Toda família tem segredos.

Assim como o Brasil, a Argentina enfrentou um dos mais duros governos ditatoriais. E assim como em Terra Brasilis, o cotidiano de medo perene e a ausência de não saber se chegaria ao final do dia em casa, deixavam as coisas insuportáveis em níveis palpáveis. Que tais atos de abdução fossem feitos pelo governo, isso de certo modo seria compreensível. Mas quando tais ações partem de uma família pacata do subúrbio argentino? E com esse plot que “O Clã” (El Clan, 2015) apresenta uma película de força narrativa destruidora.

“O Clã” conta a história da Família Puccio, responsável pelo sequestro e morte de várias pessoas durante entre os anos de 1982 a 1985. Os Puccio eram uma família “perfeita”. Arquimedes e Epifania tinham cinco filhos entre eles Alejandro, jogador do time de Rugby da seleção argentina. E por baixo dessa persona de pai pacato, se escondia um agente do Serviço de Inteligência do Estado.  E através desses contatos que se dá início a vida criminosa, que iria tragar não só ele, como os filhos e agregados da família, além de chocar a Argentina na época. Falar mais pormenores estragaria a experiência de acompanhar a película.

O elenco tem seus nomes de destaque. O maior deles vai para Guillermo Francella, que dá vida a um Arquímedes ao mesmo tempo humano e de uma monstruosidade ímpar. O responsável por arquitetar os crimes e das decisões mais escabrosas é retratado como um pai de família normal, que você poderia encontrar em qualquer lugar, mas com aquela aura de “algo estranho” no ar. Peter Lanzani também entrega um Alejandro que fica entre o cumplice e filho arrependido. Francella e Lanzani carregam o filme nas costas com uma relação que começa em cumplicidade e depois se torna de repulsa e vingança. A cisão que se dá no seio familiar, o apoio e repulsa é o motor da questão principal do filme. O quanto cada um sabia do que realmente acontecia ali? E essa dúvida permanece após a sessão.

Pablo Trapero sem dúvida mereceu ganhar o Leão de Prata no Festival de Veneza deste ano. Ele consegue urdir uma tapeçaria interessante ao misturar os crimes da família com os acontecimentos da Argentina durante o final da ditadura e no início do governo democrático, criando um panorama histórico-social de peso para basear a narrativa que se propôs a construir. Além disso o modo no qual ele utiliza o tempo é um dos charmes do filme. Indo e voltando no tempo, ele vai cobrindo todos os aspectos da história até chegar ao ponto de convergência e entregar um dos finais mais arrebatadores que já vi esse ano.  A trilha sonora também, utilizando hits de várias épocas para embalar os momentos tensos do filme.

Por ser baseado numa história real pode soar um pouco “enfadonho” para aqueles que esperam uma investigação policial de ação hollywoodiana. Como é de praxe do cinema latino americano, o que importa mais é o modo de contar a história e o clima, a ambientação, assim como o estado mental do personagem. O indicado da Argentina para concorrer ao Oscar 2016 e a maior bilheteria do ano em terras portenhas, é sem dúvidas um filme que vale ser visto, não só por espelhar uma parte da história que temos em comum, mas para mostrar o quão monstruoso o ser humano pode ser.

* O Série Maníacos assistiu ao filme a convite da Fox Filmes do Brasil

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.