Eles sempre voltam.

Dois dias antes da exibição do último episódio da temporada de Scream, o diretor da franquia de filmes e produtor executivo da série Wes Craven, faleceu. A notícia foi triste para a comunidade artística em geral e emblemática para os fãs do cinema de horror e terror. Craven foi responsável por dar o tom de uma era de gritos e sustos e lá no meio da década de 90, inesperadamente, acreditou no roteiro de um jovem aspirante chamado Kevin Williamson, que com seu inicialmente chamado Scary Movie, revigoraria o gênero e marcaria seu nome na história pra sempre.

A franquia Scream sempre foi honrada com as melhores críticas… Quentin Tarantino disse recentemente que teria adorado dirigir o primeiro filme e não é difícil encontrar esse original em rankings de melhores momentos do cinema como um todo, já que Scream não era só susto e facadas, mas também era texto, ironia, referência e metalinguagem. Até mesmo as inevitáveis continuações que poderiam destruir a reputação do projeto nunca foram absolutamente bem-sucedidas no quesito, uma vez que a quadrilogia se equilibra com dois filmes muito bons e dois filmes de medianos para abaixo da média.

Então eis que esse universo chegou até as séries de TV e por mais que as razões sejam essencialmente comerciais, todos os envolvidos na mitologia de  Scream sabem que ela só pode ser chamada assim se detiver o mínimo que seja de intelecto. Queremos mortes, perseguições sem sentido e gritos histéricos que nunca ninguém ouve… Mas, em se tratando dessa franquia, não existe magia se não existir o texto… Dez semanas depois podemos avaliar Scream – a série como um todo e chegar a alguma conclusão sobre se a criação de Kevin e o legado de Craven foram respeitados.

Desde o episódio piloto as boas intenções dos responsáveis pelo projeto ficaram evidentes. Ainda que o elenco continue sendo um dos piores já escolhidos para uma produção teen, os roteiros foram escritos com algum esmero, buscando reverenciar os filmes, mas mantendo vivo o espírito da teorização. Ou seja, se tudo em Scream se baseia em regras e arquétipos, quando o formato ganha a longevidade da TV, algumas dessas regras e arquétipos precisam ser reavaliados.

Assim, além de encher Noah com citações de outras séries de TV (não só de filmes, como no original), a missão do show era aumentar os enredos paralelos e enriquecer os personagens com detalhes que num longa não poderiam ser vistos. A decisão é assertiva, mas quando colocamos o elenco em perspectiva o resultado é um pouco deformado. Ao mesmo tempo em que há o exemplo de Brooke, que cresceu positivamente na história, há o caso de Kieran, que tem a impressionante capacidade de não ter nenhuma relevância e nenhum carisma. E precisamos ser complacentes até, porque plots como o do pai da loirinha revelaram-se absolutamente inúteis para o contexto do enredo principal.

Aliás, falando em enredo principal vamos a ele, porque tudo nesse season finale foi sobre revelar o assassino. E se Scream funciona com auto referência o tempo todo, não vou me privar de comparações. O final sempre tem uma métrica e os fãs da franquia sabem muito bem qual é:

Evento final: uma festa ou data comemorativa.

Saldo de mortes: extenso, com várias mortes falsas para nos confundir.

Assassinos: dois, geralmente.

Sobreviventes principais: três (e um suspeito adjacente em alguns casos).

Com um título autoexplicativo, a finale da série cumpriu quase todos os quesitos. Providenciou uma festa de Halloween na casa de Brooke, arranjou um jeito de todos irem embora correndo, só deixando os personagens principais e recheando o episódio de cenas clássicas em que alguém está dentro da casa em dúvida se abre ou não pro coleguinha assustado que bate no vidro. Disso não temos como reclamar.

