Em Search Party, Dory Sief está andando pela cidade quando encontra um cartaz que comunica o desaparecimento de Chantal Witherbottom, uma garota que ela reconhece da faculdade: houve um esbarro entre elas uma vez, e a desaparecida fora gentil à época. Conforme continua andando, Dory vai se sentindo deslumbrada com a história, com o mistério do desaparecimento. Aos poucos, ela substitui a garota em sua memória, praticamente uma desconhecida, por uma amiga que precisa de ajuda e só pode contar com ela. Para ajudá-la nessa tarefa, seus amigos e seu namorado são convocados. Eles, que no começo parecem preocupados com o interesse dela na história, logo se envolvem no caso e em situações embaraçosas e bizarras.

Em cena: os atores Alia Shawkat como Dory Sief e John Reynolds como Drew Gardner. Search Party
Em cena: os atores Alia Shawkat como Dory Sief e John Reynolds como Drew Gardner. Search Party.

Search Party é uma comédia da TBS que estreou no final de novembro do ano passado, na semana do dia 21, tendo seus episódios exibidos em dupla, estreando na segunda e finalizando sua temporada na sexta-feira. A primeira temporada conta com apenas dez episódios de pouco mais de vinte minutos cada. A série é criação do trio  Sarah-Violet Bliss, Charles Rogers e Michael Showalter, nomes poucos conhecidos na televisão, mas que já chegaram impressionando pela qualidade do material que criaram, além de se dividirem entre os roteiros dos episódios.

Como adiantado no primeiro parágrafo, a série segue a rotina de Dory em Nova Iorque, enquanto ela encontra pistas sobre o paradeiro de Chantal, jovem que desapareceu. A história tem consciência do mundo artificial em que se passa e reflete muito nossa geração da internet e aquela sensação de conhecer uma pessoa por conta de mídias sociais. O roteiro pode causar certo estranhamento no começo, principalmente no que se refere às personagens, que não nos cativam de primeira, mas com insistência entendemos seus diálogos e aonde a comédia quer chegar com eles.

Search Party e a obsessão pela vida alheia.
Search Party e a obsessão pela vida alheia.

A equipe de busca do título da série é formada por Dory (Alia Shawkat), uma assistente pessoal que trabalha prestando serviços a uma senhora rica e solitária. Cansada de seu trabalho, mas sem sucesso tentando arrumar outro, a estagnação na vida profissional e pessoal, uma vez que seu namoro às vezes a enlouquece, é o principal motivo para que ela entre nessa jornada de ajudar alguém que ela não tem certeza se realmente precisa de ajuda — ou se está viva para contar com isso. Ela tem um relacionamento há mais de três anos com Drew (John Reynolds), jovem muito calmo, muito de bem com tudo — ou muito entediante, para falar a verdade. Os amigos dela ajudam como podem: Elliott Goss (John Early) é rico e narcisista,  viciado na linguagem da internet e sem muito tato para se relacionar com outras pessoas; não que ele não goste, ele só não tem ideia do que está fazendo a maior parte do tempo; Portia Davenport (Meredith Hagner) atua em uma série de tevê enquanto ajuda a amiga nas tarefas de investigação; também rica, ela tem um relacionamento estranho com a mãe e às vezes extrapola para parecer simpática. Vale destacar ainda um investigador contratado pela família de Chantal, Keith (Ron Livingston), com quem a protagonista resolve trabalhar, dividindo suas informações.

Os atores John Early como Elliott Goss e Meredith Hagner como Portia Davenport completam a “equipe de busca” que nomeia a série.
Os atores John Early como Elliott Goss e Meredith Hagner como Portia Davenport completam a “equipe de busca” que nomeia a série.

O elenco, que conta com alguns rostos desconhecidos, foi bem escalado. Alia Shawkat demora a nos cativar pela falta de carisma da protagonista nos primeiros episódios, mas isso muda conforme o enredo avança e vamos nos identificando.

