O lado “shady” da superexposição e o brilhante trabalho de edição.
Na semana passada, conhecemos as sete primeiras queens da sexta temporada de RuPaul’s Drag Race e Kelly Mantle sasheou away. A outra metade de concorrentes ficou guardada para a última segunda-feira, mas, embora o time de drags tenha se confirmado promissor, é para outra equipe que eu quero dar meus parabéns nessa review: a de edição do programa.
Já havia elogiado os apuros técnicos percebidos já na primeira parte da premiere, mas não há como deixar passar batida a ótima jogada de edição utilizada na parte 2.
Os truques e as artimanhas usadas pelo formato de RPDR sempre foram bastante sutis em delinear narrativas entre as protagonistas da atração – as competidoras. Dessa maneira, os arcos, na maioria das vezes, surgiam da interação “natural” entre elas. A divisão entre heathers e boogers na season 3 e a paixonite de Jinkx por Ivy Winters na season 5 são dois exemplos simples de enredos que surgiram sem a intervenção direta da produção e renderam material para ir ao ar (em proporções diferentes, claro). Nesse ano, seja por inspiração ou não, as duas histórias ensaiaram uma repetição.
De uma forma menos relevante e que talvez nem sequer seja citada adiante, tivemos esse primeiro déjà vu com um pequeno flerte entre Courtney Act e Milk quando desmontadas. A beleza de Milk fora de sua persona drag queen me chamou a atenção já no pré-show e até passou pela minha cabeça que isso pudesse causar algum burburinho e talvez render outro pequeno arco romântico, mas não tão rápido. As duas trocaram elogios – não diretamente uma para a outra – e, se no ano passado qualquer possibilidade de romance foi impedida por Jinkx não ser correspondida, não é o caso dessa vez. Claro que esse não é o foco de RPDR, mas a chance do segmento de dois apaixonados disputando o mesmo prêmio chegar até RPDR, por menor que seja, me anima.
Porém, a tacada de mestre de verdade, mais evidente e que funcionou ainda melhor do que eu já esperava, foi o fracionamento das queens. O segundo episódio começou com as seis participantes que sobreviveram ao primeiro challenge comemorando e já ensaiando uma possível aliança contra as drags que estavam por vir, o que, além de me instigar a pensar o quanto essa união vai durar, ainda proporcionou essa ótima cena:
Assim, Adore, Laganja, April, Ben, Gia e Vi se retiram e deixam uma mensagem não tão acolhedora para suas futuras companheiras, e dão lugar a Bianca, Trinity, Joslyn, Milk, Magnolia, Courtney e Darienne.
As sete novas concorrentes fazem entradas mais discretas; nada de gente se desmontando no chão ou com duas cabeças. Como da outra vez, recebem she-mail e se espantam com a velocidade no qual ele veio, porém já são avisadas de que essa é só uma parcela das candidatas da season 6 e que elas devem sobreviver ao primeiro desafio para conhecer as demais.
No mini challenge, Mike Ruiz entra em ação novamente, dessa vez para fotografar as drag queens em meio a uma briga de travesseiros com os rapazinhos de cueca do merchandising.
Já no tradicional primeiro desafio principal de costura, elas são desafiadas a criarem looks inspirados em festas temáticas, utilizando o material concedido nas caixas, sendo que cada caixa é submetida a uma queen pela vencedora do mini challenge. As referências da prova não são tão legais quanto as da semana passada, mas mesmo assim não deixa de ser um teste de bom gosto, esforço e talento. Além da bancada tradicional com Michelle Visage e Santino Rice, tivemos a participação de Khloe Kardashian, celebridade que eu ainda não sei se eu amo odiar ou odeio amar – mas que, no programa, fez uma participação até bastante proveitosa.
Depois do lipsync e da eliminação, o episódio teve seu desfecho em uma cena incrível, no melhor estilo de cinema western, com direto até a trilha sonora clássica dos longas de faroeste. O encontro dos dois grupos distintos de drags foi marcado pelos carões vindos do primeiro grupo. Considerando que o segundo havia acabado de sair de seu resultado final, pode ser que elas sequer estivessem preparadas ou cientes da “panelinha” já formada. Movimento de mestre da produção, que agora mexeu os pauzinhos para já formar uma rivalidade logo de início. Resta saber se essa rivalidade permanecerá (e até quando), e também se ela será declarada ou maquiada para existir apenas nas entrelinhas.
