Esse é um texto sobre RockStory, uma novela num site sobre séries e isso sempre gera reações controversas. A arte se promove como livre, mas ela também se compartimenta. Não é incomum encontrar quem defenda o propósito da arte de ser tudo que ela quiser, mas que segmente a mesma por gênero ou público-alvo. Tudo é arte, mas nem tudo é arte. Vivemos num mundo em que as pessoas vão para as redes sociais ditar o que é erudito, o que é artístico, o que é medíocre e o que é correto de se fazer ou criticar. Aqui mesmo, eu e todos os outros reviewers exercemos o papel de juízes do que é correto ou não de se aplicar numa dramaturgia, enquanto ao mesmo tempo, defendemos a liberdade de expressão artística completa. O mundo das sensibilidades é assim, contraditório.
Ontem RockStory terminou depois de uma jornada que eu considero irrepreensível. Em grande parte, esse sentimento veio de uma sensação de que a novela nunca economizou criatividade, nunca travou a própria história e funcionou quase como num sistema de temporadas, em que as tensões eram construídas e preservadas por um tempo calculado, sem que permanecessem arrastadas, como se livrar-se delas fosse condenar a novela ao marasmo. Uma vez encerrado um plot, a novela partia para outro e se esforçava para dar uma ideia cíclica aos seus enredos, fazendo-os crescerem e explodirem na medida das nossas expectativas.
Estou fazendo uma pequena comparação com as séries de TV porque é natural o nosso impulso de querer preservar a novela como ela é. Acredito, inclusive, que esse é um dos principais argumentos por trás de equívocos como A Lei do Amor. A cada novela que estreia tomada de características das produções dos anos 70 e 80, encontramos declarações que festejam a “volta do folhetim”. Há algum tempo atrás, A Regra do Jogo provocou o horário das 21 com uma história central extremamente seriada e no compromisso de permanecer “novela”, inseriu tramas cômicas paralelas que gritavam sua discrepância a cada capítulo.

RockStory era um produto de um horário que ficou conhecido por trazer “leveza” ao gênero. A autora Maria Helena Nascimento fez um trabalho incrível unindo referências seriadas, folhetinescas e também midiáticas. A novela não ignorava aspectos importantes acerca do quanto o mundo contemporâneo influencia nas manifestações de cultura pop e mais ainda, na forma como nos relacionamos com elas. Era incrível ver como a novela tinha o clássico recurso do “filho encontrado depois de anos”, mas também tinha a analogia de mídia sensacional em torno de Léo Régis, que era uma reprodução discursiva do que MC Biel fez com a própria carreira. E o melhor: em nenhum dos casos a autora permaneceu no campo da superficialidade, dando a Léo, por exemplo, uma trajetória de redenção totalmente fora dos caminhos óbvios.
O recurso das gêmeas idênticas também é um dos chavões teledramatúrgicos mais recorrentes. RockStory tinha o seu, mas ele foi para direções que ainda me surpreendem de tão incomuns. Em momento algum da história, Maria Helena Nascimento cedeu ao impulso de fazer com que Julia e Lorena trocassem de lugar uma com a outra. Julia usou o nome da irmã, mas somente enquanto essa ainda não estava dentro dos acontecimentos. Quando Lorena entrou mesmo na história, vivendo dentro da casa de Gui, a novela nem cogitou a possibilidade de forçar qualquer relação entre eles. Cada irmã teve sua própria jornada, a humanidade de Lorena foi sabiamente preservada e como com tudo nessa novela, assim que se esgotou, se encerrou dignamente.
Absolutamente todos os núcleos paralelos tiveram seu planejamento conceitual. Paulo Betti e Suzy Rego viveram um casal tão alienado que o filho escondeu deles que tinha câncer e eles nem notaram. Foi preciso uma série de porradas da vida para que a relação dos dois saísse do campo da fantasia e se fortalecesse. O núcleo de Viviane Araújo (eu sempre acabo torcendo muito por participantes de realities que conseguem furar a bolha do preconceito) cresceu lindamente na trama. Tivemos a boa história envolvendo o passado de Edite e Nelson – tanto no amor quanto na arte – e tivemos a elegante abordagem da homossexualidade de Vanessa, que rendeu uma cena muito especial entre Lorena Comparato e Viviane.

Como nos tempos antigos da Malhação, um enredo podia se desenvolver por várias semanas, até encontrar seu fim e outro ponto de tensão começar a ser construído. Em RockStory, contudo, havia mais fluidez, porque seja com muito ou pouco tempo, cada um desses plots eram anunciados previamente. Ouvimos sobre Manu, Glenda, Mariane, muito antes delas aparecerem. Personagens como Jailson, Paçoca, Ramon e até a dupla de capangas de Alex, tiveram condições de crescer na história para além de suas funções meramente retardatárias. Além disso, a novela foi extremamente eficiente na maneira como abordou seus pares românticos com paciência e equilíbrio. Nicolas Prattes e Marina Moschen não funcionaram tão bem em Malhação – Seu Lugar no Mundo, mas Zac e Yasmin foram construídos tão minuciosamente que não era difícil se pegar torcendo de verdade pela relação dos dois.
No último capítulo, a novela voltou a demonstrar sua maturidade ao resolver os destinos dos seus personagens. A jornada de Gui (vivido por um Vladimir Brichta muito dedicado) foi segura até o fim e mesmo Diana – que sofreu um pouco as consequências de algumas manobras arriscadas do roteiro – foi preservada do fácil caminho da loucura ou da vilania desenfreada. Aline Moraes construiu uma personagem que conseguia ser admirável e odiável alternadamente. Numa novela que começou falando sobre carreiras decadentes, me impressionou que a autora tivesse incutido no derradeiro fim, um equilibrado senso de autocrítica. Bandas de garotos terminam, carreiras às vezes precisam de hiatos, artistas solos nascem depois de experiências conjuntas e foi bom perceber que a novela não se deixou seduzir pela ilusão de sucesso eterno.
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Musicalmente falando, a direção se esforçou e entregou um repertório digno. Ainda não temos um nível de produção musical que convença o público de que cantores e bandas fictícias poderiam realmente fazer sucesso na vida real. Novelas e séries musicais deveriam ser feitas por artistas capazes de agrupar esses talentos. Entretanto, nada disso comprometeu RockStory, que terminou falando com carinho de samba, de pop, de MPB, de sertanejo, de rock e por aí vai… Léo e Gui fizeram sucesso com a mesma música, em ritmos diferentes. O eletrônico uniu-se ao romântico, a casa de Nelson era samba e rock-pop, a carreira de Gui era guitarra e violão. Enfim, RockStory foi uma novela de híbridos, em todos os aspectos, mostrando que é perfeitamente possível ser clássico e moderno sem perder crarisma e inteligência.












