O All Stars 4 foi sobre merecimento até agora, quando traiu a si mesmo trazendo de volta quem não merecia voltar.
O problema aqui não é Latrice, que isso fique bem claro. Vamos começar essa review dizendo que NENHUMA das meninas que saiu merecia um retorno, o que de certa forma é refrescante em termos de competição. Estamos diante de uma temporada em que as fronteiras de merecimento estão mais claras que nunca. Temos um elenco com pontos fortes que seguem fortes e fracos que vão indo embora. Não é como no All Stars 2 e 3, em que Roxxxy e Chi Chi eram mantidas para que as vencedoras do lipsync mandassem para casa seus desafetos. Jasmine, Farrah, Gia e Latrice colheram os frutos de uma inabilidade profissional baseada em amadurecimento. Elas continuam fabulosas, mas não resistem às comparações feitas com competidoras que fizeram com mais afinco o dever de casa.
A Drag Race nunca esteve num momento de tanto apogeu, entrando no mainstream, ganhando importantes prêmios, sendo citada e reverenciada por veículos de cultura pop ao redor do mundo. Esse sucesso também obscureceu o programa, aumentando a quantidade de ódio que vem não só do público, mas também das próprias participantes. Tudo virou uma questão política-sócio-racial. RuPaul pede em suas entrevistas que ninguém leve tudo tão a sério, o que acaba levando ao discurso do “deixe para lá o que você não pode mudar”, usado, inclusive, com Vixen na Season 10, o que depôs contra a apresentadora e provocou outra grande onda de depreciação.
A corrida tem problemas no que diz respeito ao que provoca na vida de uma participante. Isso não é exclusividade da Drag Race, acontece em TODOS os realities ao redor mundo e – por mais chocante que possa parecer – não é responsabilidade deles. Estamos falando aqui de reflexos no mundo externo e é claro que numa utopia as produções desse tipo de programa poderiam se encarregar de nunca afetar as vidas de seus pupilos. Mas, quando alguém se inscreve para algo assim, sabe que algo muito grande pode acontecer. Para o bem e para o mal. Não adianta fazer cartas sobre como a produção é fria, como as condições são tensas ou a apresentadora não se importa. É assim em todo reality, seja ele o Survivor, o Big Brother, o The Bachelor, até o Project Runway. É claro que a surpresa com o tamanho dos efeitos negativos é real, mas só se pode culpar sobretudo a si mesmo por se prestar à experiência. Isso é responsabilidade de quem arrisca. E o que isso vai fazer com sua vida também é problema seu.
Não é a Drag Race que é racista, são os fãs que o são. Não é a Drag Race que é gordofóbica ou homofóbica, são os fãs que o são. O programa é uma vitrine das respostas sociais do indivíduo, como são as novelas, livros, filmes e até a página de caça do Grindr. E é importante dizer isso porque estabelecer que Latrice NÃO merecia estar de volta é uma questão que se sobrepõe ao que ela representa. E hoje em dia vivemos essa realidade, onde as evidências do racismo, do machismo e da homofobia estão sendo maravilhosamente discutidas, mas também servem como um escudo para a negação de certas verdades. Vixen foi vítima, mas também foi algoz. Tyra foi vítima, mas também foi algoz. Latrice foi uma linda participante, mas para o All Stars ela não foi mais. E isso, excetuando-se todos os desdobramentos REAIS de como a sociedade responde à diversidade, é um fato.
Quatro por Quatro
Foi um ótimo episódio, não me entendam mal. A chegada das quatro eliminadas foi extremamente dramática, cercada de expectativas. A ideia de termos quatro dublagens foi fantástica, ideal para o terreno de experiências que é o All Stars. Essa volta é mais uma das artimanhas de Ru para mostrar ao público e aos competidores que algumas decisões são difíceis, mas são as melhores decisões a serem tomadas em determinadas situações. Ao trazer as eliminadas para tentarem de novo, Ru foi revelando para todos nós, uma por uma, que aconteceu o que deveria acontecer, que todas elas que foram embora não eram páreo para as meninas que tinham ficado. A permanência de Latrice, nesse caso, é ainda pior, porque soa condescendente ou simplesmente uma forma de dar ao desafio alguma funcionalidade real, para que ele não parecesse simplesmente oportunista, como se Ru não fosse ter coragem de fazer de verdade a troca de papeis, mandando embora por conta de uma dublagem, alguém que vinha indo tão bem na competição.