A partir daqui, vamos discorrer sobre o episódio analisando drag por drag, como na semana passada, dividindo sua trajetória entre a entrada, o mini challenge, o main challenge e as primeiras impressões gerais, considerando a personalidade, os comentários e os shades deixados nos takes e no Untucked!
BIANCA DEL RIO
Entrada: Bianca entra primeiro e já chega entregando o que faz de melhor: comédia. E é de melhor mesmo, porque só nesse tempo de chegada das garotas, Bianca já metralha comentários fugazes e engraçados, sobre o nariz de Magnolia, o exagero de acessórios no corpo de Joslyn e tudo mais que acontece ao seu redor.
Mini Challenge: Bianca assume seu look meio palhaço e que com ele, é difícil entregar um resultado sexy nesse desafio, e assim, sua foto final fica apenas “satisfatória”.
Main Challenge: Bianca foi, de longe, a melhor, e seu background trabalhando com moda com certeza ajudou bastante para isso. Pegando o tema “lual”, conseguiu construir um vestido muito bonito, auxiliado pelo excelente uso de acessórios e fazer algo que é sempre muito elogiado pelos jurados: mais com menos. Vitória justíssima nesse primeiro desafio.
PS: Alguém mais se pegou lembrando da Aline do BBB enquanto ela desfilava?
Primeiras Impressões: Bianca despontou como minha favorita disparada desse segundo grupo. Ela foi a que mais se aproximou do pacote completo que o episódio poderia expor: carismática, engraçada e com senso fashion apurado. Além disso, no Untucked! se destacou no meio da discussão com Magnolia, jogando merecidas verdades na fuça da colega com seu jeito bem humorado. Como disse Santino, “I’ll be watching her!”
TRINITY K. BONET
Entrada: Chegada focada apenas no look, mas que pelo menos serviu de bandeja a primeira sopa de climão que foi aquele silêncio constrangedor entre ela e Bianca.
Mini Challenge: Trinity se entregou ao tema e conseguiu se sair muito bem, com uma foto bastante sensual, e ganhou o desafio. Aliás, incrível como Trinity é infinitamente mais bonita como drag, hein?
Main Challenge: Mais uma vez se sobressaindo, Trinity fugiu das obviedades que se esperam quando se fala de “festa temática de princesa” e fez algo meio futurístico, enigmático e rolou até uma performance que remetia a magia com aquele pó soprado no meio da runway. Não consegui achar a mistura de Princesa Lea de Star Wars com princesa Kate Middleton que Trinity explicou para RuPaul, mas de qualquer maneira foi uma ótima jogada que serviu para destacá-la entre as demais.
Primeiras Impressões: Apesar de parecer estar sempre chapada nos takes mostrados no episódio, Trinity se juntou a Bianca e mandou bem ao rebater, com bastante eloquência e bom senso, o festival de absurdos que saía da boca de Magnolia. Parece que, ao se montar, Trinity não só fica gritantemente mais bonita, como também mais inteligente.
JOSLYN FOX
Entrada: Mais uma entrada que só revelou corpo e nada mais. Not impressive.
Mini Challenge: Joslyn se divertiu no mini challenge, mas na foto final seu rosto estava 60% tampado pelas penas, e inclusive as que estavam na altura do seu queixo formaram uma barba imaginária bizarra.
Main Challenge: Ao incorporar uma festa de debutante em seu look, Joslyn cometeu um dos pecados mais criticados na história de Drag Race: o exagero. Muita cor, muito brilho, muitos detalhes, muitos acessórios, muita informação, e tudo perdido em um acabamento medíocre.
Primeiras Impressões: Ao final do episódio eu já estava irritado de morte com a voz de Joslyn e aqueles insuportáveis “hi hi hi”. Duvido muito que dure mais de três semanas na competição.
MILK

Entrada: Milk fez o que talvez tenha sido a entrada que mais se aproximou do que eu posso chamar de “marcante”. Com um salto que a fez ter que se abaixar para não bater na parede ao adentrar o galpão, e o berrante batom que ela já tinha esbanjado no Meet the Queens, Milk chamou muito mais a atenção pelo look excêntrico do que qualquer outra coisa.
Mini Challenge: Milk sofreu ainda mais que Bianca com o desajuste de seu estilo de drag ao contexto do photoshoot. Fez o que pode, mas não era o desafio dela mesmo.
