Quando se fala em Legião Urbana se espera sempre o melhor. Os elogios superlativos à banda formada em Brasília não são exagerados. Tida como uma das maiores de todos os tempos, a banda fomentou uma idolatria pouco vista no Brasil até os dias de hoje. O país passava por uma reviravolta política e social com a redemocratização e o surgimento de uma identidade artística menos deferente e mais orgânica. O rock nacional nunca tivera o respeito merecido justamente porque era uma colcha de retalhos do que acontecia na Europa (Inglaterra e Itália) e nos Estados Unidos. Por isso fica um gosto amargo ao final da leitura de “Memórias de Um Legionário” da editora Mauad e escrita por Dado Villa-Lobos, Felipe Demier e Romulo Mattos.
Mesmo que o autor principal tenha dito na apresentação do livro que “não teria tempo nem disposição para relembrar e redigir” sua história, é decepcionante que o primeiro relato de um legionário não tivesse tantas passagens inéditas para o fã de Legião Urbana. Dado recorre inúmeras vezes, do início ao fim, a outros recortes literários de jornalistas e escritores contando a história da banda brasiliense. Se é cruel chamarmos de preguiça que as referências textuais de outros livros sirvam de lembrança para tantos episódios curiosos, não é lá uma boa concepção para uma publicação oficial de um integrante do grupo. Óbvio que Dado poderia passar por tais momentos mesmo que eles sejam conhecidos do público, mas não custava que ele mesmo desse sua visão – e não a de outros – para capítulos como os que envolviam sua relação com Marcelo Bonfá e Renato Russo.
Esta discrição quanto a descrição dos fatos podem causar impressões equivocadas e que podem se tornar tangentes pela ausência de detalhes e uma certo falta de dom para literatura. Uma que fica é que entre eles não havia a amizade que ele diz ter com seus companheiros. Não há uma menção de carinho e amor sobre eles. Tudo se dá no campo da oportunidade, da sorte e do talento. O livro, depois que narra a formação da Legião como banda (ainda com a inclusão do Renato Rocha), passa a ser história dramática de um super grupo de milhões de discos vendidos, com sucessos eternos, com uma cumplicidade mais com a profissão do que com a relação afetiva entre ambos. “Isso não é verdade”. Se não é, o livro deixa brechas para que se pense assim.
Do que vale então as memórias (emprestadas) de Dado Villa-Lobos?
Conhecer as histórias de alguns clássicos da banda como “Ainda é Cedo” ou mesmo antipatizar (!) com Russo, que segundo as lembranças do guitarrista, era um egocêntrico, chato, infeliz com a felicidade dos outros, problemático, alcóolatra, viciado e um poeta vivendo dentro de um ser angustiado. O lado bom do compositor e músico se esconde em pouquíssimos parágrafos, quando, por exemplo, presenteia Renato Rocha com um baixo novo e ele o perde. Se Dado não esconde as facetas etnocêntricas do líder da Legião Urbana, por humanidade, faltou equilibrar “a coisa”. Renato muitas vezes foi retratado como vilão – como quando brigou com a esposa de Dado, naquele momento empresária da banda – e as suas qualidades ficaram apenas restritas a sua condição artísticas.
Parênteses.
Há alguns anos tive oportunidade de entrevistar junto com o jornalista André Rocha (hoje blogueiro do site ESPN) um músico de apoio da banda na turnê do disco “O Descobrimento do Brasil” lançado em 1993. Solícito, o músico e compositor, em seu depoimento, entre tantas histórias, também não escondeu o perfil de vilania que o cantor carioca não fez questão de mascarar. Até opinou sobre o imbróglio jurídico que envolvou Dado e Bonfá e a família de Russo em torno dos direitos da banda. Palavras suas: “se existiu um filha da p#$&a nesta história, foi o próprio Renato.” Por questões éticas, prefiro não citar o nome do entrevistado.
Anos mais tarde, foi a vez de conversar com Carlos Trilha, tecladista que acompanhou a Legião Urbana na mesma turnê e foi um dos responsáveis pelo sucesso dos discos solos de Renato; “The Stonewall Celebration Concert” e “Equilibrio Distante”. Em seu estúdio de gravação, disse a meu blog na época o quanto era difícil trabalhar com Renato porquanto sua personalidade prepotente e perfeccionista. Durante as gravações de “A Tempestade Ou O Livro dos Dias”, o último disco oficial da banda (“Uma Outra Estação” seriam as sobras destes registros em estúdio), Trilha recebia ligações na madrugada de Renato. Do outro lado, o músico esbravejava sobre a qualidade do que vinha sendo feito até ali. E dizia: “Pois é, reizinho*, você fica em casa enquanto a gente fica se matando e depois fica ligando para encher o saco!”. Do outro lado, uma voz em fiapo respondeu: “Seu m$%R* eu estou doente, p$%¨#$!” e desligava o telefone. Trilha foi noticiado da morte de Renato durante uma festa.
Fecho parênteses.
Dado Villa-Lobos poderia ter explorado sua própria história. Mesmo que o interesse em torno da história da sua banda fosse grande, poderia ter optado por ser o protagonista do seu livro. Com a discrição com a qual foi conhecido, escreve o livro com singeleza e cortesia, mas é pouco. Por motivos óbvios conta sua história de criação na Europa, mas não traz profundidade nem para seus próprios projetos. Para que se tenha uma ideia, faltam tantos detalhes à carreira do grupo, que o próprio Marcelo Bonfá é um personagem de luxo, uma participação especial. Há um desequilíbrio narrativo muito próprio de um despreparo para o desafio. Biografias muitas vezes são maçantes pelo detalhismo e as motivações grandiloquentes do texto. Não é o caso de “Memórias de Um Legionário” que faz um best of do que boa parte já sabe sobre a Legião Urbana.
Hoje a literatura sobre a grande fase do rock nacional é farta e é possível ter acesso aos bastidores das histórias de sucesso de grandes artistas da década de 80 e 90, mas se você busca mergulhar no universo legionário, pode ser que ao final do livro você ainda esteja na superfície.
* Em outras ocasiões quando entrevistado por outros meio midiáticos, Carlos Trilha usa a expressão “sua majestade” para se referir à Renato Russo. O cuidado era não ofender os fãs do cantor e amenizar, mesmo sendo factual, os problemas de relacionamento que havia durante as gravações do último disco da Legião Urbana.



















