Duas mulheres, dois túmulos e o fim de uma inesquecível jornada de quatro anos de vingança.

Eu adoraria se o que a frase acima sugere tivesse sido a premissa do final de Revenge. Afinal, nosso novelão favorito sempre deixou claro que, se a vingança é um prato que se come frio, é também um prato que gera uma baita indigestão como consequência. E as coisas pareciam caminhar bem nessa direção durante boa parte do eletrizante Two Graves.

A começar, claro, por aquilo que talvez tenha sido o aspecto favorito de todo o episódio final: o resgate dos perucões artificialíssimos! Adoro que tanto Ems como Victoria nos encheram de nostalgia para nos lembrar dos bons tempos os da primeira temporada, em que Ems não passava cinco episódios sem exibir uma peça da sua belíssima coleção de perucas horríveis. O mais legal de tudo foi ver uma peruquinha só esperando a protagonista na casa da mãe de Vicky! É pra qualquer Revenger ir ao delírio! A Rainha, aliás, também reinou nos disfarces e até de peoa de obra ela se vestiu – toda maquiada, lógico, porque ninguém consegue perder o glamour assim, da noite para o dia.

É muito curioso como a derrocada de Victoria Grayson começou como boa parte de sua vida foi regrada: traída por seu gigantesco coração de mãe, que só pensa no bem dos filhos e é incapaz de abandoná-los e deixá-los ao léu. Vicky não suportou mentir para Louise, e foi justamente seu ato de amor que a destruiu, assim como o ato de amor por Daniel havia sido o pontapé inicial de tudo. Poesia pura ver Victoria sendo novamente enganada e traída pela ingratidão de uma filha. O destino da rainha foi, do início ao fim, determinado pelas injustiças que sofreu nas mãos de suas próprias crias, e não poderia ter sido diferente aqui.

Depois da traição de Loulou (cujo final na série foi basicamente “ficou bebendo no balcão do bar e foi feliz para sempre”), Victoria e Emily foram guiadas para o confronto final, mas ainda precisávamos emendar uma ponta solta nessa história toda, que atende pelo nome de Courtney Love.

E é claro que essa ponta solta foi emendada da maneira mais apressada e sem noção possível. Nolan (cujo final, diga-se de passagem, foi basicamente ser infeliz no amor e tornar-se um Revenger profissional, em mais um presente de grego dado pela “amiga”) nocauteou uma assassina profissional com a maior facilidade e salvou o dia, graças à resolução de Margô de corrigir seus próprios erros. E é a partir daqui que precisamos falar sobre Margô.

Ao meu ver, ninguém deu um show maior nessa final do que nossa canadense Karine Vanasse. Presenteada com um lindo texto, a atriz mais do que deu conta do recado que redimiu Margô e fez com que ela decidisse assumir a responsabilidade por seus crimes e se entregar. Vejam bem, Margô em nenhum momento quis tirar a vida de ninguém, não o fez com as próprias mãos e não mandou ninguém fazer isso.

Mesmo assim, ela entendeu que seus atos têm consequências trágicas, ainda que seus motivos tenham sido extremamente nobres – limpar o nome de alguém que ela amava e vingar a morte do seu filho. Margô mostrou uma pureza de caráter absolutamente emocionante, e fez o discurso que deveríamos ter visto ser proferido por nossa protagonista, não por ela. Ao assumir seus erros e dar o exemplo do que é certo e do que define o caráter de cada um, a francesa deu um verdadeiro show e foi mais nobre do que Emily jamais seria capaz de ser.

E é justamente por essa incapacidade de ser nobre que o final do embate Emily versus Victoria foi tão anticlimático. Eu estava prestes a ficar feliz da vida ao ver nossa protagonista atirar em sua rival com as próprias mãos – algo que ela precisava fazer, barreira que ela precisava transcender para se apropriar da vingança que passou tantos anos trabalhando para executar.

Em vez disso, Sunil Nayar, desprovido de qualquer coragem, colocou o moribundo David Clarke para fazer o serviço sujo, morrer para compor os Two Graves do título e, mais uma vez, poupar de forma desnecessária a imagem da protagonista. Ou alguém aí teria condenado Emily à cadeira elétrica porque ela atirou em Victoria com as próprias mãos? A vingança que passamos quatro anos assistindo não pertencia a David. Era a vingança de Emily, e só Emily tinha o direito de dar cabo dela. Nem precisava de muita coragem para fazer esse justíssimo final acontecer, e ainda assim não houve coragem suficiente.

Eu já havia afirmado aqui que trazer Victoria de volta ao mundo dos vivos foi um erro crasso da série, e vi muita gente discordando em razão da necessidade de um embate entre as duas personagens no último episódio.  Essa teoria estaria perfeita, não fosse por um detalhe: nós já sabemos perfeitamente como termina qualquer embate que Emily enfrenta. Nós sabíamos que ela ia sair bem, feliz, intocada e saltitando de mãos dadas com Jack por campos floridos, como foi durante os 89 episódios de toda a série. Por isso, esse embate não tinha razão nenhuma de acontecer, ficou desprovido de significado e suspense, e não é nada mais do que uma grande covardia do roteiro. Mesmo quando Vicky contra-atacou e deu um tiro de despedida nazinimyga, não houve impacto: a imagem de Emily vinha sendo poupada demais episódio após episódio para acreditarmos que não havia plano de final feliz.

