A única coisa que pode transformar um ato de mediocridade em um ato de coragem é o talento.

Quando o All Stars 2 estreou, com suas novas regras e fórmulas, ele foi todo uma experiência analítica do comportamento de uma competidora se ela tivesse nas mãos algum verdadeiro poder. Ru, quando entrou no negócio, sabia que uma das primeiras coisas que devia fazer era se distanciar como pessoa física de todo o casting. Ela precisaria tomar decisões difíceis, acima de suas preferências e torcidas, o que implicava uma não existência total de uma relação pessoal com qualquer drag do mercado. Ru não poderia se deixar levar por emoções na hora de mandar alguém embora, nem mesmo ser acusada de favoritismo se alguém que ela conhecesse entrasse na competição. RuPaul virou uma pessoa jurídica, inalcançável, imóvel na bancada, porque é assim que tem que ser.

Os resultados das edições 2 e 3 do All Stars confirmaram a teoria. Roxxxy foi mantida até a final apenas por causa das amigas, Shangela não dublou para vencer apenas porque eliminou gente demais ou foi bem sucedida demais na carreira… A cada semana as meninas só provavam para Mama Ru que não estavam preparadas para fazer a coisa certa, não estavam preparadas para jogarem de lado históricos pessoais, porque o que faz as decisões de Ru serem mais fáceis é a cúpula de não-intimidade que as envolvem. Porém, até então, a maioria dos erros cometidos pelas participantes foi por conta da incapacidade de eliminar quem deveria ser eliminado. Isso até agora, quando Naomi Smalls fez aquilo que Detox não teve coragem de fazer quando Alaska esteve em suas mãos.

Algumas meninas sofreram o peso da injustiça porque as rainhas no top queriam ser leais às suas relações pessoais. Não eliminaram também pela mesma razão. É claro que qualquer bom senso nos diz que considerar histórico é importante, mas ao mesmo tempo, não seria leal ao jogo usar as ferramentas dele? Todas elas? É preciso considerar alianças, é claro. Contudo, por mais que elas tenham sido feitas, o julgamento justo pode se sobrepor a antigos arranjos. Será mesmo que Naomi Smalls quis salvar Latrice depois de ser salva ou apenas quis usar isso como escudo para aquilo que ela, secretamente, desejava? Coragem no ato, dissimulação no motivo. Ela eliminou por lealdade ou por maldade?

Judies 

O bombástico episódio da semana começou como um bom e velho episódio makeover, sem nenhuma pista de que seria de novo o episódio que abalaria a posição de uma favorita (a primeira vez foi com Alaska). Esse tipo de desafio é sempre deleitoso para a audiência e para os participantes, já que muita emoção está envolvida na chegada dos parentes e amigos. Aliás, desafios de makeover com relatives das corredoras parece também ter se tornado uma tradição do All Stars. É uma ideia que o Survivor já leva a cabo em suas temporadas e que sempre funciona muito bem. Assim, conhecemos mais de cada uma das remanescentes e podemos avaliar suas capacidades de espelhamento, repartindo o spot, o glamour, as habilidades… Pode não parecer, mas esse é o desafio encomendado para saber quem ali consegue pensar em algo além de si mesmo.

Também é um episódio onde Ru dá mais atenção a cada uma das participantes. Ela sempre responde com atenção a qualquer breakdown durante a temporada, mas quando as famílias chegam, é natural vê-la investindo em tirar das meninas alguma vulnerabilidade. Monique Heart, por exemplo, teve um valioso momento de fragilidade, com Ru demonstrando saber muito bem como ela era defensiva na passarela. Foi muito bom para Latrice também, que mostrou a força de sua relação com Tim de uma maneira muito terna. Já Manila e Trinity receberam seus namorados, o que já demonstra outro tipo de dinâmica. Trinity, que sempre demonstrou mais controle emocional, não teve dificuldades em executar a tarefa. Manila, porém, se afeta mais e isso causou uma inconveniente distração aos detalhes. Ela e Latrice, inclusive, erraram na concepção ao deixarem vazar um datismo visual que as enfraqueceu perante as outras. De Latrice já esperamos isso, mas Manila já tinha demonstrado muito amadurecimento.

