A décima terceira temporada da Drag Race chega ao fim mostrando que “charisma” é a palavra-chave no mantra “charisma, uniqueness, nerve and talent”.

Chegamos ao final de mais uma temporada da Drag Race, mais uma em tempos de pandemia, com mais uma leva de meninas que vão sofrer (ainda que menos) com a ausência de shows e aparições. Mais uma finale de estranhas dublagens e ruveals e com um Top 4 que parece, também, servir como uma espécie de lembrete para tudo que está por vir. Provavelmente nunca tivemos uma passarela tão arrebatadora quanto a desse último episódio, o que só reforçou a discrepância da presença de Kandy Muse entre as finalistas. O que Mama Ru está nos dizendo é: não se esqueçam de Jinkx, de Adore, de Heidi, de Vanjie… A corrida impulsionou a arte drag até patamares inacreditáveis, mas o carisma é capaz de passar por cima disso tudo como um trator.

Espera, isso quer dizer que você está dizendo que Kandy Muse é carismática? Vejam bem, sabemos que Kandy enfrentou muito hate durante a temporada. Ela é confrontativa, inconsequente com as palavras e não tem a figura física considerada “aprazível” para a maioria da audiência. Sejamos honestos aqui: isso não faz diferença para mim ou para alguns de vocês, mas, uma grande parte dos fãs da Drag Race tem uma rejeição muito forte a meninas pretas, big girls ou qualquer outra imagem que não se enquadre no perfil de glamour e beleza que rege a comunidade. Delta Work, Stacy, Mystique, Mimi, Darienne, Ginger, Eureka, Silky… todas as big girls, por exemplo, encontraram alguma resistência por parte dos fãs da corrida. Quase sempre a audiência se esquece que o comportamento exagerado ou reativo é sempre uma defesa contra uma vida inteira de rejeição. Continuar rejeitando é bem mais fácil.

Todo mundo está livre para não gostar de Kandy independente de qualquer razão visual ou política. Em vários momentos ela – como muitas outras – foi mesmo odiável. Mas, jamais podemos tirar dela o fato de que se a temporada teve o mínimo de narrativa (um dos problemas desse ano), isso se deve a ela. Ela em primeira instância e em segunda à Gotmik. Gotmik, aliás, dominou completamente o “enredo” do episódio que definiu o Top 4. Não só teve mais tempo de confessionário, como também teve – de longe – a melhor entrevista com Ru e Michelle. Além disso, a emoção de Ru na passarela ao elogiá-la, também fez parecer que o destino de Gotmik na competição era muito promissor.

E é muito curioso ver como funcionam as engrenagens dessa reta final, porque no ótimo número de Lucky (talvez um dos melhores do programa) e no desempenho da passarela, Kandy era o elo mais fraco. Mesmo com muito tempo até a gravação da finale, suas escolhas de look são extremamente duvidosas e fomos também apresentados a uma performance problemática. Contudo, não importa o quanto Rosé seja perfeita em tudo ou o quanto Gotmik tenha uma presença revolucionária no show. De certa forma – ainda que dependamos do lipsync for the crown – sempre há uma barreira que impede tanto uma quanto outra de chegar perto da vitória. Rosé não dublou nenhuma vez, Symone dublou mais de uma. E o mais louco é que mesmo com Ru exigindo excelência, ficar entre os piores pode se virar a seu próprio favor.

A maior prova disso foram os incontáveis bottoms de Kandy e sua eliminação. Ela literalmente levou um Sashay Away e mesmo assim foi salva. RuPaul deve, obviamente, ver-se espelhada em todas essas personalidades expansivas e abre um espaço especial para que elas tenham uma chance. Para a corrida também é positivo, já que se ela se torna só um desfile de looks caríssimos, ela se afasta do público. A competição precisa de competidoras não tão polidas para garantir que tenha organicidade, para garantir que seja “verdadeiro”. Talvez esse ano tenha sido diferente porque nunca o carisma havia sido unicamente considerado na hora de manter uma menina na competição. Kandy falhou em looks, em atuação, em dança, só não falhou numa coisa: ser Kandy.

Aí, é claro, entram em cena as circunstâncias inesperadas. A finale semi-presencial foi fria, mas bem pensada. O número inicial de RuPaul me agradou muito, aliás. A música é gostosa e ela estava deslumbrante. Acho de um mal gosto atroz, inclusive, que piadas sobre sua idade sejam usadas para diminuir sua performance. Havia uma plateia e havia o mínimo de interação. Mas, faltava a efervescência que, sinceramente, já não vemos há um tempo nos episódios finais. O modelo sem lipsync se cansou na oitava temporada; o modelo com lipsync já começou cansado. Tivemos dois grandes momentos nesse formato: o primeiro, quando Sasha mudou a roda; e um pouco depois com Yvie. De resto, todos as dublagens são desajeitadas, os ruveals sem contexto, ninguém vive a música, só faz movimentos, revela coisas e faz carão.

