Responsável por criar clássicos como Batman e Superman, filmes que vêm moldando o gênero dos heróis no cinema desde os anos 70 e 80, a Warner/DC vem trilhando uma montanha russa recentemente. Enquanto acerta em alguns lançamentos, em outros entrega produtos aquém do que os heróis da editora merecem, fruto das decisões empresariais tomadas, que ora prezam por um universo compartilhado, ora escolhem trilhar histórias isoladas em sem ligação.
Curioso notar que The Flash (2023) se aproveita do meio termo dessa bagunça pra entregar um bom filme, híbrido de isolamento e ligação entre as obras da casa, mas que acaba sendo eclipsado pelas polêmicas que envolvem seu protagonista fora das telas.
Com clara inspiração em Ponto de Ignição, famosa saga de HQs do personagem, a trama segue Barry Allen (Ezra Miller), que descobre a capacidade de viajar no tempo como extensão dos seus poderes de supervelocidade. Decidido em voltar ao passado para impedir a morte da mãe e inocentar o pai, mesmo que alertado ao contrário, Allen acaba indo parar num universo onde sua família está unida, mas muito daquilo que ele conhece não existe mais. Quando velhos vilões ressurgem, Barry precisa unir forças com aliados improváveis para salvar não só o mundo, mas também o espaço-tempo.
O longa dirigido por Andy Muschietti consegue entregar bons momentos de comédia e de drama. As sequências familiares dos Allen são ótimas, principalmente no terceiro ato, com a interação de Ezra com Maribel Verdú, na pele de Nora Allen. Assim como as piadas com referências da cultura pop (De Volta Para o Futuro, Top Gun e Barbie Girl entre as melhores) e o genuíno modo de agir de Barry contêm boas gags narrativas e visuais.
A grande questão é a forma engessada em como eles são organizados. Esses momentos não casam e o roteiro não ajuda em como constrói as transições entre tais arcos, criando uma sensação de que, apesar da escala épica da trama, tudo é resolvido facilmente e sem grandes consequências para o contexto geral do longa.
O visual do filme é outro ponto que tem altos e baixos. Em alguns momentos o longa mergulha de cabeça na alopração da velocidade entregando ótimas cenas de ação. Em outros, principalmente nas cenas narrativamente complexas da cronoesfera, a execução visual é estranha, com aquela já conhecida textura plástica dos efeitos da DC, como se estivéssemos vendo uma cutscene de um jogo de videogame de alguma geração passada.

A necessidade de se inserir dentro de um universo compartilhado que referencia não só os filmes atuais, mas o clássicos do estúdio/editora, também acaba sendo uma faca de dois gumes, servindo tanto para o bem como para o mal. Enquanto é legal ver novamente o Batman do Michael Keaton em tela, com a trilha sonora típica de seus longas e o ar confiante do ator/personagem, outras piscadelas só servem como puro fanservice para agradar ao público, não contribuindo em nada para o andamento da história.
A gordura narrativa também aparece em pontos focais da trama, como é o caso de Zod (Michael Shannon), praticamente um coadjuvante de luxo, relegado a ser um deus ex machina de fácil utilização para que o ato final aconteça.
A versão de Ben Affleck do Batman aqui age como um figura paterna para Barry, dando oportunidade para o ator sair da figura engessada dos filmes anteriores. Sasha Calle faz o que pode na pele de Kara Zor El/Supergirl, mas o alcance fraco de atuação da atriz não ajuda a personagem a ter destaque, apesar de seu papel teoricamente importante.

Contudo, o grande vilão do filme é Miller, numa ironia que ninguém teria como planejar. Envolvido em diversas polêmicas de agressão, invasão de propriedade e abuso, elu eclipsou a campanha de marketing do filme, criando um abacaxi gigante para que o estúdio resolvesse. Mesmo que apoiado em lugares comuns, clichês e resoluções fáceis, o longa tem capacidade de se inserir facilmente neste novo universo que James Gunn está criando para a DC. Mas teria Ezra a capacidade moral de representar novamente o papel sem que isso atraia atenção negativa para a produção?
Entre reverenciar o cânone das HQs e incluir suas próprias decisões, The Flash é uma descompromissada viagem que deve agradar aos fãs de longa data do estúdio e não deve fazer feio perante o público geral. O grande problema é que o seu principal vilão não está nas telas, mas sim fora delas e resta ao público decidir se vai separar a arte do artista.
PS: O filme tem uma cena extra no final dos créditos.
*O Série Maníacos assistiu o filme a convite da Warner Bros Pictures Brasil














