RuPaul’s Drag Race começa a mostrar que a conquista dos episódios de 60 minutos reverbera positivamente na edição.

Ano passado eu reclamei bastante de como a nona temporada da corrida foi prejudicada pela edição corrida, apertada em 43 minutos que não davam conta do tanto que as competidoras tinham para mostrar. A coisa foi tão assustadora que tivemos um número medíocre de mini-challenges e um monte de cortes bruscos em desfiles e julgamentos. Depois de tanto sucesso e relevância, não fazia mais sentido que a VH1 não cedesse mais tempo ao show, que provavelmente é um dos carros-chefe do canal.

Esse ano o problema foi corrigido. Com 4 episódios no ar, a décima temporada já dedica bastante tempo para explorar as meninas corretamente. São muitas; e muitas vezes a edição tem problemas para organizar uma narrativa, mas em The Last Ball On Earth o apogeu dessa folga temporal se deu categoricamente: o desafio dos três looks – que geralmente só acontece perto do fim – conseguiu ser realizado nesse começo, dando condições ao público de ter uma visão ampla do nível de talento visual que cada uma tem.

Quando acontecia perto do fim, esse desafio costumava ser o teste final das participantes que ainda permaneciam na competição. Agora, com tempo para colocar aquele número de corredoras por três vezes na passarela, o desafio serve como peneira derradeira daquilo que já falamos na review anterior: das retardatárias. O que está acontecendo nessa temporada é bastante emblemático: quem não tem um trabalho de excelência para mostrar está indo embora e permanecerão as rainhas que farão dessa competição uma luta de titãs.

A edição parece ter encontrado uma narrativa para conduzir o público, mas ela não necessariamente é interessante no contexto artístico. Já se pode dizer que os julgamentos acerca de Eureka e Vixen não são coincidência. Curiosamente, o que as une também é o que as separa: uma vida de rejeições que moldaram duas personalidades que lutam contra a insegurança com egocentrismo e agressividade. Essa será uma temporada com gente talentosa, mas está claro que também será uma temporada emocionalmente turbulenta.

Eureka, aliás, anda confirmando as coisas que Trinity Taylor – lá na Season 9 – disse dela. Eureka não para de falar por cima das outras e anda arriscando seu jogo social ao não ouvir nada que não diga respeito a ela mesma. Provocativa, ela já começou a semana semeando problemas entre Monique e as outras. Esse trabalho de calcular conflitos é árduo e necessário, mas você tem que estar disposto a suportar o peso do que ele provoca. A partir do momento em que você decide fazê-lo, tem que estar pronta para deixar de ser gostada.

O desafio principal do episódio ajudou a acender ânimos justamente porque era extremamente trabalhoso. Três looks, com três temas diferentes e mais uma vez, apoiado em bases criativas bastante estranhas. Contudo, a proposta aqui é bem clara: colocar esse monte de gente pra trabalhar e mostrar que sabe o que está fazendo ali. Essa é a temporada 10, não há mais desculpa para entrar na competição sem estar completamente preparada para isso.

O mais impactante de todo o processo de criação delas no ateliê foi ver como Asia negligenciou o próprio trabalho para ajudar as outras. Ela foi defendida pelas colegas na passarela, mas esse papo de “fui mal porque ajudei as outras” sempre soa como uma desculpa para justificar as próprias péssimas escolhas. Esse não parece ser o caso de Asia, que tem uma carreira consolidada. Contudo, deixar para lidar com a questão na passarela, na frente dos jurados, não foi a melhor decisão.

Ru apareceu no palco com a roupa mais ousada que já usou em toda a história da Drag Race. Tudo bem que do pescoço para baixo era a mesma silhueta, mas a tentativa de se ajustar ao tema do desafio foi bastante louvável. Outra novidade foi a porta dupla se abrindo nas entradas de cada menina. O efeito dramático é ótimo e deviam explorar a possibilidade em outras ocasiões.

No que diz respeito ao que vimos na passarela, nada me soou muito impactante. Não entendi a salvação de Blair (que continua desfilando de um jeito bem esquisito) e embora Aquaria seja sempre visualmente interessante, eu não me arrisco a achar tudo aquilo tão inovador. Curiosamente, Cracker, sua grande rival, também estava no Top, com os mesmos looks que não me soaram tão fortes como os jurados fizeram parecer que eles eram. Mesmo assim, foi uma passarela muito boa e que ajudou a aumentar a credibilidade da competição.

NOTA DO UNTUCKED: Então chegamos ao barraco entre Vixen e Eureka no Untucked. Assisti mais de uma vez e não consegui desvendar muito bem porque as duas começaram aquilo. Só sei que Vixen tem o direito de encher o saco quando dizem que ela é negativa, mas ao mesmo tempo ela parte pro grito muito rápido e isso dá um pouco de medo. Eureka é um poço de egocentrismo e ficou chateada porque – de novo – não teve “seu momento”. Trinity já tinha avisado disso na nona temporada e Eureka não parece ter feito muitas auto-avaliações. A discussão foi estranha, os motivos estavam todos meio borrados e depois que Vixen começou a gritar não tinha mesmo como entender nada. Tanto uma quanto a outra tem raízes de insegurança provocadas por anos e anos de necessidade de imposição, mas elas precisam estudar esses sentimentos ou serão eles que as colocarão para fora do jogo.

Aquaria e Cracker fizeram seus encorajamentos para cada uma das meninas do bottom (ironicamente) e lá foram Dusty e Monet para a dublagem. Dusty remeteu aos braços sem sentido de Robbie Turner na Season 8, enquanto Monet fez a primeira dublagem poderosa da temporada, com aquele alarme falso de espacate que fez Ru pular da cadeira. Dusty não tinha a menor chance e foi eliminada precocemente. Mas, apesar do ótimo número, Monet precisa polir aqueles looks antes que vire alvo definitivo de Michelle daqui para frente.

Terminada essa grande provação, agora é esperar pelo Snatch Game, que será a peneira definitiva do ano. Precisamos torcer para que mesmo com os conflitos interpessoais inevitáveis, a décima temporada mostre mais talento que gritaria e que possa servir como processo de crescimento para algumas das meninas, que em perspectiva, precisam olhar panoramicamente, esquecendo um pouco o delusional de sempre achar que merece vencer e aprender com o processo que pode sim, falhar. Menos ego e mais trabalho. Essa parece ser a narrativa principal nesse ano do show.

REVISÃO GERAL
Nota:
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