
Saturday Night Live é um dos programas de humor mais bem sucedidos da história da TV mundial, sendo exibido nas noites de sábado da NBC há mais de trinta anos. Com roteiro inteligente, situações cômicas e um time de humoristas espetacular, o programa serviu como trampolim para alguns dos maiores astros da comédia americana, seja no cinema ou na TV, como Will Ferrel, Mike Meyers, Amy Poehler, Adam Sandler e, sobretudo, Tina Fey.
Com essa pequena descrição do SNL, fica a pergunta: Por que nunca tentaram fazer uma versão brasileira do programa, então?
A resposta a esta pergunta nos foi dada hoje, pela RedeTV, ao estrear o SNL Brasil, comandado por Rafinha Bastos.
E na verdade, a resposta é bem simples: o Brasil não tem competência para produzir um SNL. Não venham me criticar dizendo que eu sou americanizado e não dou valor aos produtos brasileiros por causa deste comentário, estou sendo apenas bem realista. A verdade é que o humor brasileiro tem um conceito socioeconômico e cultural completamente diferente do americano, e SNL é um programa tipicamente americano. Aliás, poucos programas refletem tanto a personalidade do povo americano como o SNL.
A TV brasileira tem que se acostumar que alguns formatos nunca vingarão aqui. Não temos um David Letterman nem uma Oprah Winffrey, e hoje vimos que também não temos uma Tina Fey aqui. Não quer dizer que não devemos valorizar os talentos tupiniquins, só acho que devemos procurar formatos que se encaixem aos seus dons artísticos e que também sejam reflexos da nossa cultura, nossa sociedade, nossa visão política… Em suma, formatos que sejam mais brasileiros.
Odiei o SNL Brasil, então? Não. Só o achei ruim. Mas imaginei que seria bem pior, o que já é um certo mérito para o programa. A versão brasileira do SNL teve ótimos momentos, momentos não tão bons, momentos péssimos e alguns bem “vergonha alheia”. Como o formato traz a proposta de esquetes independentes, dá margem a este tipo de interpretação. E não creio que a opinião geral do público tenha sido tão diferente da minha, uma vez que sou um telespectador padrão e, assumo, no quesito humor, nem sou tão exigente assim, e rio de um bando de porcaria às vezes. Programas como Casseta e Planeta (nos anos 90), filmes do Adam Sandler e até comédias do Chuck Lorre já me fizeram gargalhar monstruosamente.
Ou seja, quando se trata de humor, eu só espero que o programa me faça rir… E SNL Brasil fez. O problema é que me fez rir em pouquíssimos momentos durante os noventa minutos em que foi exibido.
Toda a sequência inicial do programa foi excelente. A esquete parodiando o famigerado depoimento da Xuxa ao Fantástico do último domingo foi, de longe, a melhor do programa. Em seguida veio o monólogo inaugural de Rafinha Bastos que, pasmem, foi muito bom, mesmo tendo a assinatura do comediante, de quem não sou muito fã.
Não acho que o humor tenha que ser politicamente correto e se moldar às hipocrisias de uma sociedade completamente hipócrita como a nossa, mas o humor de Rafinha Bastos não é “politicamente incorreto”. Ele é agressivo, preconceituoso e ofende pessoas gratuitamente para se promover. Mesmo assim, não acho Rafinha Bastos um humorista ruim… Talento ele tem, o problema é que o utiliza para atacar e denegrir, e não para divertir. Por este motivo, assumo que foi uma grata surpresa seu monólogo inicial, que se mostrou inteligente, bem afiado, brincando de si mesmo, do próprio programa e da emissora, sem atacar qualquer desses “personagens”. Teve aquela lista de pedidos de desculpa, mas ali ele estava atacando mais a si mesmo do que os eventuais nomes ali citados. Em suma, poucas vezes vi um texto tão genial de Rafinha Bastos sem insultos ou ofensas gratuitas como vi no SNL. Humor genuíno.
Depois dessa pequena introdução, o programa foi para os comerciais (aliás, a quantidade de merchandising foi assustadora) e depois que retornou, as coisas foram de mal a pior. As esquetes foram piorando assustadoramente e tudo o que passava pela minha cabeça era: “Como alguns daqueles comediantes estavam se sujeitando àquilo?”. O programa tem alguns ótimos talentos do humor brasileiro em seu casting, como Marcela Leal, Fernando Muylaerte e Anderson Bizzocchi, que fazem muito sucesso no Teatro e debutam na TV no SNL. Isso só corrobora a afirmação que fiz no começo do texto: o Brasil tem ótimos humoristas, só temos que aprender a sermos brasileiros e esperar deles um humor mais próximo à nossa cultura. Nunca teremos um Louis C.K., infelizmente, mas os americanos também nunca terão um Chico Anysio.
E voltamos então ao ponto de partida: o problema do SNL Brasil é que o formato não favorece o programa. E como eles tentaram fazer uma versão absolutamente igual à original (copiaram muitas coisas na cara dura), a coisa ficou ainda mais feia, uma vez que estávamos o tempo todo comparando um com o outro e, com a proposta que o formato tem, sinto muito, mas a versão brasileira, por mais que tenha artistas talentosos, JAMAIS chegará aos pés da americana.
