Ryan Murphy é um roteirista/diretor/produtor que acumula sucessos na carreira. Seu currículo inclui produções diversificadas como o premiado e polêmico drama Nip/Tuck (2003-2010), a ‘dramédia’ musical Glee (2009-2015) e a aclamada antologia American Horror Story (2011- atual). Aliás, foi justamente com AHS que ele ajudou a inaugurar a recente ‘era de ouro das antologias’ na televisão. Para quem não está familiarizado com a nomenclatura, uma série antológica é aquela que apresenta diferentes histórias e personagens a cada temporada.  ‘Fargo’, ‘True Detective’ e ‘American Crime’ são algumas das antologias que estrearam após o sucesso de AHS.

Murphy continua na vanguarda dessa tendência, e juntamente com seus frequentes colaboradores, Brad Falchuk e Ian Brennan, participa da criação/produção de mais duas séries antológicas. A comédia/horror Scream Queens que estreia na fall season deste ano, e American Crime History: The People V. OJ Simpson que deve ser lançada no início de 2016, estrelada por John Travolta e Cuba Gooding Jr.

O sucesso que ele alcançou com AHS foi tanto que, em sua última temporada (Freak Show), a série tornou-se o programa mais visto da história do canal FX (pouco mais de 12 milhões de telespectadores). O recorde anterior já pertencia à própria franquia, pela 3ª temporada, Coven. A 5ª temporada, intitulada Hotel, será estrelada por Lady Gaga e estreia em outubro deste ano.

Em recente entrevista para o site Deadline, Murphy falou sobre AHS: Freak Show, a saída de Jessica Lange da franquia, o que esperar da próxima temporada e de sua nova produção, American Crime Story.

Murphy foi questionado sobre o fato de séries como AHS, Game of Thrones e The Walking Dead ainda não terem sido reconhecidas com prêmios renomados, apesar da enorme popularidade que alcançaram. Murphy diz não acreditar que exista algum estigma contra esse gênero, e ressalta que essas séries costumam não apenas ser indicadas às premiações, como também as lideram em número de indicações.

“Eu sinto que as pessoas assistem e reconhecem sua excelência. Sei que as pessoas escrevem artigos sobre este ser um gênero difícil de ser reconhecido. Eu acho que isso até pode acontecer, especialmente no cinema, mas não acredito”

Ele completa:

Sinto que quem ganha é sempre alguém imprevisível, mas nós tivemos muita sorte. Ganhamos muitos Emmys, então sempre somos gratos por estarmos no ‘jogo’, quer ganhemos o prêmio ou não”

Ele ainda diz que a única coisa que lhe importa durante todo o processo é que seu elenco e equipe sejam realmente reconhecidos.

As pessoas com quem trabalho dão muito duro, amam tanto o material e dão 150% de si”

Murphy afirma que isso foi especialmente verdade no último ano, em Freak Show, quando filmaram em condições adversas. Alguns dias chegaram a 49ºC e os atores passavam mal com o calor excessivo.

Eu estou sempre tentando rufar os tambores para as pessoas com quem trabalho, porque os acho extraordinários”

Além disso, ele também cita que por Freak Show ser a última temporada de Jessica Lange, as pessoas se esforçavam ainda mais por ela, que sempre foi alguém bastante próxima do elenco e da equipe.

Murphy ainda falou sobre a participação de Lange na criação do conceito de Freak Show e na sua escolha pelo ator John Carrol Lynch como o palhaço assustador, Twisty.

Acho que um palhaço aterrorizante é um tema recorrente do horror. Nós queríamos fazer o nosso de uma maneira estranha. Acho que a história sobre o passado do personagem foi emotiva e realmente perturbadora. John Carroll Lynch é um grande ator, foi meio que escrito para ele. Ele foi a primeira e única pessoa que conversei sobre esse papel, pois o vi em ‘Zodíaco”

Murphy confirma que o tema Freak Show foi ideia da atriz Jessica Lange. Como fotógrafa, ela sempre esteve atraída por imagens desses assombrosos ‘freak shows’. Ele contou que Lange enviava cartões-postais e comprava livros para ele, sempre muito interessada no assunto, até que eles sentaram no set e conversaram sobre isso. Eles passaram cerca de um ano e meio pesquisando o tema.

Eu sabia que iríamos fazê-lo e ela ficou muito animada quando eu disse ‘Ok, nós iremos fazer Freak Show’, pois era sua grande paixão e ela estava bastante envolvida. Ela já havia pesquisado tanto, que acho que no dia que ela apareceu naquele set (nós realmente assumimos o controle de hectares e hectares de terrenos agrícolas próximos ao pântano) havia lágrimas em seus olhos e ela estava tão emocionada que não parava de dizer ‘é como um poema virar realidade, é como um poema virar realidade”

Murphy também falou que “nunca diz nunca mais” a respeito de trabalhar com Jessica. Ou seja, sua saída de AHS pode não ser definitiva.

