RuPaul preparou uma décima terceira temporada cheia de surpresas, com vários episódios a mais para te entreter na pandemia e mesmo assim você tá reclamando? Bitch.
A temporada 13 de RuPaul’s Drag Race estreou no dia 01 de Janeiro, dividiu-se em grupos e não eliminou ninguém por 3 semanas. Era claro e evidente que depois de uma décima segunda temporada que encontrou a pandemia de frente sem ter sido planejada para isso, a temporada treze foi filmada sob a certeza de que quando estreasse, o isolamento ainda não teria acabado. Pensando nisso, viradas foram planejadas para adiar eliminações e assim aumentar o número de episódios. Sendo assim, a temporada ficaria mais tempo no ar (o que para os tempos de pandemia é ótimo) e as chances de poder filmar uma finale presencial também seriam maiores.
Porém, uma olhadinha no twitter e o hate é severo: “está longa demais… quero eliminações… ah que chata…”. Estamos no episódio 9 e pelas minhas contas, para chegarmos ao top 4 a temporada deve ir até o episódio 16 ou 17. Não é nada assustador. A terceira temporada, por exemplo, também teve 16 episódios e saiu ilesa no coração do público. A maioria das temporadas têm 14 episódios, um número que para os 16 ou 17 que podemos ter esse ano, não é nada discrepante. O oposto, inclusive, recebe as mesmas reclamações. A oitava temporada teve míseros 10 episódios; e isso contando com o recap e o reunited. De competição mesmo foram 8. Bob The Drag Queen, inclusive, sempre fala com certa mágoa sobre isso.
Ru ainda caiu na besteira de colocar no ar o segundo ano da Drag Race UK, simultaneamente. O original US – que ao mesmo tempo em que bate recordes de audiência também está sempre na berlinda – ficou a mercê dessa decisão, sofrendo constantes comparações. A temporada UK está realmente ótima, muito mais aquecida e competente que a primeira. Mas, as qualidades que enxergo na versão britânica também consigo ver na sua primogênita; o que me leva a uma certa confusão. Vocês estão mesmo reclamando porque temos mais episódios, mais twists, mais tempo com aquela horinha de escape tão preciosa, mais queens para admirar com mais tempo para que possamos admirá-las?
Ok, tudo bem, vamos admitir que alguns desafios são mesmo bem ruins. Mas, isso tem todo ano, até na sagrada segunda temporada do All Stars (que para mim é o Santo Graal do entretenimento). Temos sempre aquele desafio de atuação bem chato, aquele desafio de improviso bem caótico, aqueles roteiros bem ruins… Isso é parte do DNA da corrida e a versão UK também não escapa. Temos algumas meninas desinteressantes… Ou melhor, temos? Porque até agora, gostando ou não delas, Kandy, Tina, Gottmik, Rosé, estão entregando shade, conflito, tensão…. Isso sem falar em looks incríveis que já vieram por causa de Symone, Olívia, Utica, Denali… e por aí vai. Será que precisamos mesmo de uma polarização onde só quem sai perdendo somos nós? Sim, porque eu prefiro mil vezes saber que ainda tenho Drag Race por mais seis ou sete semanas, do que que ela estivesse – como na oitava temporada – acabando semana que vem. Mas, ok… Eu disse o que eu disse e vamos em frente.
Minha vida extremamente ocupada (por conta do Globo de Ouro e outras coisinhas mais) me impediu de escrever sobre os dois episódios passados, mas podemos fazer isso rapidinho, lembrando os pontos principais. É interessante notar, inclusive, que a edição tem se colocado de maneira quase temática semana a semana, focando em uma participante e no arco que ela terá nos acontecimentos daquele episódio. Isso apareceu com mais força depois que a rivalidade entre Kandy e Tamisha foi interrompida pelo processo de eliminação. Sem um arco central onde se concentrar, a edição foi escolhendo histórias semanais, quase como se a temporada tivesse adotado um tom procedural.

O tal do Bossy Rossy Ruboot é uma daquelas abominações sobre as quais já falei aqui. Quando aconteceu na temporada 10 eu detestei e aqui continuei detestando. Foi um pouco melhor, considerando o ótimo trabalho de Olívia, mas nada me fará gostar daquele caos e daquela superficialidade. Testar o improviso delas é muito importante, já que essa é uma das coisas com as quais uma drag queen precisa trabalhar constantemente; mas aquelas bases por onde elas precisam seguir são sempre horríveis. Eu assisto torcendo para acabar logo, mas fico de olho para ver se a edição vai ser justa com a que se sair melhor do engodo.
