Mais Velozes e Furiosos que Frankestein.
Nos últimos tempos, a quantidade de séries e filmes baseados em livros, quadrinhos e roteiros já explorados anteriormente tem crescido de modo substancial. Esta, inclusive, foi uma discussão que os irmãos Wachowski, criadores de Matrix e Sense8, trouxeram à tona em uma entrevista, defendendo que a indústria de entretenimento está perdendo sua inspiração. E, nesse fluxo de roteiros adaptados, surge Second Chance, uma série que tem sua base inspirada no clássico Frankestein.
No entanto, não esperem uma série de terror; a inspiração aqui é bem mais sutil. Second Chance traz a história do velho agente do FBI Jimmy Pritchard que, ao morrer, tem seu corpo ressuscitado e rejuvenescido por uma empresa de tecnologia. Logo, o mito do Moderno Prometeu reside exclusivamente no fato de criar vida em um laboratório, cujo resultado é propriedade daqueles que o criaram.
O que poderia render uma grande discussão filosófica, no primeiro episódio, é colocado em segundo plano. Com uma edição ágil e interessante, One More Notch preocupou-se em nos colocar a par de todos os plots principais que a série tende a explorar. Os primeiros minutos apresentaram-nos ao protagonista Jimmy e a sua família, mostrando o caráter politicamente incorreto do herói da série. Embora, as ficções atuais contemplem cada vez menos a figura do “mocinho” perfeito, ainda me interessa a escolha de um protagonista cheio de vícios e defeitos, uma vez que o processo de espelhamento do espectador com a história é essencial para nos afeiçoarmos a uma série. Também gostei bastante do fato do roteiro não usar de longas explicações para detalhar os fatos da história, tendo um timing perfeito nas cenas para que possamos entender os principais pontos sem o recurso dos diálogos (exceto a explicação final de Mary para Jimmy sobre a condição de Otto, a qual me decepcionou muito).
O enredo tem início quando Jimmy, em seus 75 anos, é vítima de dois desconhecidos que invadiram a casa de seu filho, o qual também é policial do FBI. Em um suicídio simulado, Jimmy é jogado de uma ponte. Nesse ponto, faço a minha primeira ressalva à Second Chance: as cenas de ação são bastante fracas. Enquanto o visual da série é bastante interessante em seu apelo tecnológico e flashbacks, as cenas de ação propriamente ditas devem muito em coreografia e efeitos especiais. Parece que o diretor quer acabar com elas o mais rápido possível e faz cortes que prejudicam suas sequências.
Com a morte de Jimmy, entram em cena os irmãos Mary e Otto, donos de uma grande empresa de tecnologia, os quais desempenham o papel controverso de deuses ao ressuscitar o policial com força sobre-humana. Enquanto Mary enquadra-se na típica protagonista feminina, a qual certamente constituirá o interesse amoroso de Jimmy, Otto tem uma personalidade bem mais interessante. Com habilidades sociais nulas, o jovem é totalmente dependente da irmã gêmea e todo seu esforço para reviver Jimmy tem o propósito de salvá-la de um câncer terminal. Caso os roteiristas não decidam restringir Otto à categoria nerd excêntrico e explorem a bipolaridade e talvez o amor não-fraternal que o personagem parece possuir pela irmã, a série terá um grande trunfo em mãos. No núcleo dos gêmeos, outra crítica que faço à série é o fato da doença de Mary não ter sido tratada com a verossimilhança que se esperava para que o esforço de Otto pudesse ser justificável. Em um estágio avançado da doença, no qual a quimioterapia não é mais efetiva, é meio irreal que a personagem não apresente nenhuma evidência da doença e viva normalmente.
Voltando ao protagonista, a interpretação de Rob Kazinsky do Jimmy “novo” não traz surpresas, mas também não compromete o resultado do projeto. A preocupação do personagem com a família é, com certeza, uma das diretrizes da série ao assumir que esta será sua segunda chance. Resta a dúvida se a série trilhará um caminho procedural, com Jimmy ajudando o filho em seus casos policiais ou enveredará em um drama mais complexo. A escolha da primeira opção é um tanto perigosa, uma vez que a investigação conduzida no primeiro episódio foi bastante fraca. Dereck Webster, no papel de parceiro corrupto de Rob, parece não ter saído de seu personagem em The Whispers, entregando uma atuação fraca que compromete o resultado final desse plot. Também ressalto a ingenuidade do roteiro ao colocar os vilões levando Rob para o mesmo lugar que mataram Jimmy. Quem não acharia estranho duas mortes relacionadas no mesmo local? Porém, se a série buscar um caminho mais complexo, com dramas mais substanciais, acredito que o acréscimo com seu humor e a empatia natural de seus personagens possa ser bem-sucedido.
Assistir Second Chance é como acompanhar um filme despretensioso de aventura. Não espere uma qualidade ou uma discussão que mudará sua vida; esse é o tipo de série que você vê para espairecer e esquecer das questões que te rodeiam. É como ouvir Wesley Safadão quando você só quer se divertir ao invés do rock conceitual que te inspira. De certa forma, vale a pena.
E vocês, vão dar uma segunda chance à série depois do primeiro episódio? (Trocadilho clichê, eu sei!)















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