A incrível história da menina que não tirava a máscara.

Algumas vezes, durante esses anos de Drag Race, o painel de jurados do programa – que às vezes é incoerente nas próprias exigências – exigiu que algumas específicas participantes parassem de viver o personagem o tempo todo, demonstrando mais da própria essência, buscando com isso, um pouco mais de senso de humanidade. Os exemplos são vários, mas na sexta temporada, especificamente, isso aconteceu de forma muito marcada. Laganja Stranja, que veio com a narrativa de ser uma das melhores amigas de outra participante, precisou enfrentar uma espécie de “intervenção”, em que seus modos teatralizados foram apontados como parte de uma encenação.

Revendo a sexta temporada é possível perceber como isso é berrante, realmente. Laganja vive sua fantasia de potencial celebridade, não querendo perder nenhuma oportunidade de criar um frame. Os métodos da competidora só começaram a incomodar lá pela quarta semana, mas desde o primeiro dia Laganja não tem um só momento de naturalidade. Os looks são exagerados ainda no ateliê, qualquer coisa que ela fale tem um zilhão de interjeições afetadas e a cada novo desafio essa “máscara de teatralidade” vai engrossando, engrossando, até chegar ao ponto em que se torna impossível não falar a respeito. Então, quando confrontada, ela deixa a humanidade vazar e conseguimos vislumbrar quem ela é de verdade.

O que também complicou a vida de Laganja foram suas possibilidades limitadas de talento. Ela não se preparou adequadamente e conforme os erros eram cometidos, suportar sua afetação foi ficando difícil. O talento, então, mais uma vez, é o que interfere nas percepções do público e do próprio contingente da competição. As “máscaras” de um reality show são parte essencial do que ele é, fazem parte do jogo e quem não as usa não permanece. Máscaras, inclusive, são um exercício diário da vida em sociedade, mas tal qual as maquiagens que não aparecem demais na fronte, as que se usam num programa como esse precisam ser igualmente calculadas.

Helo, It’s Me, Valentina 

Na nona temporada Valentina tinha mais controle da situação. Ela fazia parte de um time de participantes que passavam pela experiência pela primeira vez e conforme as semanas foram passando, ela notava que estava num lugar confortável, seguro, e exatamente por isso as próprias defesas ficaram menos armadas. Quanto mais ganhava elogios e desafios, menos ela precisaria acessar sua – como ela mesma diz – “fantasia”. Havia uma imaturidade perdida na relva e foi por causa dela que Valentina perdeu o fio da meada, não planejando direito o desafio e se recusando a tirar o pano que lhe cobria a boca, escondendo também sua negligência com uma parte importante da rodada de testes a que se dispôs.

Agora, no All Stars 4, a coisa muda de figura. Com a eliminação das retardatárias, fica em cena quem tem muita vontade de vencer. Junte a isso o fato de que após sua emblemática eliminação da Season 9, Valentina começou a colecionar percepções alheias sobre si e essas percepções a levam para um caminho alegórico inevitável. Cercada de tantas boas opções sobre como os outros a veem, ela vai adicionando camadas e camadas por cima de quem realmente é, colecionando afetações e criando a própria narrativa: Valentina se tornou um ser onírico, angelical, acima da realidade, numa mistura de autoestima com emissão motivacional, vivendo ela mesma o que quer defender para seus seguidores: viva sua fantasia acima de qualquer coisa.

O que vimos nessa semana foi uma reprise infeliz do desempenho de Valentina na nona temporada, com um adendo: todas as próprias limitações passaram a ser disfarçadas com essa valorização exacerbada da fantasia. Todos os takes das entrevistas da participante durante esse episódio mostravam uma espécie de Laganja Stranja sofisticada, com uma reputação um pouco melhor (que ela vem perdendo) e com mais carisma. Mas, as poses, os maneirismos com a voz, a ilusão constante sobre as próprias habilidades, o vício pela ideia de glamour como parte primordial de tudo que uma drag deve ser e até mesmo um pequeno ataque à diversidade, demonstrado por um discurso de supervalorização da magreza, da beleza, da perfeição. O clube que ela montou com Naomi parecia uma piada, mas ao que parece as duas não percebiam que tudo aquilo soava extremamente perturbador.

