A diversidade venceu… Mas, só ela.

O mundo da moda é um dos mais rígidos da indústria pop. Ainda que muitos looks de passarela possam ser vistos em atrizes e cantoras que não tem o biotipo de uma modelo, as criações de um desfile sempre priorizam um caimento quase impossível, segregando qualquer possibilidade de diversidade. Há uma insistência para mudar isso aparecendo em alguns setores, mas é tudo muito tímido ainda, se comparado ao restante dessa engrenagem.

E é complicado mudar por uma razão muito simples: quando um estilista coloca uma coleção na passarela, ele não está vendendo só a roupa, está vendendo um status. Ter o look e vestir o look, SER o look. É até uma contradição, já que ao mesmo tempo em que a mídia festeja com certa condescendência uma modelo plus size que desfila, também exige em publicações e estudos, que o ser humano busque cada vez mais ficar longe de qualquer “desequilíbrio” de peso. Ashley faz roupa para mulheres mais gordinhas, mas o mundo esmaga esse tipo de mulher (e homem) com mensagens sobre como ser gordinho é feio, errado e nada saudável. Então, pessoas com esse biotipo passam o resto da vida achando que só serão felizes quando ficarem magras. Onde está a coerência nisso?

Eu sou um grande entusiasta da beleza dos gordinhos. Magros nunca me atraíram e estou sempre aqui, ansioso para que os gordinhos e gordinhas desse mundo entendam como eles podem ser belos. E eu não sou gordo, nunca fui, não vejo isso pela perspectiva da experiência palpável. Só os acho belos, extremamente belos e gostaria que não houvesse uma massividade tão cruel de mensagens midiáticas sobre como ser gordo é inadmissível e deprimente. Sabemos que a cultura fez isso durante séculos, mas ainda há chances de mudar.

Por isso tudo, esse final de temporada de Project Runway foi extremamente importante. Tínhamos entre os finalistas uma participante plus size que faria uma coleção toda com modelos plus size para mulheres plus size. Era um momento realmente emblemático e importante. O problema é que Ashley não pode ser só uma bandeira, ela tem que mostrar a que veio, tem que sustentar essa mensagem com talento. E por mais que ela tenha talento, no meu ponto de vista, ao colocar uma outra coleção em perspectiva, Ashley realmente não ganha.

Mas, vamos por partes… Como era de se esperar, Tim salvou Edmond e lá fomos nós para uma finale com quatro participantes. Esse ano Tim não se precipitou e guardou seu safe card para o momento em que os jurados precisariam mandar alguém realmente bom embora. Ter quatro finalistas deixa o episódio mais corrido, mas também aumenta a expectativa. Para mim, nessa temporada, não houve como prever com muita certeza quem ganharia o programa.

Fomos naquele esquema de sempre. Algumas semanas para montar uma coleção e nove mil dólares para gastar. Na metade do tempo, Tim foi fazer uma visita e a coisa ficou assim:

Ashley: A paleta de cores dela é muito marcada: rosa, salmão, lilás… Numa primeira olhada achei tudo meio datado demais e os acessórios de cabeça eu detesto. DETESTO. A inspiração dela, entretanto, tinha mesmo a ver com os anos 50. Então, vá lá… 

Candice: Totalmente “gótico vai ao baile”, como era de se esperar. Candice enfiou uma inspiração asiática no meio e mandou tudo em vermelho e preto. Ela também fez um monte de acessórios gigantes que pareciam bons em conceito, mas perigosos na prática. 

Kelly: Me assustou um bocado com aquele monte de roupas pequeninas e sem volume. Mas, sua inspiração “Studio 60 Meets Streets” estava muito perceptível. As pochetes me causarão pesadelos, mas eu perdoei. 

Edmond: Mirou no luxo e elegância, mas acertou no pedantismo. Quis fazer tudo muito dramático – por tratar-se de uma semana de moda – mas virou só um “anti-Kelly”, fazendo tudo muito grande e não oferecendo nenhuma “trama”. Sério, literalmente… Edmond não tinha nenhum conceito, não se deu ao trabalho nem de inventar um. 

De volta ao ateliê, foi Edmond, inclusive, quem ficou com uma palhaçadinha de não querer mostrar as roupas. Mas, qualquer reserva que os participantes tivessem foi pro ralo depois que Tim apareceu dizendo que queria três looks na passarela, sendo um deles produzido antes desse preview. Os jurados veriam um pedaço da coleção e assim eles teriam um pouco mais de tempo para fazer ajustes. A questão é que de todas as temporadas, essa foi a que mostrou a bancada mais implacável de todas. 

Edmond “O Rei do Babado”: Chamado de sexy a temporada toda, chocou os jurados com três looks sem nenhum sex appeal. Além disso, aqueles babados, ondas, franjas… Uma coisa meio esquisita mesmo. Além da falta de conceito, que era notória e gritante. 

Kelly “Maluca Beleza”: Enquanto Candice fez roupas para meio elenco de um musical gótico, Kelly foi esmagada com críticas sobre não ter pensado no fator drama do desfile. Nem no fator luxo. E eles estavam certos, ela não pensou nos looks certos para esse preview. Embora tivesse a melhor interpretação de um conceito entre os quatro. 

Ashley “Chapéu de Arbusto”: Novamente me preocupou ao dedicar uma coleção ao modelo plus size e aparecer na passarela cheia de problemas de finalização. Essa é uma mancada quase imperdoável para ela. E volto a dizer, não entendo nada de roupas plus size, mas achei a coleção entediante e sem impacto. Conhecida por trabalhar bem com estampas, tál qual Edmond, esqueceu sua principal referência. 

