Nove temporadas e a Drag Race ainda sabe fazer história.

Acho que todo mundo já se perguntou como seria estar num reality show. A ideia é excitante porque de certa forma, estar num reality nos valida de alguma maneira perante o mundo. Na maioria das vezes as pessoas entram esperando que aquelas qualidades das quais se orgulham serão notadas e admiradas em grande escala. E todos somos assim, resguardamos aquela fantasia de sermos festejados por aspectos de nós mesmos que torcemos para que os outros enxerguem. Imagine então como se sente alguém que entra e percebe que tem muito mais aspectos negativos para serem sublinhados do que os positivos?

A Drag Race não é diferente de nenhum outro reality que tem pessoas reais como matéria-prima. Algumas das pessoas que passaram por ali viram traços de suas personalidades sendo julgados com crueldade e isso se refletiu na rotina de todas as piores formas possíveis. Esse é o jogo, essa é a dança e o risco é igual para todos. Entrar é estar passível disso e não adianta colocar a culpa em ninguém depois. Em realities de habilidades – mais que tudo – uma performance ruim pode colocar em dúvida toda a carreira de uma pessoa. Aquele é um jogo de entretenimento sim, mas que pode balançar muito uma vida.

Esse é o tipo de ponderamento que fazemos depois de assistirmos um episódio como esse. O que aconteceu com a participante que foi eliminada nessa semana não foi exatamente um episódio deliberado de difamação, mas foi um equívoco e um ato de inexperiência que pode vir a reverberar por toda a vida e carreira dela. Há sempre o fator benevolência em pauta e ao que parece a compaixão será o sentimento mais compartilhado entre os espectadores. Mesmo assim, fica no ar uma ideia de incompetência, vulnerabilidade, que definitivamente não é bom para nenhuma participante que pretende se coroar a Rainha do carisma, da singularidade, da força e do talento.

Estamos falando de Valentina, vocês todos sabem disso. O desafio dessa semana no programa teve a ver com algo que talvez Ru nem soubesse ainda que ia lhe acontecer na ocasião das filmagens, mas que se correlaciona muito bem com esse episódio. Aqui no “mundo real”, Ru terá uma série sobre sua vida. Lá no ateliê, todas as meninas tinham que criar e produzir um piloto de uma série. Esse tipo de desafio já ajudou Trinity na sexta temporada, Derrick na oitava, já arruinou e levantou participantes. A narrativa dessa semana, entretanto, não foi de êxito e sim de fracasso. A partir do momento em que Nina e Valentina foram emparelhadas juntas, já era certo que nada de bom ia sair dali.

Aquele não era o único grupo complicado. Alexis vem de uma maré de egocentrismo cada vez mais incontrolável e a única opção ali que não daria choque com ela seria alguma retardatária já eliminada, justamente porque personalidades como a dela são dominadoras e não se dão bem com quem também se impõe. Trinity e Peppermint estão com sangue nos olhos e não deixaram que a colega transformasse aquela numa narrativa unilateral. Me parece curioso que poucos percebam que desde sempre Alexis e Nina tem o mesmo vício em se tornarem vítimas de alguma coisa, o que é perfeitamente condizente com suas histórias de insegurança. A gente entende, mas o programa não abre espaço para mais do que a exposição desses sintomas e confiar sua trajetória em complacência é um movimento totalmente errado.

O problema da dupla Nina e Valentina é que elas duas não tem nada em comum e ao mesmo tempo, não souberam canalizar essas diferenças em algo criativo. As duas não se desafiaram e o resultado foi ruim. Valentina pode ter dito nas entrevistas que não sabia disso, mas no fundo ela sabia. O comportamento dela no final do programa mostrou que em alguma instância ela sabia o que estava prestes a acontecer e fez com que seu inusitado surto de despreparo se prorrogasse até o lipsync. Não quero fazer parecer que tudo é sobre Valentina e que Nina não tem papel nesses eventos, mas todo o comportamento delusional de Nina é corriqueiro, suas entradas de passarela continuam provocativas, mas já não surpreendem, ela foi Nina como sempre foi. O choque foi ver uma participante tão consistente na competição ser eliminada daquela forma tão humilhante. Imaginem se isso tivesse acontecido com Bianca Del Rio, por exemplo. Aquilo não foi só uma eliminação, foi uma aberração no fluxo de expectativas do show. Valentina podia até não ganhar, mas ela era uma certeza no Top 3.

