Transgressão do início ao fim.
Uma das coisas mais sensacionais que o teatro promove pela formação de plateia é a flexibilidade daquilo que chamamos de “fé cênica”. É interessante notar como na televisão e no cinema as cobranças por versões da realidade são sempre muito maiores… No teatro, o público se propõe a acreditar em cenários e geografias que desafiam muito mais o concreto do que qualquer obra teledramaturgica. Não se veem cenários ou atmosferas reais, mas mesmo assim o espectador acredita.
Scream Queens não poderia ser chamada de “teatral” por essa mesma órbita, mas assisti-la sempre foi o mesmo que exercer a própria capacidade de tolerar o fantástico. Se ela fosse teatro talvez fosse menos cobrada e mais festejada pelo seu absurdo. Porém, emoldurada pela televisão, leva o instinto do espectador a não aceitar a ambiguidade de seu formato. É uma pena, porque debaixo da linguagem insana, há o mesmo ímpeto de desvendar a verdade pelo viés da “mentira”. Retratar absurdos pode ser um jeito muito eficiente de conseguir isso.
Em sua pouco bem-sucedida primeira temporada (em termos de audiência), a série nunca se acovardou do seu compromisso com sua linguagem descontrolada. Ryan Murphy e seus pupilos conseguiram lapidar o exercício da provocação verbal e criaram um gênero híbrido, regado a referência, nonsense, drama e comédia. É claro que como com todo produto dado a transgredir demais, a primeira tentativa pode soar cheia de arestas aparáveis. Esse primeiro ano ainda se atropelou na própria ansiedade e deixou muitos espectadores pelo caminho, mas nunca se poderá dizer que Murphy sai irrelevante de qualquer de seus trabalhos. Doa a quem doer, ele sempre fala sobre e para uma sociedade doente e nociva.
O episódio duplo que encerrou a temporada foi outro desses que seguiu para várias direções absurdas, que no fundo estão dentro do mesmo conceito. Sempre houve por baixo de todo a loucura, uma necessidade de expor a juventude americana na sua engrenagem brutal de vaidade e preconceito. O problema é que dentro da proposta de revisitar os slasher movies há uma atenção aos códigos que fazem a visita ser bem-vinda. A finale de Scream Queens acertou em cheio em alguns pontos, errando apenas em proteger demais as possibilidades de futuro.
No fim das contas, minha amiga Lena tinha razão e Pete era um dos assassinos. Ou melhor, era “meio que um dos assassinos”. Considero esse um dos pontos mais frágeis do enredo principal. Eram tantos Red Devils envolvidos no plano, que por alguns instantes o miolo da história ficou difícil de digerir. Foi bom ver Pete sendo intenso em uma cena, mas sua inserção como uma espécie de apoiador ideológico dos assassinos soou deslocada. De certa forma, Murphy quis fazer crescer o personagem nessa despedida e também brincar com as expectativas do público. Foi interessante justamente para aumentar a tensão da revelação principal, deixando claro que o Red Devil restante tinha que ser uma das meninas.
Hester ser a assassina foi óbvio, como Murphy tinha declarado. Mas, nesse ponto das tramas de slasher, a Final Girl luta e sobrevive bravamente, cumprindo os ciclos naturais desse tipo de produção. Óbvia também era a postura do roteiro, que não iria deixar de desafiar as regras. Os planos de Hester, ao contrário do que se vê nos filmes do gênero, não foram revelados em meio a um massacre. A assassina foi fria, argumentativa, jogou suas colegas no meio das suspeitas e conseguiu o impensável para qualquer vilão desse tipo de história: tornou-se ela, a verdadeira Final Girl.
Foi a coroação do ótimo trabalho de Lea Michele, que esteve louca e cômica como nenhuma outra das Chanels. E para explicar a escolha dela como assassina, os roteiristas foram tocar de novo nas feridas da sociedade burguesa americana. Em dado momento, Hester diz que “as Chanels perpetuaram um sistema que criou-a” e tal qual os alunos que atiraram nos colegas em Columbine, justificou a morte de inocentes através das próprias frustrações. Não existe um motivo justo para algo assim, mas não se pode fechar os olhos para como essas disputas de popularidade interferem na construção da auto-estima mesmo de quem está longe. É m ciclo que vai produzindo monstros, que anos depois reagem confirmando isso.
Ao mesmo tempo, enquanto Hester desfruta o sucesso de seu plano, as Chanels amargam um absurdo julgamento que as condena a um sanatório. As supostas vilãs também são transgredidas e quando inseridas num ambiente sem pirâmides a serem escaladas, descobrem o que nunca tiveram: paz. Chanels pressionam, mas não significa que não sejam pressionadas. A prisão delas abriu a porta para a diversidade na KKT e sem querer, abriu portas para elas mesmas reencontrarem a expressão humana da vida. Uma vida agora cercada de inconsciência a respeito de tudo que precisa ser reafirmado perante a sociedade consumidora.
Visto por esses ângulos ideológicos a finale foi satisfatória. Ainda acho que houve pouca ação e que para uma produção que homenageia os slasher movies, a completa ausência de mortes dá um banho de água fria. Wes, Munsch, Denise, Chad, Zayday, Grace, Hester, Chanel, Chanel 3 e Chanel 5 saíram incólumes e me pergunto onde estaria aquela declaração de Murphy de que apenas 4 personagens estariam vivos no fim. Não sabemos se por causa de um segundo ano, se por causa de um fluxo natural criativo… O fato é que ficou gente demais viva e que senti muita falta da perseguição final entre o assassino e a Última Garota. Então, logo depois que penso nisso, me lembro que o plano de Hester era se tornar a Final Girl (bem como Emma Roberts em Scream 4) e que essa é a perspectiva derradeira que Scream Queens deixa de herança. Não posso julgar isso negativamente…
As informações sobre uma renovação são confusas e mais ainda são as notícias sobre se teremos uma antologia ou uma continuação. Ao assistir a finale, sou mais inclinado a torcer por um reboot completo, onde haja uma nova chance de aparar os exageros sem nunca perder o espírito do show. Scream Queens, vejam só, escreveu uma história sobre pais e filhos… E do jeito mais cruel e verdadeiro que nossa fé cênica pode reconhecer.
Screamzinho: Hester enfiando um sapato no olho… Que personagem deliciosa.
Screamzinho 2: Hester sobre a escolha do colar cervical: eu buscava uma forma de ser invisível. Mais um tapinha na cara da sociedade.
Screamzinho 3: Denise e Chad, Munsch e Wes… Os casais de última hora mais disfuncionais da televisão. Aliás, também esperava mais de Denise nesse finale.






