Candice “Rubro-Negra Gótica”: O mais cruel julgamento ficou pro final. Deu muita pena de Candice , porque os jurados foram implacáveis com ela. As roupas eram realmente muito exageradas e forçadas, mas ser quase chamada de plagiadora deve ter doído na moça. E não ficou nisso… Heidi chegou a dizer que ela usou TODOS os clichês do que não se faz num desfile em uma coleção só. Nina então, acabou com ela dizendo: “Eu já vi esse show… Alexander McQueen pode fazer Alexander McQueen. Você não pode”. Devastaram com ela. 

O chororô dos participantes foi geral. Kelly e Ashley tiveram as críticas menos duras, mas todos tinham muito trabalho a fazer. Edmond teve que arrancar babados e Candice nem pensou em mostrar aquele troço imenso que mais parecia um carro alegórico. Mudanças importantes foram feitas nas coleções deles dois. Basicamente, Kelly só mexeu nas combinações de peças e tacou glitter nos acessórios, enquanto Ashley tentou melhorar o caimento de suas peças. 

Nos desfiles, pudemos ver vários antigos e novos participantes do show e pudemos conferir o quanto as coleções mudaram. Ver a coleção completa muda muito das nossas perspectivas e eu percebi quem devia ser o vencedor assim que o desfile terminou. 

Coesa, cheia de brilho, humor e ousadia, a coleção de Kelly tinha todo o potencial de uma designer com uma voz muito bem definida. As roupas eram intrigantes, algumas até estranhas, mas cheias de um desejo de serem usadas, defendidas nas ruas. 

(nesse momento a câmera mostra Merline na plateia e ela dança, haahhahaaha) 

A coleção como um todo só aumentou a sensação de que Edmond não tinha inspiração alguma. Eram muitos vestidos com babados, só isso. Alguns realmente muito bonitos e dramáticos, mas a coleção não tinha costura narrativa. 

Preto, preto, vermelho, couro… Era como um desfile de pornô bondage. E tudo podia ser usado numa peça sobre bruxas do novo século, sem dúvida. A inspiração também era vaga, pouco consistente e aparentemente saturada. 

Lindo ver modelos plus size andando por aquela passarela, lindo vê-las fazendo isso com confiança, sentindo-se belas. Mas, a coleção não tinha os tais “uau moments” e ainda preciso me debruçar sobre minhas impressões para entender se o problema não é comigo. Ainda acho que havia peças muito lúdicas e especiais na coleção de Ashley (são muito ousadas as peças que não escondem o colo das modelos) mas não acho que foi uma coleção excitante de se ver. 

Era absolutamente compreensível que Candice e Edmond fossem eliminados primeiro. Os dois eram uma bagunça… Sem ponto de vista, sem voz, sem identidade. Kelly e Ashley estavam muito seguras do que queriam dizer e a vitória era entre elas. Acho que Kelly merecia por muitas razões… O quanto cresceu, o quanto surpreendeu, o quanto pensa em roupas para serem usadas, mas cheias de ousadia e criatividade. Entretanto, Ashley fez uma coleção correta e ainda tinha a bandeira da diversidade que daria a Project Runway um lugar importante na história. 

No especial Reunion, Tim trouxe à tona a questão de Ashley ser encarada como uma vitoriosa de um status, mas nenhum colega teve a coragem de reiterar isso. Bonito mesmo foi ver o VT da relação entre Kelly e Nina… Eu chorei, admito. Kelly tão resignada em aprender e Nina tão disposta a mudar de opinião… Foi um processo de encontro entre as duas que considero muito rico pra história do show. Ai então, Kelly subiu mais no meu conceito ainda quando teceu elogios sobre Merline, uma das pessoas  mais solares e positivas que já passaram pelo programa. 

Tim também voltou à ética de trabalho de Swapnil, que viu sua “estratégia” de agir apenas para ser salvo, ser desmascarada para os outros. Ele escapou de mais um esporro, com toda aquela cantoria de “você é talentoso demais para isso”. Quem não escapou de ser confrontado com a verdade foi Jopseph, que veio com aquela de “eu não tentei controlar Merline, foi a edição”, e no clipe que Tim mostrou ficou evidente que ele tinha sido péssimo com ela. 

A situação no Reunion ficou tensa mesmo quando o episódio da rejeição a Ashley veio à tona. Depois de mostrar o constrangedor clipzinho, Tim pediu comentários e Joseph revelou que havia um acordo não mostrado na edição, entre eles, para fazer um time “Boys Versus Girls” e por isso os homens também não escolheram Ashley. Laurie confirmou o bullying contra a vencedora e Kelly continuou tentando se justificar de que não tinha votado em Ashley para eliminação influenciada pelas outras. Amanda, Lindsey e Candice vieram no rabo do cometa e a coisa toda foi ficando ruim para elas, já que o trabalho de Ashley não era o único ruim ali para merecer aquele painel tão implacável. Todo o grupo de meninas só estava APAVORADO com a ideia de serem transmitidas para o público como garotas más. Não estavam nem aí pra Ashley, só não queriam a má reputação. Chegaram ao absurdo de dizer que Ashley tinha que tê-las defendido da afirmação de que estavam sendo más (feita por Blake). É mole isso?

Tim precisou intervir e encerrar a discussão antes que as agressões começassem. Aproveitou para anunciar que a Mary Kay daria 25 mil dólares para quem ganhou mais desafios e assim Kelly saiu de lá com seu dinheirinho. Assim, também, Project Runway encerrou sua temporada lindamente e reforçou porque é um dos realities mais respeitados do mundo.14 temporadas depois e ele ainda é elegante, surpreendente e mágico. Espero realmente que a edição Junior fique a altura e que possamos nos ver ano que vem para mais runway shows. 

See you there…

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