
Desesperada para libertar-se de uma redoma chamada “obra original”.
Spoilers Abaixo:
Se existe no mercado uma mente tão criativa quanto super produtiva, é a mente de Stephen King. O homem tem uma energia que soa tão sobrenatural quanto o universo que ele costuma explorar com frequência. King é tido pela mídia como o “Mestre do Suspense”, e faz jus a essa fama com uma carreira literária de dar inveja, embora sempre oscilante entre o respeito da crítica (obras como Carrie, O Iluminado e a saga A Torre Negra) e o despeito da mesma (por causa de coisas como Cemitério Maldito, Salem’s Lot e O Apanhador de Sonhos). King sempre teve uma reputação irregular, que se reflete na capacidade da indústria de adaptá-lo.
Qualquer obra original é por si só, uma prisão. Na maioria das vezes, muito maior para quem consome do que para quem cria. A prova disso é o próprio King, nos bastidores de Under The Dome, abençoando todas as mudanças que por certo estão irritando fãs ao redor do mundo nesse momento. Ao mesmo tempo, a adaptação sempre é sedutora justamente por essa dinâmica de conferência e representação. Estamos sempre entre a busca por diferenças (que alimentarão nosso orgulho de ter acessado a matéria-prima antes do derivado) e por momentos de contemplação daquilo que imaginamos solitariamente.
Eu mesmo enquanto escrevo esse texto, ainda estou decidindo qual será a minha abordagem nessa cobertura. Como leitor do livro, me sinto compelido a abordar as mudanças. Porém, sei que o espectador que chegou à série sem referências, não vai querer perder parágrafos no meio dessa discussão. Estou preso. Sem saída. Na redoma. Disposto apenas a tentar equilibrar as coisas, sobretudo porque sei que em se tratando do mundo do senhor Stephen, aparar as arestas é absolutamente necessário.
Conhecemos então, Chester Mills. A pequena cidade do Maine (sempre) que num domingo ensolarado, sem aviso, se vê isolada por uma gigantesca redoma invisível. Essa é a alegoria para o exercício preferido do autor: isolar para analisar. King sempre fez isso, desde o início de sua carreira, e está aí, o seu forte com as palavras e as histórias. Ele isolou personagens em um hotel no livro O Iluminado, isolou outros em cidades fictícias de onde ninguém entrava nem saía (Coisas Necessárias, Salem’s Lot, A Tempestade do Século…), isolou gente até em supermercados (O Nevoeiro) e dentro de um carro (Cujo). Sua inclinação para esse movimento nasce da forma como sua cabeça tem a necessidade de transgredir comportamentos o tempo todo. Isolado, o ser humano bloqueia valores morais em nome da sobrevivência. Esse também é o aspecto maior acerca de Under the Dome.
Nesse primeiro episódio, porém, a grande estrela é a própria redoma. Esperamos ansiosos por todas as sequências que privilegiariam os efeitos da chegada dela. Do tamanho exato da cidade inteira, a redoma corta todas as fronteiras e pega os moradores de surpresa, bloqueando abruptamente e mutilando no processo. Sob esse aspecto, me senti recompensado. Os efeitos especiais da premiere foram muito dignos, ainda que estrategicamente econômicos. Dentro da literatura, há uma liberdade maior de explorar aparições efêmeras, enquanto a série precisa estabelecer laços com o espectador. Por isso, o enfoque na vida dos que serão nossos protagonistas. Enquanto no livro a chegada da redoma é silenciosa, na série há o fator showbizz, que a faz chegar com barulho, tremores e poeira.
Sim, foram muitas liberdades criativas. Uma adaptação aberta e escancarada. E com sua razão de ser. Com suas mais de 900 páginas, o livro demora até concretizar as ligações mais importantes. A série se apressa e já constrói suas tensões. Essa pressa, entretanto, enfraquece a atmosfera que merece realmente destaque: a atmosfera de insegurança e medo. O primeiro episódio apresentou a redoma e deixou a cidade um pouco de lado, a cidade como organismo interceptado, obstruído.
Encabeçando a liderança das cenas, um Barbie que sofreu mudanças drásticas e uma Julia que o segue como se esperava (ainda que o roteiro busque uma ligação maior entre eles, indireta, e que pode funcionar bem). A nova versão de Barbie só não é tão drástica quanto a nova Angie, que literalmente sobrevive à redoma de sua versão literária. Os dois costuram as tramas principais, enquanto Big Jim e seu filho Junior correm por fora, necessitados de mais tempo para mostrar do que são capazes.
Esse é o momento de ser cauteloso. Under the Dome não nasceu para se apropriar da complexidade do livro e tem pressa em ser mais ação e suspense. Nossa forma de entendê-la também precisa ser essa, ou vamos passar a maior parte do tempo decepcionados. Muitos dos produtores que adaptaram King preferiram o choque visual de suas descrições, à filosofia disfarçada nelas. Esse parece ser mais um caso. Do todo, se salva alguma coisa sempre. Entregaram-nos um episódio bem feito, correto, longe da vergonha alheia com que somos “presenteados” constantemente pelos canais de TV. Under the Dome é menos elegante que seu original, e se debate para livrar-se dessa redoma literária. Vamos dar a ela uma chance, enfim.
Little Dome: No livro, a chegada da redoma parte uma marmota ao meio. Preciso admitir que cortar a vaca teve mais impacto.
Little Dome 2: “Sound like Bjork”.
Little Dome 3: “As estrelas cor-de-rosa estão caindo…”. King e suas antecipações fantasmagóricas












![Under The Dome 3×13: The Enemy Within [Series Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2015/09/Under-The-Dome-3x13-218x150.jpg)

