Mais uma vez Second Chance vai buscar inspiração na terminologia heideggeriana para intitular um dos seus episódios. A palavra alemã Gelassenheit, muitas vezes traduzida para o inglês scomo Releasemen, significa serenidade e guarda profunda relação com o estado de disponibilidade para os acontecimentos do porvir. Se no episódio 1×9 ( When You Have to Go There, They Have to) Second Chance flertou com a vulnerabilidade nossa de cada dia,  em 1×10 (Geworfenheit) a série se apropriou dos conceitos existencialistas cunhados por Heidegger para nos introduzir em um mundo onde o indivíduo, ao nascer, é lançado a sua própria sorte até a hora da sua morte; já em 1×11 (Gelassenheit) SC nos conduziu para um caminho do meio, onde houve espaço para a redenção, o perdão, o ajuste de contas, os recomeços e a busca do equilíbrio perdido. O episódio foi dirigido pelo premiado Brad Turner (Stargate Atlantis, Bones, Homeland, Nikita) e foi escrito pela competente dupla de produtores da própria série Howard Gordon e Rand Ravich, esse último também escreveu os episódios 1×1, 1×2 e 1×9.

Fiquei bastante ansiosa com os desdobramentos dos acontecimentos apresentados no fechamento do episódio anterior e torcia para que tudo desse certo para o Team Pritchard e para os gêmeos Goodwin, só não imaginava um episódio tão criativo, envolvente, frenético e dramático como o que foi apresentado nessa Season Finale. Achei maravilhosa a decisão da direção da série de em apenas quatro minutos de tela resolverem as maiores pendências do episódio anterior: a prisão de Duval e o seu espetacular resgate, a traição de Alexa e a sua redenção dizendo a localização da Gracie e a trágica e fria morte da cobaia Albert Lin – que chocou o Otto e a mim também. Gostei bastante desse dinamismo que acabou por desonerar o restante do episódio deixando a história fluir livremente.

Enquanto tudo isso acontecia, a maior preocupação de Mary era a de salvar a vida de Jimmy. A empresária se mostrou temerosa por causa das atitudes do seu irmão e as suas possíveis consequências e por causa da possibilidade de morte iminente do homem que ela se descobriu profundamente apaixonada recentemente. O grande desafio de Mary foi o de tentar desbloquear o código do tanque de refazimento da Alexa para que Jimmy pudesse ser um usuário secundário do mesmo, impedindo assim o fim horrível reservado para o xerife. Admito que fiquei preocupada diante da desistência dos nerds da Lookinglass, do desespero contido de Mary e do não desbloqueio do código de acesso do tanque. Quando a gente não sabe se a série vai ser renovada ou não para uma próxima temporada, a gente assiste uma Season Finale com o coração na mão. Tudo pode acontecer…ou não, né?

A conversa entre Jimmy e Duval nos portões do laboratório de Connor foi muito emocionante. A forma como o Duval fez o Jimmy entender que em muitos momentos o odiou por ele não conhecer a família que constituiu foi bem impactante, mas acima de tudo o total desconhecimento de Jimmy sobre esses sentimentos vindos do filho foi mais forte ainda:

Jimmy: Sei que não concordávamos, mas você me odiava? Não sabia disso!

Duval: E é provavelmente por isso que eu o odiava. Você nunca conheceu a sua família!

É engraçado e poético perceber que diante da inevitabilidade da morte as pessoas se sentem à vontade para abrir o coração e falar aquelas verdades secretas e desconhecidas para os seus entes queridos. Percebi em Jimmy uma serenidade tão grande que até já estava me conformando com a possibilidade da sua morte nesse episódio. O Gelassenheit lhe caiu como luva e o xerife demonstrou serenidade na hora de deixar a cargo de Duval a decisão de acreditar/seguir a Alexa ou não; ao beijar a testa de Mary e lembrá-la de que todos morrem em algum momento e ao se conter no laboratório enquanto Duval em desespero quase torturava o gênio Lookinglass.

Gostei muito de todo aquele teatrinho que a Alexa fez com o Connor e gostei mais ainda da Alexa Wonder Woman batendo no capanga do Connor. Nessa hora eu fui logo pensando: Pronto! Já ajudou os mocinhos, já se redimiu e já pode morrer em paz! Ledo engano o meu, a secretária ainda tinha muita lenha para queimar no decorrer do episódio. Acredito que a conversa que a moça teve com o Otto o ajudou a perceber o tamanho da bobagem em que ele se meteu e acho que no fundo ela não era uma bad girl, apenas estava ressentida por ter sido descartada por Otto como um experimento imperfeito e fracassado e por ter perdido George, o seu grande amor.

Me agradou muito a linha de atuação do Tim Dekay (Duval) e em vários momentos nesse episódio ele nos presenteou com a sua carga dramática rebuscada. O que foi aquela cena do laboratório onde ele ameaçou o Otto e propôs uma troca de reféns? Sabia que aquela Gracie da troca de reféns era um holograma, sabia que ia acabar em tiroteio, sabia que a Alexa ia se machucar e mesmo diante da previsibilidade da sequência a achei muito bem construída.

Só não consegui prever o que se passava naquela cabecinha mirabolante do Otto ao entrar no avião com o Connor e a Gracie. Durante todo episódio uma grande sobra foi construída sobre Otto: a sombra da dúvida, da culpa e do arrependimento. Todo esse peso levou o rapaz a perceber que era um monstro e que Connor não diferia dele nesse aspecto e, numa das cenas mais impactantes de Second Chance, vemos um Otto de forma Kamikaze mandando Arthur abrir a porta do avião em plena decolagem, se lançando para uma morte trágica no vazio e arrastando consigo o aprendiz de cientista louco. Se no episódio anterior muitos haters de plantão desejavam uma morte inglória para Otto, nesse episódio muitos derramaram lágrimas em consonância com a Mary pela perda do irmão ou ficaram felizes por Otto salvar a Gracie e devolvê-la inteirinha para a sua família.

A sequência de despedida de Mary e Jimmy com a Alexa chorando atrás da porta foi muito tocante e trouxe uma incontestável prova de amor de Otto por Mary – o rapaz não só desbloqueou o tanque da Alexa como também transformou Jimmy num usuário secundário. Deixando implícita a mensagem de amor, entendimento e aceitação do amor da irmã por um outro homem. Vejo nessa atitude dele uma incrível maturidade e uma grande quebra do cordão umbilical simbiótico que a unia a sua irmã gêmea.

A Mary voltou para o seu país de origem para jogar as cinzas do seu irmão no mar, para procurar a sua paz e o seu equilíbrio, contudo, foi surpreendida por uma mensagem secreta de Otto num dispositivo infantil a alertando sobre a possibilidade do desenvolvimento de um comportamento agressivo e destrutivo por parte de Jimmy. Seria essa a premissa para uma segunda temporada? O Jimmy vilão a la Punisher do bar da Peng? Eu não sei! Como falei em várias reviews anteriores, a Fox não anunciou oficialmente nem a renovação e nem o cancelamento de Second Chance, ou seja, quem viver verá.

Foi muito bom ter feito a cobertura da primeira temporada de Second Chance! Até a próxima chance… Se tiver uma segunda chance!

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