Main Challenge: Milk foi a que mais tentou jogar “out of the box”, porém não consigo afirmar que ela o tenha feito da melhor maneira. A própria Milk afirmou que mirou em um visual hermafrodita em sua roupa inspirada nas festas gregas, mas acredito que isso fuja um pouco do intuito drag em si. A barba foi a tentativa mais gritante de garantir que ela faria uma primeira impressão memorável, porém o tiro saiu pela culatra e os jurados não aprovaram a escolha. Ficou estranho e desviou a atenção do que era, na verdade, o ponto mais forte de seu trabalho: TODO o restante do look. Calças na passarela não costumam ser elogiadas e, mesmo assim, as de Milk arrancaram um comentário positivo de Santino, bem como o look no geral que era bem delineado e glamuroso. Milk fez uma escolha equivocada que foi salva por ter sido relevada diante de outras bastante acertadas.
Primeiras Impressões: Acredito que eu não tenha sido o único que achou que o highlight de Milk não estando montada tenha sido… bem…
Pode ser cedo para afirmar, mas acho que Milk desbancou Willam como o homem mais bonito a participar de RPDR. Tirando isso, a personalidade transpareceu meio morna e, no Untucked!, eu sequer lembro de ter ouvido a voz dela. Vai ter que se esforçar para não ficar ofuscada porque, embora a embalagem seja bastante atraente, o conteúdo por dentro pode não ser suficiente para fazê-la aparecer no meio de outras personalidades tão fortes.
MAGNOLIA CRAWFORD

Entrada: Magnolia já chega se definindo como glamorous trash queen, mas a coisa mais trash nela – e talvez em todo o episódio – sem dúvidas é a maquiagem no seu nariz, que Bianca Del Rio sabiamente comparou a um peixe espada. Sério, a coisa é tão pontuda e bizarra que deixaria a Ashley Tisdale da época de High School Musical com inveja de um nariz tão arrojado.
Mini Challenge: Desempenho que pareceu ser bastante preguiçoso, o que levou a uma das piores fotos do challenge.
Main Challenge: Tendo recebido o tema de “festa country”, Magnolia pareceu subir na passarela com a mesma determinação de Milk em causar uma primeira impressão marcante… porém, de uma maneira negativa.
Em primeiro lugar, com um tema que oferece tanta diversidade de referências através da roupa, Magnolia apostou em um vestido bastante simples, com um laço completamente perdido no meio da temática e também do visual.
Depois, rebatia de maneira arrogante todas as críticas levantadas pelos jurados, irritando claramente RuPaul, que usou aquele tom de voz de quem já perdeu a paciência quando se dirigiu a Magnolia. E quem não perderia, não é mesmo?
Primeiras Impressões: Em absolutamente todos os momentos, Magnolia assumiu uma postura defensiva para justificar todos os seus atos e escolhas, porém usando da agressividade para se impor, o que, juntamente com a preguiça que exalava de cada poro do seu corpo, causou uma má impressão não só em MaMa Ru e jurados, como também nas colegas. E, no Interior Illusions Lounge, a coisa ficou feia para valer.
Continuando na tentativa de defender sua incompetência, Magnolia piorava a sua situação cada vez mais, e o ponto decisivo de sua queda foi afirmar que estava ali “apenas pela exposição”. Não que isso seja errado; a exposição que esse tipo de programa proporciona gera frutos que são bastante atraentes e fazem com que o prêmio em dinheiro e o estoque de produtos Jequiti não sejam os únicos objetos de almejo em RPDR. É claro que a fama trazida pelo programa, mesmo que efêmera, reflete em aumento de trabalhos e do cachê deles, estabelecimento de contatos, entre outras vantagens proporcionadas a qualquer subcelebridade.
Porém, as palavras e o tom de voz usados por Magnolia para fazer essa declaração soaram como um descaso, um desrespeito, uma verdadeira afronta ao programa em si, a suas companheiras, a Ru, os jurados, a produção e o público. Magnolia disse não estar ali para se desafiar ou se desenvolver porque ela venderia apenas o que ela é, mas todos perceberam que a verdade é que ela se acha superior a tudo e todos e estava determinada a usar RPDR apenas como plataforma para qualquer pequeno benefício que o programa pudesse trazer.