A primeira temporada da série tem um bom desenvolvimento e sabe dividir seus episódios. A premiere (ou The Mysterious Disappearance of The Girl No One Knew) nos apresenta suas personagens em situações diversas. Como a proposta é falar sobre essa equipe de busca junta e individualmente, mesmo as cenas isoladas e que não contribuem à trama principal são bem-vindas, principalmente se protagonizada pelos dois amigos ricos e mimados. Vemos ainda que Dory às vezes recorre a Julian (Brandon Michael Hall), seu ex-namorado jornalista. A rotina dela, compartilhada conosco, é tão oca e sem significado que fica mais fácil assimilar suas decisões equivocadas tomadas em seguida, quando se entrega à jornada.

Em cena: Alia Shawkat como Dory Sief e Ron Livingston como Keith Powell, um investigador contratado pela família e que se alia à jovem.
Em cena: Alia Shawkat como Dory Sief e Ron Livingston como Keith Powell, um investigador contratado pela família e que se alia à jovem.

No episódio seguinte, Dory encontra uma testemunha paranoica que viu a desaparecida em algum lugar — Rosie Perez faz uma ótima participação como Lorraine. Depois das situações bizarras que essa testemunha coloca a protagonista, vamos à vigília criada pela família de Chantal, passamos por um jantar desconfortante com seu ex-namorado e esbarramos no que pode ou não ser um culto envolvendo moças grávidas e mestres sendo rudes demais. Tudo contado rapidamente, a série não perde tempo e a edição é ágil. Há também um cuidado com o figurino e a fotografia em geral que exprimem a artificialidade que se quer retratar. A trilha contribui de forma significativa e se destaca positivamente no decorrer dos episódios.

Enquanto as personagens levam o mistério a sério demais e se envolvem em situações perigosas, pelo menos na cabeça delas, a série faz o contrário e debocha muito desse clima de thriller. O que ela pretende é conversar conosco sobre a capacidade de abandonar a própria vida e se voltar a dos outros e por que alguém faria isso: o que a pessoa espera encontrar no dia a dia alheio que não está em si. O mistério sobre Chantal é bem bobo, então adianto isso. Não compramos muito essas complicações, algumas coisas sabemos aonde vão levar e o desfecho que explica o desaparecimento é previsível. A história parece infantil às vezes, e em alguns momentos me lembrou Cidades de Papel de John Green, livro que também fala sobre um desaparecimento e alguém caçando pistas por aí.

No terceiro episódio, a equipe de busca vai a uma vigília sobre o desaparecimento de Chantal.
No terceiro episódio, a equipe de busca vai a uma vigília sobre o desaparecimento de Chantal.

Search Party sabe ser cínica. Por mais que proponha essa viagem de autoconhecimento de Dory, ela zomba de tudo e de todos no caminho, seja da ideia de fidelidade entre namorados e amigos, seja do mito que se constrói a partir de detalhes que ficamos sabendo da vida de outras pessoas, como doenças, mesmo que não tenhamos certeza da veracidade dos fatos — e isso ocorre muito em redes sociais, quando todos se convencem com uma foto e poucas palavras no Facebook, por exemplo, sem apurar aquilo direito. Há uma cena em que os amigos ricos de Dory lhe negam dinheiro para que ela pague alguém que diz saber onde Chantal está. Logo após, os quatro, incluindo os amigos ricos, decidem chantagear um cara rico para conseguir o dinheiro. Se você não tiver entendido bem a mensagem da série até essa cena, nela está tudo entregue — ou no último episódio, que é bem constrangedor.

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Após sua estreia, a série foi aclamada pela imprensa e críticos e recebeu boas pontuações dos sites especializados, o que garantiu sua segunda temporada.  Não faço ideia de aonde levarão a história a partir do desfecho que teve, mas há personagens e tramas que têm muito a explorar ali, então fico animado com a notícia. Aposto que a equipe de busca encontrará mais um mistério para se envolver até lá. Search Party é mais uma dica de série que dá para assistir em uma tarde sem compromissos, intercalando os episódios com aquela checada na vida (de rede) social. Assim como Black Mirror e seus dramas muito sérios exploram o absurdo da tecnologia, algumas comédias como esta exploram (e debocham) o absurdo na atualidade de nosso convívio entre apas.

Cena da season finale de Search Party.
Cena da season finale de Search Party.
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.