Contudo, não foi Olívia a menina escolhida para ser a costura do episódio. Esse papel coube à Elliott, que revelou mais algumas camadas. Cheguei a pensar que seria sua vez de ir embora, mas fiquei contente com a eliminação de LaLaRi (que eu já queria naquela semana das bolsinhas coladas no corpo). Elliott tem realmente uma vibe soturna e para minha surpresa total, foi com Tina que ela encontrou uma interlocução genuína. Foi muito importante para Tina ter esse momento, reconhecer que julgou rápido demais, porque, até agora, ela parecia mais uma minion de Kandy, naquela repetição bizarra dos códigos do Rolaskatox. O Kaninamik… ou Mikandyna.

Do outro lado, estava a narrativa que Denali e Rosé vem construindo. Rosé até mais que Denali, já que esteve entre as melhores mais vezes. Quando não venceu com seu “look favorito”, Denali engatou a marcha Milk e só faltou chorar porque só estava salva. Mas, lá estava o Rusical, sua grande chance… E a grande chance de Rosé também. Eu AMO os Rusicais. Até o da Madonnna, o primeiro – da sexta temporada – era meu favorito. Já tivemos alguns péssimos (como o do Donald Trump e dos remédios), mas geralmente me divirto mesmo assim. O tema das redes sociais é tão esdrúxulo quanto e gostaria de verdade que as divas pop ou os ícones musicais dessa e de outras eras, fossem o foco dos próximos.
Contudo, esse episódio já começou delicioso, com Rosé e Denali fazendo uma audição ali mesmo, no ateliê, para que as amigas votassem na melhor. Denali foi bem, mas Rosé é a Rachel Berry desse grupo e não tinha para ninguém. E quando achei que não podia melhorar, me vem Anne Hathaway – por quem eu sinto uma profunda simpatia – fazer um zoom com as meninas para dar dicas. Anne é uma das celebridades mais engajadas na Drag Race e o encontro dela com RuPaul no programa de Stephen Colbert é uma delícia de assistir. Vou até deixar aqui embaixo para quem quiser ver:
E não vou poupar elogios, não. Anne estava linda e disse TODAS as coisas certas. Os conselhos foram todos úteis, as palavras de incentivo foram absolutamente perfeitas e o resultado disso nós vimos com nossos próprios olhos. Denali foi profundamente inspirada pelo que Anne disse, não só sobre ter sido a NONA opção para O Diabo Veste Prada (DEUS!!!!), como sobre sempre ser necessário trabalhar bem com o que você tem. Aquelas palavras foram tão certeiras que por um momento achei que esse seria um episódio de redenção para Denali e que ela venceria. Mas, Rosé, definitivamente, fez um trabalho incrível.
Na passarela, jamais entenderei como as roupas de Tina continuam sendo elogiadas, mas justamente na semana em que ela usa algo minimamente interessante, cai no bottom. E quando aquele bottom foi se desenhando, com Kandy e Symone também entre as piores, eu comecei a esperar pela dublagem do século. Qualquer uma das três ia sangrar no palco. E foi o que aconteceu, o que nos leva a um assunto delicado: por mais que Kandy tenha ido bem na dublagem, foi justo mantê-la depois de tantas semanas entre as piores?

É uma questão complexa. RuPaul sempre diz que o histórico não importa, o que importa é a dublagem. Ao mesmo tempo, quando uma tri-reincidente chega na dublagem e sua opositora vai bem, a repetente acaba indo embora. Kandy foi para as piores muitas vezes e dublou muitas vezes. Symone foi tão bem quanto ela, então, pela lógica, Kandy merecia ir embora. Contudo, ela não só foi bem na dublagem como também acorda em RuPaul aquele mecanismo de defesa que a faz esperar sempre mais de personalidades conturbadas. Silk foi outro exemplo. Naquela dublagem “meh” que eliminou Nina, ela é quem deveria ter saído.
Porém, ao menos a forma como aconteceu foi outra das surpresas desse ano. Ru nunca tinha dado um Sashay Away e voltado atrás enquanto a eliminada caminhava para o fundo. Foi proposital, claro, mas fico imaginando agora todas as eliminadas esperando um “wait” até o último passo para fora do palco. O momento foi ótimo, deixou o episódio ainda mais divertido e manteve uma lógica de double shantay e double sashay que eu acho MUITO importante para a integridade do show. Se duas vão bem, duas ficam. Se duas vão mal, duas saem. E RuPaul que se vire depois para reorganizar as coisas.