RPDR (screen grab) CR: VH1

Nada tira da minha cabeça que Ru estava pronta para dizer adeus a Nina. Shea e Sasha foram impecáveis como sempre. Peppermint e Trinity foram competentes e tiveram que aturar Alexis criando chifre em cabeça de cavalo desnecessariamente. Era óbvio que o bottom seria entre Valentina e Nina, mas Nina sairia mesmo que Valentina fosse só meramente boa na dublagem. Nina esteve nos piores muitas vezes, sua atitude era incompatível com a de uma representante da corrida e Valentina já tinha dado milhões de provas de que era talentosa, focada, competente e inteligente. É claro e evidente que ela entrou numa espiral de obscuridade assim que percebeu que estaria no bottom e dali não saiu mais.

É impressionante que em nove anos de show, ainda tenhamos surpresas como a dessa eliminação. Provavelmente nem mesmo Valentina sabe porque não tirou aquela máscara, porque achou que não mostrar os lábios numa dublagem seria permitido. É um pensamento tão tolo, tão burro, tão incompatível com tudo que ela tinha mostrado até aqui. Minha única explicação é pânico. Pânico pleno e absoluto. Nunca em todos esses anos vimos Ru parar uma dublagem com aquele tom tão hostil, mas diante da insana tentativa de Valentina de se manter com a máscara, Ru estava mais do que certa em fazê-lo. Em pânico ou não, Valentina tentou “enganar” a bancada, esconder que não sabia a letra e com isso piorou em 200% sua já péssima posição. Assistir aquilo acontecer era empolgante do ponto de vista de espectador, mas era penoso do ponto de vista humano, porque ela estava sendo muito humilhada. E por própria culpa.

Quando Ru disse “Eu achei que você tinha condições de chegar até o fim”, a pá de cal derradeira foi jogada. Valentina passou esse tempo todo provocando dúvidas de que era inexperiente e de uma vez só, jogou sua inexperiência na tela numa postura incompreensível. As lágrimas dela na entrevista eram das coisas mais reais da história da corrida, porque estava errado, aquele não era o momento dela, aquilo não estava certo, não era assim que deveria acontecer. E por causa disso, por causa dessa virada completamente chocante, RuPaul’s Drag Race se confirmou como uma das melhores coisas que temos na TV nos dias de hoje. Aquelas são vidas, são destinos, sabemos da delicadeza da questão. Mas, da perspectiva do entretenimento, esse é um programa simplesmente irresistível. É bom demais. Simples assim. Bom demais.

NOTA DO UNTUCKED: Ao contrário do que pensei, o Untucked não refletiu de forma intensa os eventos da eliminação. Metade do tempo do programa foi de Alexis tentando apagar o incêndio que ela mesma provocou e tendo que colocar o rabinho entre as pernas, porque Trinity e Peppermint não a deixaram fazer aquilo tudo ser sobre ela. Percebam como é mais ou menos o que Shea fez com Nina, com a diferença de que Alexis é menos agressiva. Nina continua com aquela paranoia quase maluca de que tem gente falando mal dela (o que a edição já teria mostrado) e além de ser chato, só prejudica sua imagem aqui fora. Alexis vai pelo mesmo caminho. Dito isso, Valentina surgiu indo embora como eu já imaginei que seria: cheia de otimismo e frases certas sobre não deixar que aquele momento horrível definisse sua passagem pelo show. Ela tem razão sobre isso e já estou torcendo de antemão para que seja assim. Ela é mais do que aquilo e se os boatos sobre um retorno no próximo episódio não se confirmarem (o que seria irônico, já que todo rumor sempre se confirma), ela merece uma chance no All Stars 3.

Sendo assim, meu ressentido Top da semana ficou desse jeito:

TOP

Shea: O mesmo que Valentina tinha: consistência. E incríveis doses de inteligência, talento e bom humor.

Sasha: Merece os mesmos elogios que Shea, mas tem bem menos carisma.

Trinity: Ainda acho mais talentosa que Peppermint.a

BOTTOM

Nina: Imaginem essa criatura vencendo o programa e tendo que lidar com tudo que isso representa? Ela não tem estrutura.

Alexis: Que impressionante espiral de falhas de uns tempos para cá.

REVISÃO GERAL
Nota:
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rupauls-drag-race-9x09-your-pilots-on-fireRuPaul's Drag Race se confirmou como uma das melhores coisas que temos na TV nos dias de hoje. Aquelas são vidas, são destinos, sabemos da delicadeza da questão.