Os roteiros dos desafios de atuação da Drag Race continuam péssimos, mas o All Stars 6 continua maravilhoso.
Sempre que falo sobre como os desafios de atuação da Drag Race me aborrecem, fãs me perguntam o verdadeiro motivo. Eu poderia dizer simplesmente que os roteiros são profundamente mal escritos, mas isso, é claro, esbarraria na concepção desses desafios, que é a de sempre parecer o mais ridículo possível. O pecado, contudo, nunca foi o nível de ridículo, mas a completa carência daquilo que Ru sempre exigiu: humor. Eventualmente uma ou outra menina consegue passar por cima daquele texto hediondo e entregar uma risada. Mas, na maioria das vezes, é só terrível e interminável.
Apesar de ser o maior fã de American Horror Story nesse país (e detentor de TODAS as críticas da série aqui no site, desde que ela começou), não posso dizer que a paródia foi diferente de todas as outras. Foi ruim do mesmo jeito e um pouco mais longa do que era suportável. É claro que passando por cima da pobreza do texto e da situação criada pelo roteiro, podemos sim rastrear como esses desafios testam as meninas em alguns quesitos, como tempo de comédia, presença cênica, inflexão, escuta e fé cênica. Uma pena que o horror tenha que ser nosso, assistindo. Contudo, lá estava eu ansioso para ver quais piadas com o universo de Ryan Murphy seriam feitas pela equipe. Uma delas, aliás, não tinha como não ser feita.
Quando vi Jan repetindo aquela mesma expressão de desapontamento crônico que ela apresentou ao mundo quando perdeu o Rusical, eu já sabia que havia um potencial positivo para ela no desafio envolvendo AHS. Jan é o tipo de artista que Ryan conhece bem, com o qual ele conviveu, que inspirou Rachel Berry em Glee e que é parte da essência da imagem pública de sua intérprete, Lea Michele. Incluindo não só o estupendo talento, mas a atitude egocentrista que o acompanha. Dito e feito. Por essa semana, Jan estava salva.

Apesar disso, as críticas sobre Jan são coerentes. O grande problema é que ela é desse jeito e o que os jurados fazem toda semana é mutilar sua auto-estima, cobrando que ela mude uma personalidade inteira para caber numa competição de poucos episódios. É injusto, cruel e impossível. Jan é irritante em grande parte do tempo? Sim. Mas, se tem uma coisa que aprendi com o próprio Ryan Murphy foi que o que te faz diferente é o que te carregará para o sucesso. Parte de mim quer que Jan se ajuste para não ser eliminada. Mas, outra parte quer que ela continue sendo irritante – muito irritante – e fiel a si mesma.
Com 6 episódios, já posso admitir que estou alarmado com a crescente sensação de que Ginger voltou para vencer. É até previsível, já que Ru não a traria de volta tão cedo se não houvesse um plano. Minha esperança é que ao assistir a temporada, Ru entenda que a melhor narrativa de redenção não é a de Ginger e sim de Ra’Jah, Kylie e até Jan. Ginger não apresentou um só look realmente bom e por aquela entrada de sapo, no episódio 1, ela já merecia que Ru aparatasse numa janelinha, ali mesmo no ateliê, e dissesse: “Ginger, no girl. I’m sending you home”. Não é nada pessoal contra ela, que fique claro. Ginger é adorável e estava muito bem nesse episódio. Mas, a melhor narrativa de redenção não é dela. Não é.
Após Kylie vencer a disputa com a própria Ginger pelo papel de Jessica Lange, Angela Basset surgiu na tela para dar alguns conselhos. Não só Angela é uma deusa, como seu trabalho em AHS é impecável. Atualmente ela está em 9-1-1 (outra série de Murphy), mas assim como aconteceu com Jessica Lange, Kathy Bates e tantas outras grandes atrizes, a série de horror revigorou sua trajetória e redimensionou seu alcance na cultura pop. Aliás, quem assistiu a temporada Freak Show (minha favorita), sabe que “a mulher com três peitos e um pênis” era fenomenal.

A filmagem do desafio se focou em Ra’Jah e sua voz anasalada; e em Kylie e seu tom super baixo. Ra’Jah merece créditos pelo esforço, mas realmente atuar não é para ela por enquanto. Para Akeria, tampouco. Os jurados amaram a performance de Kylie, mas embora ela estivesse muitíssimo parecida com Jessica, não acho que ela desbancou o bom trabalho de Pandora. Pandora também não serve looks muito bons, mas essa semana ela estava bem vestida e foi a melhor na atuação. Por alguma razão, Pandora continua sendo negligenciada. Até Jan foi melhor que Kylie e me pergunto se Lea Michele assistiu aquela tão esmerada versão de sua própria persona (a piada com Idina Menzel foi ótima). Emma Roberts (perfeita) é amiga pessoal de Lea, deve ter contado.

Contudo, Kylie venceu. Seu look era muito forte (embora não tão gótico) e foi uma pena que Trinity não tenha pegado um papel melhor, porque seu look era disparado o mais incrível. O bottom ficou entre Ra’Jah e Akeria, mas acredito que Eureka poderia ter entrado no lugar de Ra’Jah, já que o look de Ra’Jah era melhor e a performance de Eureka no desafio foi tão monocórdia quanto a de Akeria. Era óbvio, a essa altura, que Akeria seria eliminada independente de quem estivesse no bottom com ela. Isso acabou com um pouco da sensação de suspense, mas foi justo. A partir daqui, com a saída de Akeria, ficam as mais fortes e as próximas eliminações serão doloridas.
Então, hora do lipsync. Manila Luzon disse no Untucked que era a primeira performance dela desde o início da pandemia e isso ficou evidente. A Lipsync Assassin chegou assassinada. A dublagem foi entregue de bandeja para Kylie, embora eu não tenha conseguido me concentrar em mais nada que não fosse a possibilidade de rolar um topless involuntário. Kylie mandou bem e deu uma certa vergoinha do trabalho de Manila. As “assassins” que apareceram até agora lutaram mesmo pela vitória e embora haja certa nobreza no ato de não vencer para não tirar o dinheiro da coleguinha, é uma reputação que está em jogo.

Ver Ra’Jah sofrer o bottom com a amiga só a tornou ainda mais essencial para a corrida. A narrativa de redenção dela é tão pronta que ela conseguiu até mesmo inverter as posições que a eliminaram na décima primeira temporada. Naquele bottom foi ela que saiu, aqui foi Akeria. Se Ru não perceber o que Ra’Jah está conseguindo nessa temporada, deve estar com a peruca apertada demais, viu. A não ser que Ra’Jah comece a falhar muito daqui para frente, a temporada é dela.
E antes de ir, duas coisinhas:
Eurinity ou Trineka?
Cadê o Snatch Game?















