Cuidado com o que você deseja.

Desistências em realities são comuns. Na maioria das vezes, a pessoa que entra numa competição como essa não tem a dimensão exata das pressões que vai sofrer e acaba sucumbindo ao impulso de fugir e se proteger no colo das coisas que conhece bem. A atenção recebida com a passagem por um programa como esse só virá depois de vivê-lo isoladamente e nem sempre a galera está preparada para estabelecer essa espera. Em realities de habilidades ainda há uma pressão extra, que é lidar com críticas duras que serão vistas nos quatro cantos do mundo.

Em edições All Stars, contudo, eu não consigo me lembrar de nenhuma desistência. Ex-participantes que foram muito bem em suas temporadas originais e que acabam errando muito quando voltam, são habituais. Mas, desistências num contexto de “segunda chance” são uma novidade, o que acaba melhorando ainda mais a boa reputação de RuPaul’s Drag Race, que em sua longa trajetória não lidou com desistências em nenhum tipo de contexto. Por causa desse detalhe, esse episódio que vamos analisar acabou se marcando na história como “aquele em que Adore Delano desistiu”.

Ru quebrou de novo a ordem de desafios e o Snatch Game foi antecipado da sua habitual quarta ou quinta semana para a segunda. A edição do episódio, mais uma vez, acertou em se ajustar nos 60 minutos que lhe são cabíveis e os eventos que se seguiram tiveram uma bela fluidez. Transformar a edição All Stars numa edição próxima das edições regulares foi uma decisão acertadíssima, porque as novidades estão ali, mas não são transgressoras o bastante para nos tirar a necessária familiaridade. O episódio dois foi tão bom quanto o episódio um.

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As meninas chegaram para o segundo desafio ainda sob o baque das decisões da primeira eliminação. Tatiana revelou que também eliminaria Coco e – convenhamos – Coco não devia nem ter entrado (como já tinha dito antes). Enquanto as câmeras passeavam pela excitação que pairava na sala, Adore era flagrada com uma nuvem carregada acima da cabeça. Nós aqui desse lado, que já sabíamos dos spoilers vazados pelo namorado magoado de Alaska, víamos a tempestade chegando sem podermos fazer nada para evitá-la.

Então, Ru entrou e fez aquilo que faz sempre: ser maravilhosa. Adore entregou o desejo de desistir de cara, muito antes de falar sobre a celebridade que personificaria. Ru sentiu que toda a emoção da participante anunciava uma situação muito mais dramática do que os breakdowns de Pearl ou Trinity, em temporadas anteriores. Adore estava realmente destruída… Sua entrada na edição All Stars pode ter sido motivada por uma ideia de que ela seria o Chad Michaels da vez (aquele que quase ganhou e que foi escalado para então ganhar) e o que acabou acontecendo foi um choque de realidade daqueles que são brutais.

Ru fez o que pode e fiquei até mesmo surpreso com o tamanho do esforço para evitar a desistência. Cheguei a me emocionar na sequência, porque de um lado tínhamos Adore vivendo um momento de pânico com o qual todo mundo pode se relacionar e do outro, tínhamos Ru dizendo as coisas certas, no tom certo, demonstrando um cuidado com a situação que foi simplesmente admirável. Mandou até Michelle para pedir desculpas e mesmo assim, Adore retirou-se da competição pela pior razão de todas: medo. Medo de sentir-se como uma novata mais uma vez, medo de arranhar sua reputação de drag superstar, medo de não saber lidar com uma eliminação por incompetência… Medos completamente justificáveis, mas que acabaram arranhando sim, a bela trajetória que ela construiu desde que foi lançada ao mundo. Ela era um exemplo de superação pelo carisma e pelo talento…  Dessa vez, ela não superou.

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Com tantas meninas com sangue nos olhos para vencer, a saída de Adore acabou aparando uma aresta. Após o choque com a saída dela, a edição voltou-se para a construção da bancada do Snatch Game, onde o destaque ficou por conta de Phi Phi O’hara e o instinto natural de sempre picar, não importando se ela afundará o elefante que a transporta. Decidida a mudar sua imagem, Phi Phi já honrou sua reputação de escorpião e fez joguinhos mentais que acabaram funcionando com Roxxxy Andrews – vejam só – vítima do veneno que ela mesma jogara em Jinkx anos atrás. Phi Phi até tentou com Alyssa também, mas Alyssa não deu ouvidos e escapou da armadilha.

Detox, Alyssa e a própria Phi Phi tinham muito o que provar nesse novo Snatch, já que tinham ido muito mal em suas temporadas originais. Já Tatiana, Alaska e Roxxxy precisavam só repetir o bom trabalho que já tinham feito antes. O resultado, contudo, acabou reconfigurando algumas posições e confirmando que quando se tem talento mesmo (e quando se faz boas escolhas), pode-se jogar o mesmo jogo mil vezes, que ainda vai acabar em vitória.

