Texto originalmente postado no dia 21 de outubro. Observações com spoilers adicionadas no final.

Eles chegaram.

Spoilers abaixo:

“God forgive us.”

O retorno de Frank Darabont à televisão é com facilidade o melhor episódio piloto de qualquer série dramática dessa fall season. O que, levando em consideração o nível da mesma, não é nada além da obrigação pro cara que já teve uma de suas obras (À Espera de um Milagre) indicada ao Oscar de Melhor Filme. Agora, mesmo após o piloto, ainda tenho uma dúvida na minha cabeça e ela é se em The Walking Dead há o necessário para ser uma série de TV. Arcos efetivos em um nível além do visual, personagens que podem crescer no decorrer dos anos para sustentar as suas próprias histórias, adaptabilidade para um meio tão instável… Será que esse pequeno conto de sobrevivência é capaz disso? Tudo indica que sim e estou ansioso para descobrir mais sobre esse universo, mesmo que receoso.

Material para explorá-lo, aliás, é o que não falta. The Walking Dead é baseada na HQ homônima criada por Robert Kirkman que já teve setenta e sete edições publicadas nos EUA pela editora Image Comics , sendo nenhuma dessas de meu interesse até pelo menos o final da primeira temporada. The Walking Dead agora é uma série de TV e precisa convencer por esse meio se quiser ser elogiada, missão que durante todos os minutos do piloto foi cumprida. Com um visual nojento que junto do roteiro cria um belo misto de sensações (passando por pena e terror),”Days Gone Bye” é um soco no estômago e faz questão de mostrar o motivo da AMC, casa das brilhantes Breaking Bad e Mad Men, ter se interessado na série. Se você está esperando um ritmo desenfreado e uma taxa de sete zumbis por frame, sinto te desapontar pois a prioridade de Darabont é contar uma história e ele não deixou nada entrar no caminho disso. Três ou quatro bem dirigidas e posicionadas sequências de ação espalhadas em diversos pontos da trama e massivas porções de desenvolvimento no meio.

Depois de Lost e as diversas brincadeiras isso soa brega, porém é verdade: The Walking Dead é uma série sobre pessoas. Corruptas, sentimentais, falsas, compreensivas, todas elas tentando sobreviver dos restos, sendo jogadas contra a parede por algo que não podem controlar. Os otimistas dizem que tragédias trazem o melhor das pessoas, mas deixam essa frase ofuscar que elas também trazem pânico, algo que Rick Grimes luta para controlar durante o episódio com a única coisa que lhe dá forças, sua mulher e filho. É o mesmo velho conto. Um homem supostamente habilitado para esse tipo de situação acaba tendo que realmente lidar com ela, encontrando amigos e inimigos no caminho até o pote de ouro. Felizmente aqui ela ganhou uma nova batida, algo que deve ser atribuído ao britânico Andrew Lincoln. Confesso que quando soube da escalação dele soltei um sonoro “Quem?” e tive dúvidas em relação à produção, mas depois de assistir, percebi que o papel caía como uma luva devido a sua peculiar forma de ser forte e frágil simultaneamente. O resto do elenco também é ótimo, principalmente Lennie James (Morgan), que certamente vai tirar lágrimas dos mais sensíveis durante o clímax do episódio.

Enfim, The Walking Dead cumpre o que promete. Se vai continuar a fazê-lo nos próximos cinco episódios que compõem a primeira temporada é algo que, como eu já disse, tenho dúvidas justamente pela natureza do gênero. Mas “Days Gone Bye” pelo que é? Pela hora de televisão com ação empolgante e história envolvente? Disso, eu tenho certeza.

Outras observações

– Lindos, lindos zumbis. Grande trabalho da equipe dos efeitos especiais.

– Se a intenção do beijo entre o Shane e a Lori no final do episódio era ser uma surpresa, falhou tremendamente. Pelo que já havia sido estabelecido em uma das cenas iniciais na qual ele conversa com Rick sobre mulheres e pelo diálogo entre os refugiados, a relação era óbvia e recheada de clichês em uma hora cheia de vários outros que geralmente funcionaram. Veremos como isso se desenvolve, mas já estou com um pé atrás.

– Quando li o roteiro do episódio durante a última pilot season, uma das coisas que mais me deixou animado foi o cliffhanger no qual o Rick, após chegar em Atlanta, fica preso em um tanque cercado de zumbis famintos. Sua execução não deixou a desejar, com uma bela e tensa tomada aérea enquanto o destino do herói fica cada vez mais complicado ao som de “Space Junk” – escolha quebra gelo que serviu para criar uma magnífica sensação de medo.

– Falando sobre cenas de tirar o fôlego, aquela na qual a zumbi aleijada é sacrificada e Morgan não consegue fazer o mesmo com a sua mulher é um clássico instantâneo, ponto alto do episódio e mesmo sendo cedo pra dizer, da série. Incrivelmente bem preparada, sucede em atingir um tom épico carregado de emoção para ambos os personagens. Como falei acima, Lennie James é ótimo e espero muito que o seu personagem retorne; é um símbolo forte do que certos homens tiveram que passar após o apocalipse, dos limites que eles tiveram que quebrar para um bem que desafia suas emoções.

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