A jornada do herói em um Flash!

Essa review foi escrita com base no episódio piloto da série que “misteriosamente vazou” essa semana na internet. Um episódio que ainda não parece terminado, em que algumas montagens como o momento que conhecemos o detetive garanhão parecem apressadas, mas mesmo assim, apenas superficialmente. O que me faz entender que essa versão que “vazou”, ainda não é exatamente 100% do que veremos lá em meados de setembro/outubro. Porém, eu não poderia jamais deixar passar batido e devorei cada segundo desse piloto como se não existisse amanhã, tamanha minha animação com tudo o que era revelado.

Flash é o mais próximo de Smallville que Arrow nunca será. Não estamos mais no colegial, Barry não é um estudante de faculdade, mas os problemas, a temática e a fotografia se aproximam muito mais de Pequenópolis e se distanciam de Starling City e os problemas mais maduros de Oliver Queen. Isso não é ruim, ao contrário. A DC precisa construir sua identidade, precisa se afastar um pouco da trilogia Nolan e começar a ter seu próprio visual. Flash é a expansão, e como expansão, cumpre bem esse papel de mostrar o mundo lá fora, que nem sempre é sombrio, carregado de decisões difíceis e de vida ou morte.

Toda gênese de heróis e vilões precisa de um evento marcante, de um cataclisma, e a explosão do reator foi a de Flash. Inúmeras possibilidades são levantadas a partir do momento em que as mais diversas reações ocorreram. Esses meta-humanos deverão ser o caso semanal, enquanto o mistério ao redor da morte da mãe de Barry e o vilão central da temporada, lentamente são revelados. Porém, o reator não é a única porta de entrada para humanos com poderes, vimos isso em Arrow com o “mirakuru”. Ou seja, muitos outros heróis e vilões ainda poderão aparecer, pessoas que não tem conexão nenhuma com o desastre no laboratório S.T.A.R., como por exemplo, um certo Lanterna Verde (que já teve até easter egg em Arrow) e outros. É importante não misturar as coisas, Flash é o começo de uma nova era, mas não é isolada.

Uma das características mais marcantes de Barry Allen nos quadrinhos é que ele nunca encarou seus poderes como uma maldição, mas sim como um dom. Ele se diverte sendo o Flash e é algo incrível. Na série, no momento em que o nosso Barry descobre suas habilidades especiais, ele não as recusa. Seu período de choque não passa de alguns segundos e logo, lá está ele, correndo como se nada daquilo fosse estranho. Não estaremos lidando com uma alma torturada, pois o crime que matou sua mãe e destruiu sua família é a única cruz que Barry carrega e suas habilidades são o caminho para sua redenção, e de seu pai.

A presença de Oliver Queen no episódio piloto dita o rumo que essa história tomará daqui para frente. Barry foi um entusiasta do Arqueiro no período em que esteve em Starling City e agora se encontra no próprio rol dos vigilantes. Logo, Oliver não é apenas o herói, ele age como uma espécie de mentor e espelho. E como mentor, o próprio conselho de que Barry cometerá erros, elucida todo o processo da jornada do herói que tanto o Arqueiro quanto o Flash estão trilhando, sendo que o primeiro já se encontra bem mais avançado.

A missão de Barry vai além, ele será o ícone na criação de uma nova era de heróis. Não podemos nunca desprezar sua importância nesse novo universo que a DC está criando na TV. No próprio mundo desenvolvido em que vilões e heróis vivem, o Flash será o porto seguro para todos aqueles que de alguma maneira foram afetados por eventos fantásticos e ganharam de brinde algum poder.

E é engraçado ver essa relação entre os dois, já que foi o Barry quem aconselhou Oliver a usar uma máscara e lá no topo de um prédio, entre suas indagações e dúvida pessoal, o Arqueiro devolve o conselho e mostra para ele que ser um herói é tudo aquilo que Barry sempre quis. Se por motivos pessoais, ou para ser um sinal de esperança para outros tantos Barrys escondidos no mundo, ele almejou ser alguém. Ao passo que Oliver carregou tormento em forma de justiça, Barry carrega um estandarte.

Cada herói tem seus méritos, cada um deles suas próprias histórias para traçar e as possibilidades são gigantescas. Porém, infelizmente não poderemos ter Oliver adotando essa postura por mais episódios e o papel de pai ficou dividido entre o detetive Joe West, o professor Harrison Wells (apesar do mistério) e o próprio pai do Barry, Henry Allen, esse último sendo o ator que interpretou o Flash na série de 1990. E sendo uma história de origem, nosso herói precisará e muito de aconselhamentos, cada um desses “pais” poderá e irá acrescentar algo necessário a construção do ícone Flash. E é isso que o piloto exemplifica, ele é a junção de coragem, ciência e esperança.

Já existem alguns caminhos traçados antes mesmo de a série começar. Simplesmente pela presença de alguns nomes, a pressão já existe. Nos quadrinhos, muita coisa aconteceu e o Flash carrega o título de membro fundador da Liga da Justiça. Aqui na TV, porém, precisaremos ir com cuidado. Não estamos andando em um terreno novo, porque é crucial compreender que os erros aprendidos em Smallville e Arrow formarão a base do futuro de Flash.

