se daria, afinal ele a abandonou a própria sorte em um dos seus piores momentos da sua vida. Ademais, Maia agora está com Simon e seria estranho ela o deixar para tentar algo novamente com o homem que a abandonou, espero que na season 3B dediquem um pouco mais de tempo para contar essa história, ao invés de achatá-la em meio a tantos acontecimentos, como fizeram erroneamente nesse episódio.

Por falar em abandono, não gostei muito da atitude de Maia de querer partir sem ao menos falar com Simon, mas compreendo que ela está passando por um momento de grande perturbação e incertezas. O seu passado retornou na figura de Jordan Kyle, um homem que jura que mudou e aprendeu com seus próprios erros, mas o peso dos fatos pretéritos é inegável. Maia está em um beco sem saída, precisa de espaço, precisa se afastar um pouco de Jordan e de Saimon. Espero que Alisha retorne na season 3B plena para resolver esse problema.

Preparem o coração para a próxima semana!!! Teremos episódio duplo de Shadowhunters (3×09 e 3×10) na finale da mid-season!

Outras Informações:

Jia Penhallow: É a atual consulesa da Clave. Ela também é a esposa do Consul Patrick Penhallow e a mãe de Aline Penhallow.

Aline Blackthorn Penhallow: É a filha única de Jia e Patrick Penhallow e é a esposa de Helen Blackthorn. Aline é prima de Sebastian Verlac e amiga de infância dos irmãos Lightwoods.

Élodie Verlac: O contato de Luke é a líder do Instituto de Paris e tia de Sebastian Verlac.

Annamarie Highsmith: Caçadora de Sombras que teve um caso extraconjugal com Robert Lightwood.

Simon: O celular de Simon deve ser de outro mundo. Ele fotografou um poço escuro e profundo e mandou as fotos para Luke.

A turma que me pediu a música que tocou no final do episódio, basta clicar aqui.

REVISÃO GERAL
Nota:
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