Em Ray Donovan a tragédia é o destino certo.

Talvez seja mesmo uma questão de levar seus personagens ladeira a baixo. Talvez seja mesmo a ideia de colocá-los exatamente no lugar em que foram predestinados. Mas falar de destino em Ray Donovan é engraçado já que parece que todos na série foram marcados pela irremediável e diabólica tragédia. Existe alguém que até hoje permaneceu imaculado? É pelo toque de Midas pelas vias contrárias que se espalha esse vírus mortal. Mas não é de zumbis que falamos aqui, afinal, quem é morto em Ray Donovan é morto mesmo. A única coisa que sobra é o corpo jogado e o sangue que jorra para todos os lados. Resta justamente tentar escapar desse final inadiável. Trata-se no fim do velho e bom: fugir da reta.

Bridget nesse episódio soube muito bem o que isso significa. Já que sentiu a morte de perto e cheirou o bafo violento da ganância. Escapou daquele carro, mas não ilesa (claro que não, ninguém fica ileso nessa série). Marvin morre, mas sua nova história apenas começa. Nunca os nossos olhos estiveram tão voltados para ela. Vítima e testemunha. Namorada e mentirosa. O episódio quer deixar isso bem claro, sendo construído todo na base do anticlímax, das expectativas desfeitas, das decepções geradas. Por isso que Ray Donovan é boa, porque ela funciona num ritmo que é construído de outra maneira. O nó que desata é feito justamente de forma dosada. É pela dosagem que Ray Donovan constrói sua atmosfera para então descarregá-la – ou a conter – em um simples abraço. Não há música no fundo. A dramatização excessiva não cabe aqui. É pela crueza que se chega no âmago da questão.

Bem, e parece mesmo que a maior parte do episódio foi feito para ter essas duas cenas essenciais: A primeira, o abraço de Cookie e Bridget. A confirmação da cegueira do assassino em não ver a namorada no carro. A percepção deflagradora da menina do perigo que ela escapou por um triz (por hora??). O tom das condolências pode não ter sido aquele que sentenciou Marvin, mas a voz desalmada é a mesma. Mas no final, Bridget escolheu o silêncio.

A segunda sequência chave foi aquele desbocamento lógico de uma situação que não iria ser adiada por muito tempo. Ray – mais uma vez restabelecendo o controle que tinha perdido, tentando reconstruir a figura protetora que o define – entra em casa. Os planos já são bem categóricos, pois em um segundo já constroem a tensão necessária. Saí um “Hey, daddy” que vai parar não sei onde porque a cara que o recebe não é das mais receptivas. Ray encontra a filha, a esposa e o amante dela. O enquadramento da cena trata logo de colocar nosso protagonista no centro. No lugar que lhe é de direito –  e mesmo se não fosse, agora é. Pouquíssimas palavras são trocadas. Jim fica acuado pois a autoridade de Ray exala um perigo volátil. A ponto de explodir.

É aí que se cristaliza o casamento de Ray e Abby. Já tivemos Walter e Skyler, Don e Betty, Tony e Carmela, Sean e Julia McNamara. Mas a relação de Abby e Ray consegue ter essa dinâmica intrincada, uma violência que faz parte das entrelinhas do relacionamento. Relação atravessada pelo sentimento de posse, prazer e um desejo bem perto da morte. Ambos no fundo – e é engraçado eu falar isso justo no episódio em que tentam amparar a filha –  são mesquinhos e egoístas. A relação dos dois está longe de ser saudável, mas há algo os une num laço inseparável. Nas vias do rompimento, a série junta de maneira doentia. Se há alguma chance ali, ela só é possível pelo sofrimento. Bem suja, bem doente. Bem Ray Donovan mesmo.

À contagem: mais dois corpo na pilha. O contador sobe duas vezes e revela mais um número. O que nos faz pensar: o que importa em Ray Donovan, as consequências que levaram a morte ou os acontecimentos trágicos que irão ocorrer a partir dela? Bridget já estava condenada. Não vejo caminho diferente para o Jim. Kate provavelmente volta para seu fim definitivo nessa história. Mick se abre para o erro. E Ray? O que será de Ray? Desolado. Sozinho. Desamparado. Nunca se considerando vítima. Mas constantemente sem palavras. Aí alguém comenta: mas não é assim que ele sempre foi?

PS.: Falava de sofrimento e quase me esqueci de colocar em destaque a história de Bunchy. No vislumbre de uma nova família, é aterrorizado pelos fantasmas dos abusos passados ( e é de maneira triste que percebemos que Ray Donovan não opera pela redenção, pela superação, essa porta inalcançável ). O temor de Bunchy vem. Sem piedade. Sem cautela. E o estilhaça pela simples possibilidade não verbalizada – é terrível demais para ser falada.

PS.2: Baixinho segue sendo dos meus personagens preferidos nessa temporada.

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