Se você quer a verdade, esteja preparado para a mentira.

Para quem não é só viciado em série, mas em viver também, ou viciado em descobrir o significado por trás das coisas, um conceito abstrato já se tornou fato: a verdade é utópica. É impossível que exista só a verdade porque ela depende diretamente da mentira. É até difícil definir a verdade sem conceituar a mentira. Mentira às vezes é bom, sabe? Mentira é a mãe da ficção, e somos todos apaixonados por ficção, não? Apaixonados de verdade. A verdade é a mãe da confiança e tem diversos netos. A mentira, entretanto, cria filhos até hoje. Acreditamos que a confiança é a base para todo e qualquer relacionamento: é preciso confiar no segundo para que nós, como primeiros, estejamos confortáveis o bastante para deixar que a relação flua entre os dois. Não só no amor, não só na amizade. É preciso ter confiança para atravessar a rua nessas cidades construídas com mentiras. Mas, desconstruindo essa ideia tão firmada (permitam-me), não seria a confiança apenas um mimo que nos damos, mais um ser abstrato em que depositamos fé? Buscamos a verdade todos os dias, porque (quem mesmo nos ensinou isso?) a mentira é inaceitável, mas não somos todos tão dependentes da mentira? Não, que absurdo, odeio mentira! A mentira também pode ser aquele “bem, obrigado, e você?”. Mentira está no não dito, receio. Para os amantes do tema, para os defensores da verdade ou para os mentirosos confessos, Quantico está colecionando mocinhos e vilões — ou uma mocinha e diversos vilões —, completos mentirosos patológicos, para nos entreter. Aqueles que deram um voto de confiança à série perceberam que às vezes vale à pena confiar.

O jogo de verdades e mentiras em Quantico começa a ser formado e as peças assumem seus lugares. Ainda protagonista, ainda perdida, Alex continua sendo nossos olhos no tabuleiro, mas, aos poucos, juntando uma peça aqui e outra ali, percebemos que ficarmos muito presos às observações da personagem não nos fará enxergar os acontecimentos como eles devem ser vistos. Percebemos que há algo maior que ela, uma teia se formando ao seu redor, e ela é somente outra vítima. Alex, entretanto, não é a vítima que se conforma, percebendo-se tão presa à teia, percebendo-se tão vítima de um plano tão meticulosamente construído para lhe incriminar. Aqui já encontramos o primeiro item da lista de redenção que Quantico já tratou de riscar nesse episódio: a protagonista. Como comentei no texto anterior, não me pareceu muito interessante que a série decidisse criar uma protagonista feminina vítima, frágil e refém das situações. Não há verdade nisso, muito pelo contrário, há apenas a continuação da mentira que vem sendo construída no cinema e na televisão no que diz respeito ao comportamento feminino, sua personalidade. Não posso falar por todos, mas simpatizo bem mais com personagens fortes. Não houve uma discrepância entre quem Alex era no passado e quem é no presente, o que possibilita à atriz maior conforto para deixar sua personagem crível e sua performance elogiável.

O maior potencial de Quantico está em suas personagens, o que observo desde o Piloto. A série tem investido muito em suas mentiras, em suas histórias, e nós ganhamos muito com isso — esperança, por enquanto. A mentira é a mãe da esperança, então talvez não devêssemos ficar tão contentes. Por enquanto, entretanto, parece promissor o caminho traçado para cada personagem. Nesse caminhar lento, revelando aos poucos cada pedaço de história pertencente a seu mentiroso particular, a sensação é de que tudo foi bem planejado e chegaremos a algum lugar. Confesso que eu esperava algo mais interessante para as gêmeas, não somente um experimento liderado pelo FBI, mas não vou ser precipitado em condenar a trama. De verdade! Uma coisa que me incomoda é que todos esses agentes em treinamento deveriam ser mestres em esconder seus próprios segredos, mas, por algum motivo, quase se entregam de bandeja. Não é muito coerente, mas dá para perdoar — por enquanto. É interessante perceber que quanto mais se relacionam entre si, mais distantes estão um dos outros, isolados em suas próprias verdades.

Falando em personagens, temos a chegada de mais alguns, e acredito que isso acontecerá durante toda a temporada. Nathalie aparece de forma não crível para fechar a terceira ponta de um triângulo amoroso que a série, honestamente, não precisava. Espero que ela acrescente mais à trama do que o óbvio. Também não precisamos dessa história de duas mulheres brigando por um homem para inflamar o ego do público masculino, precisamos? Que a rivalidade seja criada em cima de fatos mais relevantes, se ela de fato tem motivo de existir. Elias (o analista loiro e stalker) foi colocado no encalço de Simon e seus óculos falsos, mas, por algum motivo, fiquei com a impressão de que ele não permanecerá por muito tempo na série, e você? Gosto desses personagens que aparecem para gerar incômodo, desde que sejam construídos de maneira certa. Não dá para usar um ator/personagem como mera ferramenta de uma trama. É preciso ir atrás da verdade da personagem.

“America” abordou muitos assuntos e teve uma edição ágil, mas, dessa vez, tudo funcionou: tanto as tarefas para os recrutas quanto os passos de Alex pela cidade foram interessantes de assistir. O roteiro cumpriu bem sua tarefa de criar uma atmosfera de mistério que não soasse sem sentido — ignoremos os deslizes.

Após esse domingo, Quantico deu mais um passo em sua jornada ambiciosa na tevê. Dessa vez, entretanto, a série não só consegue alcançar o objetivo proposto para si, como almeja novas metas. Não só uma história de investigação e intrigas, como um debate sobre segredos, confiança e verdades.  Não só uma série de ação com luta entre duas mulheres, como uma série intrigante e bem elaborada. Não só sobre atentados terroristas e o medo do externo, como também o medo daquilo que está ao lado. Quantico se propõe, ainda, desenvolver diversas tramas, cuidar de diversos núcleos (e dialogar entre eles), formar casais interessantes e entregar subtramas criativas. Após esse segundo episódio, é possível afirmar que a série conseguiu acertar todos esses alvos — ou quase.

A produção faz valer um voto de confiança. Investe de verdade em si — e investir de verdade aqui significa investir em suas mentiras (viva o amor ao paradoxo); esforça-se em seu roteiro, esforça-se em suas características técnicas e se esforça para cativar de nós essa torcida para que haja um compromisso verdadeiro com o futuro da série. A confiança às vezes é um investimento no vazio. Quantico, faz favor de não provar a veracidade dessa sentença.

ps: cês já estão elaborando teorias mirabolantes?

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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.