O banho de sangue prometido pelo assassino, entretanto, flopou. O xerife já estava meio morto no penúltimo episódio e esfaqueado mesmo até a morte só o figurante que deu um beijo em Brooke. A decisão de não fazer temporadas antológicas eu entendo perfeitamente, já que o formato do gênero exige ligações entre os sobreviventes. Mas, teria sido mais corajoso escolher dois sobreviventes para seguirem com Emma e matar todo o resto. Preservar todo o elenco principal que chegou até a finale deixou o encerramento um pouco apático, pouco impactante. Noah e Brooke poderiam ter sobrevivido e Jake, Branson e Kieran sido assassinados.

Então, se a MTV freou para respeitar a regra das mortes em massa, deu um passo ousado na hora de lidar com a revelação do assassino. O roteiro preferiu ser coerente e não apenas chocante e por isso já merece aplausos. Da forma como se construiu, era possível prever bem antes que Piper era uma das assassinas. Logo depois, no momento em que o assassino flagra Audrey, mas não a mata, também entregou que ela poderia ser a segunda assassina. Não estava claro pra mim, entretanto, como elas iriam se conectar.

Com exceção do discutível Pânico 3, todos os outros enredos envolviam um assassino que estava ligado à Survivor Girl e outro que só queria diversão e fama. Quando Piper arrancou a máscara já veio com um ótimo discurso feminista deslocado, de que todos sempre se referiam ao assassino e ao bebê de Brandon James como “ele”. Com uma cara de louca pouco assustadora, a personagem não nos revelou muito mais do que já sabíamos. Mas, faltava o segundo assassino e quando Audrey deu o tiro no exato momento em que Piper dizia algo do tipo “E tem mais uma surpresa que você nem mesmo vai ver chegando…”, também ficou evidente que a bi-curious era o segundo elemento do plano.

Numa fala bastante emblemática, Emma diz a Noah, no carro, que eles “vão mudar o final”. Ele, mais tarde, diz a Audrey que daquela vez não seria apenas a survivor girl na ambulância e sim todos eles, metaforicamente falando. Esses dois momentos são o embasamento que os roteiristas incutiram no episódio para justificarem o adiamento das motivações do segundo assassino para a temporada que vem. Se não é um filme e sim uma série, há espaço para a discreta manipulação das regras e acho que os roteiristas foram muito espertos ao decidirem por esse caminho. Sobretudo porque agora, mais do que nunca, queremos saber como uma segunda temporada se sustenta com o público já sabendo a identidade de um dos assassinos. Sim, porque é uma questão de honra que a suspeita em Audrey seja mantida, já que a cena de Piper sendo atacada no galpão exige um segundo nome.

Enfim, prometeram um banho de sangue e não cumpriram, foram coerentes na revelação do assassino, mas deixaram o segredo maior pro ano que vem… Colocando Scream em perspectiva agora, digo com segurança que não perdi meu tempo assistindo-a. Ela não errou feio e nem acertou bonito, mas garantiu o respeito à minha experiência como fã . Acho que no final das contas era isso mesmo… Craven se foi dois antes de ver que a magia do mundo de Scream ainda está perturbadoramente viva na nossa cultura. De algum jeito eles sempre voltam… De algum jeito a gente sempre fica.

Last Scream: Palmas para a cena de Brooke se escondendo no freezer. Mas, as palmas não são porque foi esperto e sim porque honram os esconderijos ridículos em alto nível.

Last Scream 2: Noah citando o bom e velho “I’ll be right back” mas esquecendo de comentar o absurdo que é as pessoas ainda se separarem nesse tipo de filme. Porque raios todos não se agrupam e procuram juntos?

Last Scream 3: Quando Brooke fala do telefone de linha que tem na cozinha, Jake debocha citando o ano de 1996, ano em que estreou o primeiro filme da franquia.

Last Scream 4: Audrey atirando em Piper: “a vadia fala demais”. Impressionante como os assassinos preferem monologar antes de cometerem o crime final.

Last Scream 5: Depois da morte de Craven nem pensar em Pânico 5, né? O sonho da nova trilogia acabou.

Obrigado a todo mundo que curtiu essa temporada comigo e espero vocês no ano que vem, ok?

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