Clube Social 

O “desastre” do Clube 96 era iminente, já podia ser percebido enquanto começava a acontecer. Monique e Monet são conhecidas por criatividade. Trinity e Manila também (Latrice é conhecida por muitas coisas, mas criatividade não é uma delas, mesmo que ela, eventualmente, a tenha). Naomi tem demonstrado ser muito mais que um look, mas esse aspecto de sua carreira está situado no mesmo patamar de Valentina, ou seja, elas podem ser muito criativas em seus apelos visuais, mas podem não ser tanto nos quesitos que vão além disso. Então, sem trabalho duro, nada ia acontecer. Porém, com Naomi tendo uma personalidade passiva, Valentina sem dúvida engoliria o processo com seu método instintivo, o mesmo que vimos arruiná-la no desastroso desafio que a colocou para fora da corrida.

Os outros grupos foram bem sucedidos em seus clubes. O Black Hole não tinha nada a ver com um buraco negro, mas era só uma confusão entre título e conceito. Monique e Monet acertaram muito nos looks de recepção, mas vacilaram na passarela. A roupa de Monique era tão ruim que isso pode ter sido o que lhes custou a vitória, até porque o clube das abelhas era bom, mas não tão bom quanto o Black Hole. Trinity e Manila brilharam mais que Latrice, mas Latrice apareceu com um look tão maravilhoso que era impossível não se deslumbrar. Mas, se Ru não tivesse julgado times, Monique estaria no bottom com Valentina e não Naomi. Isso talvez mudasse o resultado, visto que houve uma rixa entre Royale e Heart. Mas, ainda que Naomi tenha sido consistente, a permanência de Valentina era esperada por dois motivos: ela dá mais material para a edição e – segundo os tão “entendedores” da corrida – ela era “cotada”.

Espera-se que com essa eliminação as teorias de conspiração sobre esse tipo de “favoritismo” sejam superadas. Alaska venceu por MÉRITO e Valentina foi embora pela mesma razão. É evidente que Ru brinca com essa ideia, escolhendo um frame em que a câmera para por alguns segundos em sua imagem antes que o Sashay Away seja anunciado. Naomi teve um grande momento na dublagem da semana passada, mas Trinity tem razão quando diz que na metade do tempo a gente não lembra que ela está lá. Então, sim, a ausência de Valentina será sentida, mas sua eliminação foi correta e os sentimentos de Latrice sobre isso foram sinceros e comovidos. Talvez agora ela possa entender melhor a posição de Monique e possa entender também que é naquele look de passarela que está a chave para seu crescimento como artista.

A menina que não queria tirar a máscara, contudo, saiu com uma surpreendente dignidade. Ao dizer que “ainda assim saía com uma coroa” demonstrou saber que em sua fantasia há potencial para o humor e continuou a fazer isso quando falou das malas. Em suas entrevistas pós-eliminação também demonstrou estar em paz com o que foi capaz de fazer e encontrou na participação do Rent Live um porto seguro para apoiar-se em meio as negatividades vindas de um processo eliminatório. Em dado momento do fim do episódio, ela pensa e fala sobre ter ficado presa na própria cabeça… Mas, não… Ela ficou é presa na máscara.

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RuNote: Além de ser descontextualizado, aquele lipsync de Trinity foi de um mau gosto atroz. Sei que rolaram comparações com o de Shangela, mas eu discordo completamente delas. Shangela fez dentro do contexto rítmico da música e com um humor que contagiou por exalar uma notória positividade. No de Trinity estava tudo, tudo errado.

REVISÃO GERAL
Nota:
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