Considerando isso, o papel de Kandy Muse na história da corrida já é definitivo, saindo nas próximas semanas ou não. É deveras preocupante a maneira como ela vem sendo perdoada por tantos equívocos, assim como Tina nunca é criticada por aquelas roupas horríveis. Tem algo diferente esse ano no painel… Não em Ru, que sempre ficou no caminho do neutro, mas Ross, Carson e principalmente Michelle, têm deixado passar coisas que em anos anteriores JAMAIS passariam sem um bom e saudável esporrinho. O Snatch Game reforçou isso, porque Kandy não foi NADA além de Kandy com um turbante, Tina conseguiu se superar no quesito feiúra e eu só consigo pensar que elas são muito sortudas de sempre terem alguém que – aos olhos dos jurados – vai pior.

Ok, Snatch Game, vamos lá…
Symone: As escolhas de Symone foram todas certas. Ela estava engraçada no Snatch e seu look de passarela era belo e político em termos precisos. Ela foi ousada na escolha de Harriet, mas conseguiu ser boa o suficiente para fugir do radar do bottom e ainda receber elogios. Todo o episódio mostrou que ela planejou seu trabalho episódio a episódio, fazendo com que os looks se relacionassem com os desafios. Smart girl.
Gottmik: Estou obcecado com aquela Paris Hilton. Era perfeito em tantos níveis. O look era on point, a voz, o olhar, as taglines… Gottmik não entrou para brincar e acho que sua vitória não só seria histórica como extremamente merecida. Seus looks são ousados, intensos, surpreendentes. Ela atua bem, dança, improvisa, faz tudo certo e com boas doses de charme. Torço muito.
Rosé: Não ri de absolutamente nada que ela disse, mas como ela é uma das minhas preferidas, estou aliviado que para todo mundo lá a coisa deu certo.
Tina: A peruca não era certa, nada que fez foi engraçado e as piadas eram repetitivas. Além disso, aquele look de passarela era… meu Deus. Tinha um cavalo na cabeça, um marrom-cocô hediondo, aquelas rosas… Senhor. Pelo menos não era amarelo e laranja.
Kandy: Como já disse, Kandy não atuou nada. Ela foi Kandy, falou enrolado, gritou uns palavrões e pronto.
Olivia: Que decepção… Não só a personagem era desinteressante, como ela não acertou uma piada e depois ainda ficou elucubrando com Utica quem tinha ido melhor. O que a salvou foi o look da passarela. Floopianas.
Denali: Amo Jonathan e adorei a performance. Denali teve pouco espaço na edição (que sempre privilegia quem foi pro top e quem foi pro bottom), mas tudo estava certinho.
Elliott: Foi doloroso de assistir. Elliott claramente precisou de um amigo pra dizer “você não sabe fazer isso”. Nada estava no lugar e como ela tem sempre aquele olhar assustado, a tentativa de colocar tudo numa vibe sexual deixou tudo ainda mais desconfortável. Foi penoso. Penoso.
Utica: NINGUÉM foi tão mal quando Utica; e vou dizer porquê: porque diferente de Elliott, Utica estava arrotando superioridade no ateliê, se achando o máximo, quase desprezando as escolhas das outras por não serem tão inteligentes quanto a dela. Para Elliott a gente consegue pelo menos encontrar uma razão para ter compaixão. Utica fez tudo errado e ainda voltou para o ateliê achando que tava tudo bem. INSANE.
Apesar da performance de Symone ter um espaço no meu coração, a vitória de Gottmik foi justíssima; e reforçou uma recorrência no Snatch Game: nem sempre as meninas da comédia estão com tudo sob controle.
Por conta do desastre e do nível de delusional de Utica, eu teria mandado ela pra casa, sobretudo porque não acho que havia muita diferença no nível da dublagem. Mesmo assim, Elliott já estava desgastada e precisava sair. E também entrou pra história: 3 vezes eliminada, em uma temporada.
Semana que vem, por conta da pandemia, o episódio do makeover será feito entre as próprias meninas e embora seja triste não termos aquele frescor das novas presenças no workroom, pode ser interessante ver como ficarão as relações depois desse desafio.
No sempre hilário Pit Stop com Trixie Mattel (que eu amo como apresentadora), o fato da oitava temporada ter chegado ao Top 4 no episódio 8 foi trazido à tona. Como boa parte do fandom, as ex-participantes também tem reclamado do longo número de episódios. Eu prefiro reforçar o que disse no início desse texto: meu coração está feliz demais por saber que ainda tenho um mês de Drag Race pela frente. 16 semanas de alívio pra minha mente são até pouco comparados aos mais de 12 meses de uma cruel realidade.