Mas, vamos falar sobre cada uma delas.
Jasmine e Trinity
Essa dublagem foi a mais tranquila, a mais fácil, porque absolutamente TODAS as eliminadas sofriam de delusional, mas de todas Jasmine é quem mais tem dificuldades de mostrar seu trabalho. Ela acha que colocar um vestido bonito é o suficiente, mas acaba sendo esmagada em todas as tentativas de superação. Sabíamos que Trinity não ia admitir ser eliminada por ela – e não foi – sobretudo porque justamente nesse dia, Jasmine resolveu errar no look. Trinity prometeu um reveal que acabou não sendo nada demais… E assim a primeira dublagem pela vida do dia foi só um aquecimento para o que estava por vir.
Farrah Moan e Valentina
O nonsense de Valentina cresce como um vírus devorador de cérebros e vai ficando mais grave semana após semana. Tudo mundo já percebeu e a luz vermelha se acendeu quando Monet e Manila revelaram que seria ela a eliminada do dia caso a dublagem tivesse valido. Valentina ainda continua sendo interessante, mas da nona temporada para cá ela resolveu criar uma “narrativa observadora de unicórnios” que não está funcionando tão bem quanto ela gostaria. Ganhar de Farrah também não era difícil, porque por mais linda que Miss Moan seja, ela também está empacada na maldição do look. A dublagem foi intensa, mas Valentina ganhou justamente, com os movimentos mais abertos e coerentes com a música.
Naomi Smalls e Gia Gunn
Aqui está o verdadeiro BOOM desse episódio. Naomi vinha muito consistente na competição, sem vitórias, mas também sem fracassos. Gia, como eu disse no texto anterior, tinha mostrado muito mais evolução que as outras eliminadas e se fossemos escolher alguém para voltar baseados nisso, quem merecia esse retorno era ela, sobretudo porque embora fosse muito difícil superar os impressionantes movimentos de Naomi, Gia se esforçou muito e chegou muito perto de vencer. O double save que foi concedido no duelo seguinte deveria ter acontecido aqui, porque essa sim, foi uma das dublagens mais históricas da nossa amada corrida. Não temos a menor ideia de como Naomi conseguia fazer aquelas coisas, mas era absolutamente LINDO. Deu até um certo orgulho no final, porque depois de tantos anos, a corrida ainda consegue nos arrebatar.
https://youtu.be/t_uygfJuNsg
Monique Heart e Latrice Royale
Latrice voltou com toda a garra que deveríamos ter visto enquanto ela ainda estava no show. E antes de voltar deu também uma passadinha na “boutique das ilusões” frequentada por Valentina e se recusou a ver a verdade sobre o próprio desempenho. O clima ruim com Monique permaneceu por todo o episódio, mesmo que até sua amiga Manila tenha reconhecido que ela não foi bem. Além disso, o look escolhido por Latrice era HORRÍVEL, parecia uma patinadora ou uma comissão de frente de banda marcial… Terrível. Contudo, ela se dedicou. Preparou reveal de peruca (Monique também), fez seus espacates (Monique também), mas ainda ficou uma sensação de que a decisão de trazê-la de volta tinha sido só a última saída para a justificação de um desafio que se tivesse mandado uma das quatro remanescentes para casa, provocaria revoltas civis.
O double save foi um bom recurso para encerrar um episódio que sem dúvida será sempre relembrado como um dos mais bombásticos do show. Foi um momento bonito para Monique também, que conseguiu a simpatia do público ao passar todo o tempo enfrentando ataques por conta de uma decisão que tinha sido muito acertada. É bem provável que Latrice acabe indo embora logo na semana seguinte (como reza a maldição dos retornos), mas considerando a importância da credibilidade que um desafio como esse precisava ter, as coisas terminaram como deveriam terminar.
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E por fim, na outra ponta estavam Monet (com uma roupa odiosa que a eliminaria se ela não estivesse salva) e Manila, que pela primeira vez – para mim – mostrou um look realmente impressionante, digno de uma vencedora. Ela é a front runner, mas depois da performance de Naomi e da empatia direcionada a Monique, esse pode ser o Top 3 que se enquadraria melhor nas nossas expectativas. Ainda assim, ganhamos com a paz de saber que não haverá injustiçadas quando essa final chegar… O All Stars 4 escapou de machucar nosso coração (I love you, Shangela).