Forte mesmo foi o desfile de Monique, que deveria ter sido escolhida para o top se sua coreografia não tivesse sido tão relaxada. Monet, que pegou o posto, não fez nada de sensacional na passarela. Assim como Latrice, Monet raramente faz algo sensacional. Miss Royale esqueceu as lições de modernidade e vestiu sua amiga com um look tão datado quanto o dela. Manila não ousou também, mas os looks de Manila têm, por essência, uma natureza já ousada. Trinity foi na referência fashion e acertou ao reproduzir sua estética perfeitamente. Também foi a coreografia que pegou. Para mim o top poderia ter Naomi, mas ao lado dela mereciam mais Monique e Trinity, o que, apesar disso, não teria mudado os resultados. Naomi foi tudo nessa noite, menos Small.

Big Naomi 

Também com uma referência fashion e acoplando a ela uma boa dose de cultura pop, Naomi apareceu na passarela com uma história pronta para contar. Nossa frustração com a eliminação do dia não pode nublar o trabalho incrível que Smalls fez. Além de ter vestido sua amiga com uma notória semelhança familiar, ela conseguiu o feito de brincar com o masculino sem incomodar os jurados, que puderam ver antes disso, sua entrada como mulher. Foi inteligente e esperto, já que esses flertes com o masculino sempre incomodam principalmente Michelle Visage. Naomi também fez uma ótima coreografia e na hora de dublar chocou novamente, conseguindo ser absolutamente maravilhosa sem ficar apelando para os mesmos movimentos quase sobrenaturais que a eternizaram na história da corrida. Foi uma magnifico trabalho e sobre isso não há dúvidas.

A questão maior nunca foi a vitória de Naomi, mas o que ela resolveu fazer com isso. Aprendi com o All Stars que me divirto mais quando não vivo em amargura pelo que de injusto acontece. De certa forma, existe algo de tão corajoso na decisão de Naomi que é impossível não aplaudi-la. É preciso ter nerve pra levar a cabo uma atitude tão cheia de repercussões como essa. A questão é que no cenário montado Naomi vai jogar na conta de Latrice a sua decisão de eliminar Manila. Salva por Royale, a supermodelo achou que seria leal retribuir. Com o tanto que foi bem sucedida numa semana em que poderia nem ter estado presente, é possível desbravar o raciocínio dela. Por gratidão, Latrice foi mantida. Porém, dizer que eliminou Manila apenas por ter que manter Latrice enfraquece os colhões da decisão. Por pior que tenha sido ver Manila ir, prefiro uma Naomi que assume que só queria aumentar as próprias chances do que uma que diz que Luzon foi uma vítima das circunstâncias. O discurso dela no episódio seguinte será essencial para entender melhor suas motivações.

É fato que Trinity será a mais zangada. E é fato que Naomi virou o alvo mais fácil, já que todas agora terão medo dela. Não podemos esquecer que a coragem do movimento não muda o fato de que DE NOVO alguém bom foi embora para que alguém não tão bom ficasse por motivos que não tem a ver com talento. Essas meninas não são nada equilibradas. O All Stars 4 reconfigurou expectativas tantas vezes que agora temos um cenário de vitória que é ainda mais indiferente. Apenas Trinity guarda agora a posição de favorita e do jeito que as coisas se desenvolvem, dificilmente as eliminadas permitirão que ela vença. Com isso, um Top 2 reunindo quaisquer das outras resultará numa moldura estranha lá no tal Hall of Fame. Chad, Alaska e Trixie tiveram muita representatividade fora ou dentro da corrida. Monique e Monet são ótimas, mas não representam a mesma coisa. Latrice teria, se sua história até aqui tivesse sido fortalecida. Estranhamente, até agora, Naomi tinha sido apenas uma participante muito polida e competente. Mandar Manila embora tornou-a parte da história mitológica do show e curiosamente, olhando em perspectiva, talvez ninguém agora mereça essa coroa mais que ela.

RuNotes:

  • Como é linda a filha do Cobain, né?
  • Ellen Pompeo se divertiu tanto na bancada. Foi lindo.
  • O “hall da fama” das injustiçadas agora tem Alyssa, Shangela, Tatiana e Manila.
REVISÃO GERAL
Nota:
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rupauls-drag-race-all-stars-4x08-rupauls-best-judy-raceA única coisa que pode transformar um ato de mediocridade em um ato de coragem é o talento.