Se Magnolia estava dizendo a verdade ao afirmar que só queria ser reconhecida, não importa como, bom para ela. Afinal, apesar de não poder dizer com 100% de certeza, é bem provável que a reputação dela depois da exibição desse episódio tenha ficado mais feia que sua maquiagem nasal.
COURTNEY ACT
Entrada: Courtney chegou já me deixando embasbacado com sua feminilidade. Se eu a visse na rua, jamais eu pensaria que aquilo era uma drag queen, Brasil!! A gata parece uma barbie e chegou esfregando seu background de cantora na fuça da sociedade, e já tinha até uma fã entre as concorrentes – a anasalada Joslyn.
Mini Challenge: A gatinha mais fishy entre as sete obviamente levava uma vantagem natural nesse photoshoot, mas ela se destacou não só pela foto final que ficou realmente linda e atendendo exatamente o que o desafio pedia, mas foi também bastante divertido, com Courtney se jogando na bagaceirice, conseguindo misturar a sensualidade com brincadeiras com os moçoilos de cueca e imitações de uma galinha. Tinha dado sua vitória como certa e fui surpreendido quando ela não ganhou o mini challenge.
Main Challenge: Outra que também não sabia costurar, Courtney se apoiou no corpão e usou um traje que, embora bonito, era bastante simples. Vale ressaltar que ela usou também a própria caixa na qual veio sua tralha baseada em uma festa republicana. Um dos problemas de seu desfile foi a cauda longa, na qual ficou tropeçando de dois em dois segundos, e também acho que ela podia ter trabalhado com um pouco de vermelho na sua costura, mas é inegável que ela estava estonteantemente linda.
Primeiras Impressões: Bastante do que foi mostrado de Courtney se limitou ao seu passado como participante do Australian Idol (no qual foi finalista da primeira temporada), mas no Untucked! protagonizou uma conversa interessante sobre homens que gostam de ter relações sexuais com drags e um outro momento no qual deixou sua fã Joslyn no vácuo – o que, confesso, achei super engraçado. Courtney me surpreendeu positivamente no que diz respeito às minhas expectativas pré-show.
DARIENNE LAKE
Entrada: Darienne foi a última a chegar, também sem muito alarde, apenas fazendo as tradicionais piadas sobre ser uma big girl, mas também brincando com a sua idade e o nome das concorrentes.
Mini Challenge: Pouco foi mostrado do desempenho de Darienne, mas aparentemente foi outra sessão de fotos divertida e que resultou em uma boa foto.
Main Challenge: A gordelícia achou que era só colocar uma blusa verde para representar St. Patrick’s Day e foi super básica para a runway. A única coisa que chamou a atenção na sua montagem era a saia drapeada, um erro fatal que deixou a parte inferior do seu corpo caricata e esquisita.
Primeiras Impressões: Darienne sumiu um pouco no meio das outras personalidades mais marcantes, mas não chega a ser um sorvete de chuchu, apesar do fraco desempenho no main challenge.
Após a deliberação dos jurados e das bonecas encherem a bacurinha de vodka Balalaika, foi a hora da decisão. RuPaul teve que escolher entre punir as que fizeram demais ou as que fizeram de menos. Como nesse início de competição é muito pior errar por tentar muito do que por não tentar quase nada, Ru sabiamente optou pela segunda opção e mandou Darienne e Magnolia dublarem por suas vidas “Turn the Beat Around”, de Vicki Sue Robinson.
Enquanto Darienne servia tia bêbada de casamento realness, com seus passinhos disco ultrapassados, porém com uma boa performance labial, Magnolia fez o lipsync mais fora de sincronia desde Tammy Brown se recusando a dublar a música de Michelle Williams no segundo bottom 2 da primeira temporada. A gata estava jurando que estava sendo cômica e irreverente, mas na verdade só estava exponencializando a ridicularidade de seu papel. Assim, foi Magnolia a segunda eliminada dessa primeira fase do jogo.
O episódio termina com o já comentado encontro entre os grupos de drag queens dos dois primeiros episódios. E agora, como será que vai ser a mistura entre eles? Pacífica? Ou cheia de shade, gritaria e confusão? Será que vai rolar mesmo uma divisão declarada e competição entre as alianças no melhor estilo Segunda Guerra Mundial (ou BBB)? Só a próxima segunda-feira dirá.
Até mais!















