Quando a série recorre a um deus ex-machina já em seu terceiro episódio.

Nos últimos dois episódios, Ravenswood começou a nos apresentar o seu universo peculiar. Depois de uma premiere confusa e corrida, devido à ânsia de apresentar um pouco de tudo em 40 minutos, no segundo episódio, os roteiristas optaram por pisar no freio da ação e desenvolver algumas peças da mitologia da série, através da morte de Miranda, de sua aparição como fantasma e da mansão obscura de Raymond Collins. Além disso, foi estabelecida a dinâmica entre os personagens: Caleb reconhece uma conexão com a recém-falecida, o romance proibido de Remy e Luke, este e Olivia lidando com a morte do pai e Remy e o misterioso retorno de sua mãe.

Esse terceiro episódio foi responsável por agregar novos elementos, ligar os núcleos e dar continuidade a tramas já apresentadas. Dentro desse cenário, a série conseguiu crescer e amenizar seus erros mais graves, que giravam em torno do tratamento do sobrenatural. Believe começou com o enterro de Miranda, cujo elemento mais importante foi a aparição de Abigail, a nova adição ao mistério de Ravenswood. Mas, antes de chegar a ela, não se pode ignorar aquele cerimonial pós-sepultamento com o discurso vazio e clichê de Caleb sobre Miranda. O maior problema dessa cena, no entanto, é o fato de que os roteiristas estão querendo forçar goela abaixo uma conexão forte entre o garoto e a fantasminha camarada. Para minha sorte,  a cena do discurso vergonha-alheia foi salva pela cara de tédio e de quem estava viajando milhões de anos-luz galáxia adentro de Luke (vide imagem que ilustra a review).

Aliás, já que citei o filho do falecido, devo aqui apontar que ele foi o destaque absoluto do episódio. Brett Dier encarnou Luke como uma verdadeira metralhadora de caras e bocas de tédio, medo, surpresa e cada uma foi mais engraçada que a outra, deixando claro que, ao contrário de seus colegas de elenco, ele não estava levando a sério seu personagem. E, se em outro contexto eu consideraria isso inadequado, em Ravenswood isso foi mais que louvável. A canalhice do ator em aplicar uma escapatória cômica meio a tantas cenas de tentativas de tensão, terror e drama foi genial.

Voltando à trama central, passamos mais de trinta minutos do episódio repetindo informações (Remy explicando novamente sobre a maldição, ressaltando o fato de os cinco não terem morrido, observando sua mãe sendo estranha e Miranda sem poder sair dos terrenos da mansão de seu tio) e descobrindo uma nova peça do quebra-cabeça da série: Abigail. Ela foi a namorada do falecido no colégio e estava tentando contatá-lo para avisá-lo que ele estava em perigo por ele suspeitar de coisas misteriosas na cidade. Mas eles se esqueceram de informar uma coisa: ela foi um verdadeiro deus ex-machina para o roteiro.

Abigail foi a saída encontrada para ligar as tramas e os núcleos da série e revelar rapidamente informações necessárias para o andamento da trama. Na cena final, com o tabuleiro-do-cão (clichê dos velhos, hein), a falecida revelou que a maldição existe, que a cidade está, de fato, emergida em um contexto sobrenatural, que o falecido foi morto pela maldição e que os garotos estão sendo perseguidos pela mesma entidade-do-cão que o matou.

A cena final, além de ter liberado novas (e confirmado velhas) informações, foi exemplo de uma melhora da série no tratamento das questões do além. A cena do banheiro, quando Olivia está chorando, e a longa sequencia final com o tabuleiro-do-cão e Miranda no corredor demonstram que a série está aprendendo a criar um clima de terror mais efetivo. Os planos abertos dominados pela escuridão, com somente a figura frágil de Miranda no canto ou no centro da tela foram lindos de se ver. Mas, como Ravenswood ainda está em processo de aprendizado, a cena final se alongou demais, tornando-se cansativa e revelando um ápice cômico completamente errado frente ao resultado pretendido.

Ravenswood continua dominada por clichês e preguiça, mas tenho que admitir que, além de me divertir rindo dos erros e das tosquices, a série está crescendo (vagarosamente) em alguns aspectos.

P.S.: Quem é você, Hanna?

P.S.: E o cara aleatório que apareceu pra comer de graça no cerimonial e na casa do Caleb, hein?

P.S.: Parece que o pessoal vai ser perseguido a la Premonição mesmo.

P.S.: CADÊ SAMARA??!!

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