Mas precisamos falar sobre um importante porém nessa história toda: a cena do hospital. Há quem diga que a revelação de Charlotte foi apenas um sonho. Pra mim, tudo ficou claríssimo por uma questão de coerência, do legado que Revenge nos deixou nessas temporadas. Ou algum de vocês se esquecem dos achievements que Ems alcançou diversas vezes nesses quatro anos? Mergulhar na água, ver a cara de mamãe Kara, brincar de roleta-russa com uma faca entre os dedos da coleguinha…  as coisas mais bizarras desbloqueavam videozinhos para revelar o passado das nossas personagens. Nada mais justo do que casar-se com Jack – com direito a toda a previsibilidade e breguice possível para fazer inveja a 99% das novelas da Globo, que terminam de forma mais ousada do que isso – também ser considerado um achievement para destravar na mente de Amandinha o que realmente aconteceu naquele hospital.

E o que aconteceu foi muito simples e extremamente revelador: Victoria Grayson jamais estará morta. Sim, porque a vilã agora vive para sempre, abrigada no peito de sua principal rival. Victoria e Emily não teriam razão para viver sem a existência uma da outra – e, no caso de Ems, essa afirmação é a mais literal possível. E, se uma é o espelho da outra, nada mais justo e metafórico do que esse final, com ambas residindo no mesmo corpo, com Ems herdando o coração daquela em quem sempre se espelhou e se espelhará. Um coração que, poeticamente, é 100% compatível com o corpo da protagonista, evidenciando o que sempre dissemos aqui, pois isso não seria possível se ambas não fossem idênticas.

Para satisfazer ao grupo de fãs que sonhava com o happy ending, Revenge se acovardou até nisso ao tentar abrir a remota possibilidade de afirmarmos ilusoriamente que toda a história do coração foi só um sonho. Porque não basta um roteiro covarde, tem que ser covarde até o último fio de cabelo. Entretanto, a verdade é que esse final jamais teria sido incluído se não fosse a realidade.

Justamente pelo pecado da covardia, Revenge perdeu a oportunidade de nos deixar de maneira memorável, como muitas outras séries costumam ousar fazer. Houve zero criatividade, e a sensação de correria e falta de planejamento deu o tom de todo o último bloco do episódio final, brega até o pescoço e com zero impacto. Se, no futuro, alguém me pedir uma recomendação da série, direi para vê-la com toda a certeza, desde que a pessoa se prepare para um final totalmente sem graça. Se não for o caso, e o final for algo mais valorizado por quem assiste, prefiro recomendar Lost ou How I Met Your Mother, séries que polarizaram o público em seu término, mas que, por optarem pelo caminho difícil, transformaram seu último episódio em uma experiência inesquecível, e não em algo sobre o qual ninguém estará conversando daqui a 5 anos.

Revenge prometeu – e na quase totalidade da sua duração cumpriu muito bem! – muita ousadia, diversão e piruetagem, com uma bomba sem sentido atrás da outra pelo simples prazer de nos entregar padmadas maravilhosas. Two Graves saiu completamente de todo o tom da série, revelando um final conservador e extremamente covarde. A lição de moral até foi interessante: a vingança e a vilania compensam se você for um bom fingidor. Mas o fato de essa lição não ter ficado explícita em nenhum momento revela que, no fim das contas, ela só aconteceu por medo de desagradar a uma maioria massiva de espectadores, não por um real planejamento ou intenção de nos passar essa ideia.

Mas no fundo ninguém pode reclamar. Afinal, para uma série que sempre deixou claro que não se tratava de uma história sobre perdão, nada mais justo do que um final imperdoável.

Nota final do reviewer

Muitos dizem que Revenge durou mais do que deveria. Eu discordo. Amo demais essa série para não reconhecer que, ainda que feito às pressas, seu final veio no tempo certo. A todos os leitores, gostaria de expressar os meus mais sinceros agradecimentos pela escolha de acompanhar comigo esta jornada de quatro anos e por prestigiar e me ajudar sempre a moldar o meu trabalho para entregar o melhor resultado possível para estendermos nossa diversão com um dos novelões mais sem noção dos últimos tempos. Sem dúvida, foi uma cobertura extremamente marcante pra mim, e uma realização enorme ter feito parte deste projeto aqui no Série Maníacos do início ao fim, ter apostado nessa série mesmo depois de ela ter sido tão desacreditada, amando cada segundo da nossa caminhada.

Ao Team Vicky, agradeço pelo apoio e pela vocalização de um ponto de vista minoritário que é muito criticado e reprimido, e que acabou encontrando aqui no blog um local bacana de debates para fugir da mesmice que domina a internet afora. Ao Team Ems, agradeço pelo espírito esportivo e por acompanharem este espaço com a maturidade e a paciência para compreender uma perspectiva completamente diferente e me ajudar a me divertir com ela. Ao Team “Whatever, eu quero é barraco”, parabéns por serem os mais sábios dessa história toda e espero que vocês tenham se divertido tanto quanto eu neste espaço! Um grande abraço a todos, e nos esbarramos pela vida afora!

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.