Existem duas forças em Sense8 que aparentemente lutam dentro da lógica da série. Há a mitologia, a ideia de uma evolução dos humanos e a busca de um indivíduo em destruir os sensates. No entanto, a série se recusa a concentrar seus esforços no fortalecimento dessa faceta. Essa cautela é curiosa, porque afasta o público que se interessou pela série pelo seu mistério e pela ideia de uma ficção científica de ação dos criadores de Matrix. Para esse público, de fato, não há como negar: Sense8 não conseguirá atingir as expectativas. Para quem começou a acompanhar esperando nada além de uma boa história, sem moldes e rótulos, a jornada é recompensadora. E é na confiança desse segundo público que a série se ampara. What Is Human deu continuidade à lógica do capítulo anterior e concentrou seus esforços no crescimento pessoal dos personagens.
Lito continuou em evidência nesse décimo capítulo. Após proteger com tanto esforço a sua vida profissional, deixar o egoísmo impedir que ele defendesse uma pessoa que tinha o ajudado, o astro latino reconheceu os próprios erros e percebeu que sua prioridade é a vida que pode compartilhar com Hernando. Para assegurar isso, ele resgata Daniela. O melhor da cena do resgate foi a coerência em torná-la tão engraçada quanto tensa. Lito gritando: “Na minha cara não” e pegando vasos de plantar para lutar me levaram a gargalhas e Joaquim decolando com o soco de Wolfgang no final foi pura nostalgia de Mortal Kombat. Mas nada, nada superou Daniela-voyeur tirando fotos do casal reconciliado. Isso é a prova de que ela não somente guarda as fotos para siriricar, gente, mas também para apreciar os romances da vida.
Foi muito empolgante acompanhar o compartilhamento entre o latino e o alemão. Os dois eram um par que não revelava inicialmente uma boa oportunidade para sincronia, no entanto estamos aí na vida para ser estapeados na cara e os dois renderam duas das melhores cenas do episódio. Mais que a luta com Joaquim, a vingança aos que atacaram Felix foi o auge do episódio. Lito interpretando o grande papel de sua vida a la galã de ação foi hilário, mas nada preparou o terreno para aquela motherfucking bazuca. E aqui ficou a referência ao filme “Cloud Atlas” dos Wachowski, que também brincava com o humor diante de tensão e violência acentuada. No entanto, é inegável que fica a preocupação quanto ao futuro de Wolfgang. Ele será capaz de enfrentar a ira do tio e sua organização criminosa? Depois de tanta violência, ele continuará se enxergando da mesma forma? Ele estaria se entregando aos instintos do pai e se tornando ele?
Sun, Capheus, Kala e Nomi foram deixados em segundo plano dessa vez. A esperança de Sun de ser libertada e poder fortalecer o relacionamento com o pai está mais próxima de ser realizada e é doce perceber o olhar discreto banhado em expectativa dela. Kala revelou a seu pai a razão de ela e o pai de Rajan estarem conversando antes do ataque. Foi gratificante a postura compreensiva que o patriarca adotou ao analisar a questão e o impacto que as palavras de Kala teriam perante o contexto de morte do pai do noivo. Capheus basicamente compartilhou um momento com Kala e ficou a decepção por não ter sido algo mais significativo ou elaborado. A série nos acostumou recentemente a compartilhamentos tão engrandecedores que esse ficou em um nível abaixo. E Nomi transou, gente, só isso e precisa reclamar? Claro que não. Nomeets na veia!
Mas claro que o roteiro não abandonaria por completo a mitologia nesse episódio e Jonas (que é o porta-voz das questões sensates na série) trouxe mais explicações e esclarecimentos. A abordagem dos sensates como evolução biológico e não como seres míticos é uma decisão acertada por fixar a série mais firmemente na realidade. E, como todo contexto de evolução, há a dialética entre a espécie mais avançada e a ordinária. Por isso, elogios para o roteiro pela simplicidade em explicar a razão da perseguição aos sensates: os humanos não podem admitir que outra raça com habilidades psíquicas possam conviver no mesmo ambiente que eles. Mais concisa ainda foi a exposição da motivação de Jonas em proteger os protagonistas: querer garantir que sua espécie possa existir até o fim dos tempos. E novamente a série acerta por nos aproximar do personagem, afinal não há nada mais humano que o desejo de proteger seus iguais.
Riley, traficante de ecstasy para o pai e a trupe dele ( <3 ), foi a porta de entrada para uma das cenas mais emblemáticas da série: os partos simultâneos. Sim, foi lindo e tocante o fato de todos os sensates estarem assistindo o pai de Riley tocando com a orquestra enquanto eram bombardeadas as lembranças dos seus nascimentos (o nascimento de Lito enquanto a família assistia ao capítulo da novela foi épico). Além disso, a sequência foi a prova do estreitamento dos laços entre os protagonistas. No entanto, é inegável que a cena se prolongou demais e se tornou cansativa, reduzindo seu impacto emocional. Pelo menos os segundos finais retomaram a boa forma e fica a pergunta: estariam o acidente de carro e o parto de Riley relacionados com sua tristeza perene e a vontade de escapar a realidade?
Sense8 estreitou a conexão entre os protagonistas e começou a amarrar as pontas da temporada. O season finale está ainda mais próximo e será que a série conseguirá explodir nossas mentes?






