Pra mim o modelo da finale tinha que ser como num baile temático dos que temos durante a competição. Elas teriam seus looks planejados, mas teriam que montar um outro durante a finale, que seria usado num número com atuação, dança e dublagem. Até com ajuda de outras participantes. Testar tudo ali mesmo. Já passou da hora de rever esse formato atual, porque as dublagens passaram a ser, de fato, entediantes.

Foi justamente nessas dublagens que surgiram as circunstâncias inesperadas. Nem em mil anos poderia prever que Rosé iria aparecer para dublar com aquele look horrendo (pensado da mesma forma que o look branco horrendo de Kandy). A conversa com sua família foi uma fofura, mas ela estava especialmente estática nessa finale. Talvez pelo machucado, não sei. Contudo, não deu mesmo para criticar a decisão de RuPaul em ter salvado Kandy, que parecia mais presente, mais envolvida. Quero reforçar que no geral eu não gostei de nenhum lipsync, mas as decisões de Ru fizeram sentido para mim. Entramos, então, naquela pergunta indecorosa: Rosé foi incrível a competição toda, mas perdeu justamente para quem mais errou no percurso. É justo?

A disputa entre Symone e Gotmik deixou claro para onde estávamos caminhando. Com Rosé apática e Gotmik claramente sem experiência de palco, Symone despontava como a única ameaça possível para Kandy. Contudo, houve realmente alguma ameaça? Não. Kandy pode se considerar um verdadeiro fenômeno, tendo o histórico dela e ainda ficando em segundo lugar. Mas, Symone já vinha soberana na direção da coroa desde o começo. Nem tão perfeita quanto Rosé, nem tão carismática quanto Kandy, mas tão poderosa na passarela quanto Gotmik.

Mesmo assim, as circunstâncias… as circunstâncias… Tenho certeza que Ru esperava que Shea fosse arrasar na dublagem da final e ela não arrasou. Tenho certeza que Ru esperava que Silky fosse ser a primeira big girl a vencer e ela decepcionou. Havia, mesmo que lá longe, uma pequena chance de Symone ferrar com tudo e Kandy ser coroada. Sem a desistência de Ben e o júri do All Stars 3, Trixie jamais estaria no hall da fama. As circunstâncias existem. Elas pesam. Leve uma queen apenas carismática até o final e corra o risco de ser obrigada a coroá-la. Viver com isso no meio desse fandom completamente louco pode ser bem difícil.

Assim, chegamos ao final de mais uma temporada, que a despeito do hate que sofreu (em parte pela equivocada decisão de colocar a temporada UK em simultâneo), me divertiu imensamente. Espero ansioso pelo All Stars 6 (sem lipsync assassin) e sonho acordado com o All Winners. Por mim pode ter Drag Race em looping e estarei a postos. Ela segue sendo aquele momento da minha semana em que eu sei que vou esquecer do mundo, que serei feliz, razão pela qual ela é tão necessária e tão especial.

RuNotes:

  • A homenagem para Chi Chi me fez soluçar.

  • OS LOOKS DE GOTMIK E SYMONE NESSA FINALE FORAM ABSURDOS DE LINDOS! (assim em caixa alta mesmo).

  • Amei Ru escolhendo Britney para as dublagens. Baita afirmação de apoio a ela.

  • Amo Katya no Pit Stop dizendo o que venho dizendo há seculos: LaLaRi deveria ter sido eliminada de cara no desfile das bolsinhas. Aquilo ali não dava a ela o direito de dublar. Além disso, pra mim a Miss Simpatia dessa temporada tinha que ser Olívia. Quem mais vivia sorrindo o tempo todo?

  • Não comentei o Reunited por motivos de: foi uma bosta. A ideia do lipsync para as meninas foi legal, mas reunion que se preze tem que ser igual ao da nona temporada. Foi uma imensa perda de tempo.

  • Me desculpem pelo acúmulo de episódios para criticar, mas eu tenho trabalhado muito com uma demanda grande de textos e acabei precisando atrasar.

  • E como fazemos todo ano, segue abaixo o vídeo que mostra a reação verdadeira de Symone ao saber de sua vitória (como cês sabem, dois finais são gravados e só um vai ao ar). Aliás, o carinho entre elas quatro é notório e comovente.

REVISÃO GERAL
Nota:
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