Vamos falar um pouco de cada uma:

Ginger: Resolveu personificar a tele-evangelista Tammy Faye Bakker e aparentemente acertou na escolha. Ginger não fez nada de sensacional nem no Snatch e nem no desfile, mas passou despercebida pelo radar por razões que comentaremos mais adiante. Curiosamente, Adore faria Jan Crouch, que também era uma tele-evangelista.

Alaska: Tirou Mae West da cartola e arrasou. Mae foi uma atriz que nasceu em 1893 (pasmem) e que incomodou a sociedade conservadora dos EUA com ironias e frases de duplo sentido sexual que escandalizavam a época.

Katya: Como não amar sua Bjork? Katya tem muito talento e fico cada vez mais impressionado com seu trabalho.

Phi Phi: Fez uma Teresa Caputo esquecível e burocrática.

Alyssa: Esse foi o Snatch das divas clássicas e Alyssa arrasou com uma Joan Crowford de fazer qualquer um morrer de rir. A edição do episódio, inclusive, marcou bem como foram de Alyssa os momentos que mais agradaram Ru.

Detox: Pegou Nancy Grace, que já tinha sido mal personificada por Acid Betty na oitava temporada. Detox não sabia disso, já que o All Stars foi filmado antes que o oitavo ano fosse ao ar. Mas, apesar de não ter errado tanto quanto Acid, também não fez nada tão memorável.

Tatiana: Escolheu Ariana Grande e já errou de cara. Ariana tem um visual muito marcado, mas não é dona de muitos traços cômicos. Até o irmão botocado dela seria uma opção melhor.

Roxxxy: Por causa de Phi Phi, desistiu de fazer Sofia Vergara no último instante e acho que teria se saído melhor. A escolha por Alaska foi totalmente equivocada.

No ateliê, Phi Phi estava lá fazendo a santa, dizendo que não achava que valia a pena ganhar 10 mil dólares para mandar alguém embora. Mas, a caveira dela já estava montada. E Tatiana foi a única que sacou tudo logo de cara. Phi Phi, aliás, merecia estar entre os piores sem dúvida nenhuma. Sua performance foi regular e o look de passarela foi risível. Detox, que ficou entre as piores, teve a mesma performance regular e um look que é, provavelmente, um dos cinco mais deslumbrantes da história do show. A indicação de Detox para o bottom e o salvamento de Phi Phi só tinham explicação se pensarmos que a narrativa planejada por Ru para essa semana foi a de colocar o Rolaskatox no centro das discussões.

Alyssa arrasou no Snatch e entrou com um look adorável, mas não ganhou. Ginger foi regular no Snatch e entrou com um vestido que poderia ter sido comprado em qualquer loja de roupa para madrinhas de casamento. Porém, a acusada de usar ready-to-wear foi Tatiana. Independente dos questionamentos, o que Ru queria era ver como Alaska reagiria se precisasse escolher entre Tatiana e uma das colegas de trio. Se ela eliminasse uma das duas seria épico, se ela não eliminasse, isso acenderia um alerta nas outras e o grupinho passaria a ser um alvo. Ou seja, em qualquer um dos cenários, a edição ganha.

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Ver Tatiana sair, contudo, é uma aberração. Só posso pensar que ela é a candidata mais forte para um retorno. Temos um time muito forte e ver qualquer uma saindo depois de Coco será dolorido. Mas, Ginger e Phi Phi fizeram um trabalho muito mais questionável e Roxxxy – que estava no bottom – não acertou nem a roupa de Alaska. Não sabemos quem das que já amamos vai sair essa semana, mas um retorno de Tatiana seria essencial. Melhor ainda, seria se duas meninas pudessem voltar, já que com a saída de Adore, Ru perdeu duas competidoras numa mesma semana.

Atualmente, meu top 3 está assim:

Alaska: Humor afiado, respostas rápidas, looks polidos… Ela veio pra dar trabalho.

Katya: Mesma coisa. O look dela na passarela (com direito a uma troca pro lipsync que ainda ficou dentro do tema) foi surpreendente e original. Katya está mais leve, ousada, disposta… Dá gosto de ver.

Alyssa: Achei que ia flopar no Snatch, mas provou que está amadurecida. Nos vídeos bônus que ficam disponíveis no site do LogoTV, ela conta que entendeu muito tarde que nada na corrida é só look.

Acredito que quando tivermos 4 eliminadas o twist da vingança entrará em ação. Porém, estou mais feliz é em ver como a edição All Stars acompanhou o bom trabalho feito na Season 8 e que por causa disso, é bem provável que não precisemos esperar mais três anos por uma terceira temporada. RuPaul’s Drag Race continua validando seu papel na TV semana após semana, fazendo entretenimento de qualidade e nos levando ao apogeu do riso, da tensão e do prazer.

PS: Galera, atrasei MUITO a review por conta do trabalho, mil desculpas. Espero não deixar isso acontecer novamente.

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