O SNL Brasil, como foi apresentado neste primeiro programa foi completamente boicotado pela sua própria produção, que tentou copiar algo que não é capaz, ao invés de tentar fazer sua própria versão utilizando apenas a ideia central de Lorne Michaels, que é genial.
Outro problema gritante da produção foi ver como ela não respeita o formato que comprou. Pode parecer um detalhe bobo, mas deve-se prestar atenção no fato de que o “nosso” Saturday Night Live não se passa no Sábado e teve muito pouco “Live” nessa estreia, o que foi motivo de piada pelo próprio Rafinha em seu monólogo mas, na verdade, é algo muito sério, pois demonstra o desinteresse da RedeTV pelo formato que adquiriu, quando na verdade só queria um programa para bater de frente com o Pânico, ainda magoada pela suposta traição da trupe de Emílio Surita, que mudou-se para a Band.
Por fim, se a equipe do Saturday Night Live Brasil viesse me pedir dicas para os próximos programas (que com certeza eu não assistirei), diria para investirem mais nos talentosos humoristas que ela conseguiu chamar, fazer esquetes mais curtas (90% das apresentadas nesse programa inaugural estavam longas DEMAIS, o que compromete o humor. Sabem aquela história de timing cômico? Então, a galera do SNL Brasil não sabe!), e tentar utilizar a versão original do programa apenas como inspiração, fazendo esquetes mais próximas à nossa realidade social e cultural… Já fizeram uma afronta à obra de Mr. Michaels mesmo, não seguir fielmente vai ser até uma forma de se redimir por utilizar (erroneamente) o nome original.
Observações Finais:
– Marcela Leal é ótima. Aos que continuarem assistindo o programa, fiquem de olho nela… Se Rafinha Bastos souber utilizar o talento da moça, alguma coisa vai se salvar nesse SNL que está fadado ao fracasso.
– Fiquem de olho também em Fernando Muylarte e Anderson Bizzocchi. Ambos tem uma boa história no Stand Up, mas só serão testados mesmo agora. Tenho confiança que também mandarão muito bem.
– Querem ver a verdadeira versão brasileira do SNL (ou a que mais se aproxima, na verdade, já que, como afirmei, o Brasil não é capaz de produzir um SNL)? Assistam ao Comédia MTV. Não que eles sejam geniais ou o programa mais engraçado do mundo… Mas sabem brincar com pequenas esquetes sendo genuinamente brasileiros.
– Rafinha Bastos é autodestrutivo. Então, mesmo tendo se controlado nesse programa inaugural, com certeza ele vai pesar a mão e começar a disparar ofensas gratuitas futuramente, então, só espero que isso não tenha reflexo na carreira dos bons comediantes que ele conseguiu convencer a integrar o elenco do programa.
– Se a RedeTV for inteligente, leva o programa para o seu devido lugar: o sábado a noite. A concorrência com o Zorra Total é muito melhor do que bater de frente com o Pânico… Mas a RedeTV não é inteligente, então, vamos só esperar o fracasso total do SNL Brasil.
– Repito: DIMINUAM O TEMPO DAS ESQUETES. Muitas delas tinham boas ideias, mas foram prolongadas demais.
– O SNL Brasil pode ganhar uma sobrevida se conseguir trazer apresentadores convidados interessantes, mas a chance disso acontecer é mínima, o que é uma pena.
– O mesmo comentário acima vale para a atração musical da semana. O programa já estreou com a desconfiança do público e da crítica… Trazer Marina Lima demonstrou que nem mesmo uma Banda Calypso da vida quis seu nome associado a ele. Foi vergonhoso para o programa, foi vergonhoso pra ela… A estreia poderia muito bem ter ocorrido sem a cantora, que em nada acrescentou e só afastou mais o público, nas suas “apresentações”.
– Outra dica é para apostarem mais nos quadros ao vivo. O ‘Live’ não está no nome do programa a toa, e alguns bons momentos desse programa de estreia vieram das esquetes ‘ao vivo’. Os cenários deixaram a desejar, é verdade (afinal, é a RedeTV), mas o timing cômico dos humoristas estava bem mais afiados nesses quadros.
– Por fim, vamos ver a repercussão dessa estreia para a RedeTV: o programa tinha como objetivo substituir o Pânico. Na qualidade, não conseguiu. Na audiência, perdeu feio (teve picos de 2 pontos durante o genial primeiro bloco, mas depois caiu pra 1 ponto, e ficou nesse limbo), mas em faturamento teve sua única vitória, já que todas suas cotas de patrocínio já foram vendidas pelos próximos seis meses, o que ficou claro pela quantidade de merchan desse episódio.
– E não é que o “Weekend Update” (quadro mais tradicional da versão americana) tupiniquim ficou até bem bacana? Mais uma vez teve um erro de duração – a piada com o Cirilo vivido pelo ótimo Marco Gonçalves durou um pouco mais do que precisava – mas no geral, pegou bem a ideia original e a executou de maneira satisfatória.