Geoff Johns, quadrinista e roteirista esteve envolvido com várias produções da DC e escreveu um dos episódios envolvendo viagem no tempo que eu mais gostei em Smallville: Legião (lembrando que viagens no tempo fazem parte da saga do Flash), além de seu envolvimento em Absolute Justice, como escritor. Ou seja, o cara sabe muito bem qual o universo ele está trabalhando, ele é produtor da série e tem muito a oferecer. Isso sem mencionar a presença de Andrew Kreisberg, que também está em Arrow.

Se lá em Arrow existiu a obrigatoriedade de fazer Laurell traçar o caminho da Canário Negro, em Flash também temos essas preconcepções que saem dos quadrinhos e de certa forma já ditam as expectativas. Cisco Ramon e a Caitlin Snow, os ajudantes de Barry no laboratório S.T.A.R., não são personagens criados para série, eles existem nos comic books. Aqui com certas mudanças em alguns pontos, mas ainda assim, não são novatos. Sendo que um deles até mesmo se torna vilão nas HQ’s. Por isso, esse caminho é de certa forma perigoso, já que antecipa alguns rumos que nós telespectadores poderemos querer, ou desprezar. Tudo isso dependerá, claro, da forma com que nos relacionaremos com esses personagens, amar ou odiar poderá significar o resultado de algumas mudanças. Entretanto, na função equipe, todos eles são interessantes, independente dos resultados futuros.

É difícil comentar os efeitos especiais quando se assiste a um episódio com baixa qualidade de imagem, mas imaginando que até a série ser oficialmente liberada existirão algumas pinceladas aqui e outras ali, eu gostei do que vi. A corrida não é muito diferente do que já vimos e Smallville, com o próprio Clark Kent, mas seria um pouco complicado ir além. Gostei da forma com que trabalharam o velocista Mercúrio no filme X-Men: Days of Future Past, mas sei muito bem das limitações orçamentárias que uma série de televisão precisa enfrentar. Fazer os efeitos do Flash correndo é algo que deverá ser tão repetido, que essencialmente precisa ser bom, bonito e barato, já que isso é o que vai ter em todo episódio, sem contar os efeitos destinados aos outros meta-humanos, carros explodindo e etc.

Quando entro em alguns pontos que não gostei no episódio, preciso comentar o vilão, Mago do Tempo, que até faz parte das histórias em quadrinhos do Flash e aqui serviu apenas como primeiro bandido, sem nada muito mais profundo a acrescentar, o que é uma pena. Por um tempo pensei que sofreria com o drama da família policial, mas o final do episódio acabou me acalmando. Porém, ainda guardo ressalvas para essa dinâmica que pode acabar carregando dramas desnecessários (vide família Lance em Arrow). Assim como o bom e velho novelão ao redor de um já existente triângulo amoroso entre Iris, Eddie e nosso protagonista, coisas que não temos como fugir por se tratar de CW.

Gostei de tudo o que vi, achei um piloto bem sólido e em alguns aspectos até melhor que o de Arrow. É bom respirar esse ar mais fresco em Flash, com um cenário mais colorido e cheio de luz do dia, sentia falta disso. Claro, existem alguns problemas e ele é meio apressado, porém, nada que prejudique ou que tire o ponto essencial que qualquer série deveria possuir: entreter quem a assiste.  Existirão clichês? Certamente, afinal alguns são fundamentais. Estamos, afinal, falando de uma adaptação de histórias em quadrinhos que pavimentaram o caminho para muitos clichês existentes em vários filmes e séries, até hoje. Não seria diferente aqui. Mão no vidro que separa pai e filho, a jornada do herói, não se desespere, alguns clichês não irão diminuir em nada a experiência de uma série que apresentou um piloto que de tão bom, passou como um flash.

PS. Cisco Ramon mandou um beijo pra The Big Bang Theory e apareceu usando uma camiseta “Bazinga”. Já que lá na série dos nerds é comum Sheldon aparecer usando uma do Flash. Gostei!

PS². O cara acorda de um coma de nove meses e ninguém comunica a família? Ou isso iria acontecer depois do tour pelo laboratório destruído? Prioridades!

PS4. Névoa que quebra vidraças? REALLY?

Easter Eggs

– Grodd é um personagem bem curioso do universo DC, ele é um gorila que possui inteligência, força imensa e poderes telepáticos. Apesar de nos quadrinhos ele ser natural da “Cidade Gorila” (cidade abençoada pela visita de aliens que ampliaram a inteligência de símios), na série já podemos ter uma ideia de que pelo menos existe a possibilidade de um dia vê-lo confrontando o Flash e ele não é nada amigável.

– 2024 Wayne Tech – Queen Inc Merger. As dúvidas quanto a existência do Batman no universo a qual pertencem Arrow e Flash já podem acabar. Mesmo sendo um futuro bem distante, Wayne Tech, empresa do morcegão existe e será (ou não, o futuro pode ser mudado) fundida com a Queen Inc, empresa do Oliver. Prova viva de que logo mais poderemos ver algum personagem importante desse núcleo dando as caras em Arrow ou Flash.

– Red Skies Vanish e Flash Missising Vanishes in Crisis fazem referência as chamadas “Crises nas Infinitas Terras/ Crisis on Infinite Earths” um evento que afetou as infinitas terras existentes em universos paralelos e que culminou na morte do Flash. Céu vermelho/Red Skies, é um sinal dessa crise.

– Também é possível ver uma leve mudança no uniforme do Flash, o logo possui um fundo branco, mais próximo das HQ’s.

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