Olivia Pope: A mulher que Shonda Rhymes queria ser.

Spoilers Abaixo:

Nessa última semana de Scandal (até seu retorno) vamos ter que intertextualizar a nossa review com a review da Camila Barbieri, que muito coerentemente, fez uma análise de a quantas anda a personalidade megalomaníaca de Shonda Rhymes. Tudo por conta do final de temporada grotesco de Grey’s Anatomy, que ilustrou o tamanho do compromisso de sua criadora com o personagem midiático que ela construiu.

Ninguém importante morreu em Scandal, mas se as reviews passadas fossem relidas, um apontamento recorrente aparece: a construção de Olivia Pope. Me arrisco a dizer, que nunca na história de uma série, um personagem foi construído de maneira tão chapada. Até porque, se avaliarmos os seus semelhantes, a diferença fica perceptível.

Nessa era de protagonistas politicamente incorretos, destaquemos House, por exemplo. O doutor é o que mais se assemelha ao nível de criação da Pope. É o melhor no que faz, é vaidoso, egocêntrico, nada social e tudo gira em torno dele. A questão é que House só tem um trabalho porque é o melhor, do contrário, ele seria jogado na sarjeta. Ele tem uma personalidade nociva, mas sua competência profissional não apaga isso. Ele é um fracasso com outras pessoas, e a série reforça isso o tempo todo. Já com Olívia não é assim. A série louva e comemora cada desvio da personagem, o tempo todo, endeusando-a como a única mulher infalível do planeta. A agressividade, antipatia e arrogância dessa mulher, não parecem atingir ninguém em torno dela. Olivia faz o que quer, do jeito que quer, mas é amada por todos. E num nível de devoção que assusta. Até o guardinha da guarita da Casa Branca tem algumas palavras de admiração para dizer pra ela.

Pra piorar, Kerry Washington não construiu uma personagem agradável. No entanto, Shonda deve estar adorando, porque Olivia Pope é a representação de tudo que ela considera imprescindível para sua fantasia social. Uma mulher forte, que catalisa as emoções alheias e as manipula. Até o “instinto” de Olivia é sublinhado na série como algo sem justificativa prática, mas que merece ser levado em consideração simplesmente porque vem dela. E o fato de Olivia ser negra, pra mim não é mera coincidência.

Olivia é a Shonda do universo paralelo em que ela vive.

Exatamente por isso tudo, analisar essa série é tão complicado. Até porque, quando a trama começa a ficar envolvente, temos que aturar essa presença de Olivia, tão opressiva e exigente. É como se ela dissesse: “Olhem pra mim. Sou eu e como faço discursos, que interessa”. Do mesmo jeito que Shonda gritou veladamente para o mundo: “Vejam como EU mato qualquer personagem. A coerência que se dane”.

E a trama de Scandal foi mesmo envolvente. Pelo menos até esse Season Finale, que acabou não me presenteando com o que eu realmente queria (que era o envolvimento do Presidente), mas que teve seus méritos.

Começamos com Quinn agindo como uma completa idiota e não justificando de novo sua permanência na série. Tudo pra Olívia vir com seu super time e limpar a sujeira. Continuo achando absurdo o que esse pessoal faz pra viver, mas mesmo assim, comprei a ideia. Mais impressionante que tudo é Olívia limpando, com aquele efeito de velocidade na imagem, e a bolsinha a tira colo, intacta.

Esse finale, no entanto, não é sobre Quinn e sua cara de pata assustada, mas sobre toda a conspiração envolvendo o presidente e Amanda Tanner. E quanto a isso, posso dizer que não sou a pessoa mais feliz do mundo com o resultado, mas tudo funcionou direitinho. Billy jogou a merda no ventilador e agitou as coisas.

Ainda enxergo alguma coisa de machista na postura do roteiro de não culpar o presidente e transformar a primeira-dama numa mulher hedionda, mas confesso que me empolguei com a sequência entre ela e Olivia. A mulher do presidente, mesmo em sua frieza e praticidade, parece mais real que todo aquele amor bombeado entre Pope e Grant que tentam nos fazer engolir.

Com uma edição esforçada, vimos Olivia e Cyrus juntando forças novamente. Ele, no final das contas, ainda é um filho da mãe e eu gosto disso. Aliás, eu poderia gostar muito mais do Cyrus se não fossem os discursos, e a mania insuportável de começar todo diálogo com uma metáfora. Ele não começa conversa alguma diretamente. Sempre tem uma historinha antes.

A Vice também teve seu momento e embora a cena tenha sido boa, eu não acredito na cara de inocente do Grant e acho terrível que seu desvio de caráter recorrente (Amanda, Olivia…) tenha sido totalmente relevado por todas as partes envolvidas. No fim, fica a sensação de que ele foi a maior vítima de tudo, com suas cenas de olhares sofridos e diálogos de defesa da honra.

Por fim, quem é Quinn?

Até rima, mas pelo jeito só vamos saber pra que serve essa personagem decorativa na temporada que vem. Foi um bom cliffhanger, mas que sem dúvida vai ser resolvido com alguma resposta tosca que ajude a formar o arco dramático da próxima temporada. Coisa que, aliás, eu incentivo. Prefiro arcos de uma temporada inteira, do que um procedural semanal comum.

Não posso dizer que a experiência com Scandal (que aqui no Brasil parecer ser tão assistida quanto o canal Gazeta) tenha sido totalmente ruim, mas pra ficar realmente bom eles precisam matar a protagonista e começar tudo de novo. Como sei que Olivia é o xodó de Shonda e isso não vai acontecer, vamos ter que continuar acompanhando as aventuras de uma mulher absurda, criada por outra completamente reacionária.

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