Uma das coisas únicas em AHS é que respeitamos muito os atores. Muitas vezes os atores não querem se prender a um contrato de sete anos. Então meu acordo com o elenco é: você está livre a cada ano, você pode voltar ou não”

Ele conta que sempre abordou Jessica dessa maneira e que felizmente ela sempre dizia sim.

Acredito que se eu abordar Jessica falando que tenho um papel extraordinário, ela o fará” 

Enquanto isso, eles continuam trabalhando juntos, mas fora da televisão. Ela irá atuar em uma peça da Broadway produzida por Murphy, ‘Long Day’s Journey Into Night’, revivendo a personagem ‘Mary Tyrone’. Murphy diz que adquiriu os direitos da peça por Jessica, que desejava muito fazê-la novamente.

Sobre as diferenças de Freak Show em relação aos outros anos, Murphy diz Jessica usou a palavra poema.

Soava muito poético para mim e muito mais triste do que as temporadas anteriores. Foi um pouco mais baseado nos personagens. O verdadeiro horror dessa temporada é o fato que essas pessoas, os chamados ‘freaks’, foram expulsos, tratados terrivelmente por nossa sociedade e muitos foram colocados em instituições em que eram completamente estranhos e discrepantes”

Apesar de ter gostado do resultado, Murphy não pretende repetir os números musicais que fizeram sucesso em Freak Show, nem mesmo na próxima temporada que será estrelada por cantores, como Lady Gaga.

É algo que ela nunca fez antes (Lady Gaga). É pura atuação. Acho que as pessoas esperam que ela vá sentar-se em um bar em um vestido de seda branco e irá cantar. Mas ela não irá”

Para ele, cantores são grandes atores porque são capazes de vender uma história através da música, através de uma cena.

Sobre a próxima temporada, Hotel, Murphy diz que será mais obscura e centrada no horror.

Mais sangrento e horrendo do que qualquer coisa que fizemos antes. Esse ano terá um horror mais direto”

A inspiração vem dos hotéis de filmes de terror.

Penso que Murder House foi uma temporada inicial porque todos têm medo do bicho-papão embaixo de suas camas, o que é semelhante ao que sinto quando faço o check-in em um hotel, há certas coisas que estão fora do seu controle. Outras pessoas têm a chave do seu quarto. Eles podem entrar lá. Você não está exatamente seguro, é uma ideia bastante inquietante”

As filmagens começam em três semanas e no momento estão construindo o set de gravações, que para Murphy, é um dos melhores que eles já tiveram. Trata-se de um hotel de “Arte déco” de seis andares. Ele adianta que a atriz Sarah Paulson e o ator Evan Peters estão bastante animados, pois viverão vilões absolutamente maus.

Diferente das outras temporadas em que os personagens de Lange funcionavam como “líderes”, impulsionando a todos, Murphy diz que neste ano há mais um conjunto, com mais personagens e tramas masculinas. Wes Bentley, Matt Bomer, Evan Peters e Finn Wittrock terão grandes participações. O que não invalida o fato das mulheres também desempenharem grandes papéis. É o caso de Gaga, Paulson, Kathy Bates e Angela Basset.

Murphy ainda fala sobre seu outro projeto, a antologia American Crime History que em sua primeira temporada irá abordar o caso do ex-jogador de futebol-americano, OJ Simpson. Murphy foi o diretor dos dois primeiros episódios da temporada e filmou a icônica perseguição a OJ Simpson em uma caminhonete Ford Bronco pelas ruas de Los Angeles.

O interessante sobre esse programa é que todo mundo sabia o que estava acontecendo fora do Bronco. Mas, neste caso, diremos as pessoas o que acontecia dentro do Bronco. Fechamos algumas rodovias em LA por dois dias e realmente iremos mostrar AC Cowlings e OJ Simpon naquele carro, e o que faziam. Foi muito difícil, muito emotivo e muito violento”

Ele ainda ressalta que todos respeitam e estão bastante conscientes sobre o fato de duas pessoas inocentes terem sido massacradas e mortas nessa história.

É uma daquelas histórias que se fixa aos seus sonhos. É muito intensa, e a razão de eu ser parte disso é que li os dois primeiros roteiros, como um fã, e pensei que eram tão fantásticos que eu queria ajudá-los a fazer. Um ano depois e estamos quase terminando de filmar os dois primeiros episódios”

Murphy diz que eles já descobriram o que pretendem fazer nas próximas temporadas de American Crime History, mas ainda não está pronto para anunciar. Afirma apenas que sempre abordarão um crime real e famoso.

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