
“A vida não tem graça sem riscos”.
Spoilers Abaixo:
Em certo momento do episódio um dos principais personagens da série diz a frase que abre esta review, o que se mostra completamente irônico, uma vez que acompanhávamos esse mesmo personagem chegar ao fundo do poço unicamente em razão dos riscos que correra. O que eu não sabia, até aquele momento, é que este também era o lema da Pindorama Filmes, que produz a série hoje exibida pela HBO.
Digo isso porque este primeiro episódio adotou um ritmo tão lento na apresentação dos personagens, que os telespectadores mais exigentes de ação e emoção com certeza abandonaram o barco antes da metade do episódio, ou até mesmo dormiram.
Foi uma decisão inteligente e muito interessante do roteiro deste primeiro episódio, apresentar o caos em que se encontrava a vida do protagonista com uma tranquilidade que só mesmo o clima praiano poderia explicar, afinal, com a vista que João Velasco tem de seu apartamento, seria impossível encarar sua ruína de outra forma senão como nos foi apresentado.
A trama da série, por sinal, por mais simples que seja, é de uma preciosidade absurda, sendo capaz de prender qualquer tipo de telespectador, desde que bem executada. A história narra, basicamente, a vida de João Velasco (Leonardo Franco), um megaempresário que, após perder o emprego e entrar em estado depressivo, resolve investir em um novo negócio informal nas praias do Rio de Janeiro, lidando com todo o tipo de pessoa que por ali passa todos os dias, ao mesmo tempo em que lida com os problemas de sua própria família, composta pela esposa, Maria Izabel (Paloma Riani), e seus dois filhos Fred (Hugo Bonemer) e Manu (Jéssika Alves).
Portanto, este primeiro episódio tinha duas funções primordiais: a primeira delas era apresentar a base na qual será construída a história pelos próximos 12 episódios – o que foi feito de forma magnífica -, e a segunda função era apresentar seus dois protagonistas, ponto no qual o roteiro obteve apenas um parcial sucesso.
Como já antecipei, a primeira função deste episódio foi cumprida de uma forma que poucas produções – inclusive as americanas – conseguem fazer: criar uma base na qual será desenvolvida a trama que se pretende apresentar, fazendo isso de forma sólida. E foi exatamente isso que acompanhamos durante todo esta premiere. A forma como retratam o caos em que se encontra o protagonista de uma maneira tão impessoal foi, provavelmente, o melhor do episódio. Afinal, desta forma, acompanhamos diferentes momentos da vida de João, de forma a entender o que se passa por sua cabeça, o que vai ser fundamental para compreender seus próximos passos, nos próximos episódios.
Abro um parêntese para chamar atenção a um recurso interessante, que foi a forma simplória que arranjaram para nos mostrar quando estávamos diante do presente, e quando tal cena se tratava de flashback, unicamente prestando atenção ao fato de João ter ou não barba, o que se mostrou essencial, uma vez que uma narrativa linear não teria tido o mesmo impacto que teve esta narrativa adotada.
Chegamos então à segunda função deste episódio: apresentar seus protagonistas. E de antemão, já afirmo que, no tocante ao personagem de Leonardo Franco, a série obteve parcial sucesso, não sendo sucesso absoluto unicamente por uma questãozinha técnica incômoda. Mas no geral, a forma como nos foi apresentada a história do protagonista, desde a cena inicial deste primeiro episódio, nos colocando no ponto de vista de um mero expectador, pelos olhos de João Velasco, foi excelente.
O empresário passou por toda a turbulência de sua “demissão” de duas formas que ofereceram à série uma infinidade de possibilidades: em um primeiro momento, ele se dá ao direito de ser um mero voyer do ambiente que o rodeia. No momento em que sua vida passa a não ter sentido ele começa a assistir a vida acontecer ao seu redor, do alto de sua luxuosa cobertura na Vieira Souto, como quem assiste a um espetáculo popularesco na televisão, se tratando, na verdade, de uma clara crítica à elite brasileira, que foi completamente reproduzida na nada incomum família de João.
Quando acompanhar a vida passar na frente de seus olhos não mais preenche seu vazio, João então parte para um segundo momento deste seu “luto”: as caminhadas pela orla. Aquele voyeurismo que tomou conta dos minutos iniciais do episódio dão espaço, então, a belas cenas externas onde podemos ver com mais clareza a infinita fauna carioca, o que dá abertura ao terceiro ato, no qual nosso protagonista finalmente sai da inércia e traz de volta seu olhar empreendedor para se unir ao seu novo e surpreendente sócio.
E é exatamente este novo sócio de Velasco o segundo protagonista de nossa trama, que teve tanto destaque no episódio quanto o próprio João. Aliás, ouso dizer ser esta personagem até mais importante que o próprio João durante o episódio. Me refiro, logicamente, a nossa conhecida Cidade Maravilhosa, que divide os holofotes de Preamar com João Velasco e, sem a qual, essa seria apenas mais uma história qualquer. Preamar surge na HBO exatamente para nos mostrar a relação de Velasco, um falido megaempresário e pai de família, com as praias da cidade que acompanhou sua ascensão e queda.
Em dado momento vimos em uma manchete qualquer de um jornal que as praias do Rio de Janeiro têm um rendimento anual de mais de 7 bilhões de reais, o que deveria chamar atenção de qualquer investidor de grande porte, mas não acontece quando estes apenas olham as paisagens como se fossem algo distante enquanto se dirigem aos seus luxuosos escritórios em suas confortáveis Mercedez.
E Velasco, que sempre se orgulhou de ser um investidor de risco com fontes quentíssimas não havia reparado que seu maior investimento estava bem diante da vista de seu apartamento até ser obrigado a, literalmente, se atirar ao mar para fugir de uma tempestade pessoal que ameaçava tudo o que construíra.
Portanto, é de maneira poética que, em sua cena final, Preamar permite que Velasco se jogue ao mar, se entregando aos braços de seu novo sócio, unindo assim esses dois protagonistas que estavam separados unicamente por ironias do destino.
Não posso finalizar este post, entretanto, sem falar dos defeitos deste primeiro episódio. O balanço final foi positivo e a forma escolhida para desenvolver este episódio introdutório, como já deixei bem claro, foi genial. A diferença aqui reside na idéia e na execução desta.
Muitas falhas técnicas atrapalharam o desenvolvimento do roteiro que, por si só, já não era muito bom, mesmo partindo de uma boa idéia. Os diálogos, como um todo, eram fraquíssimos, mas os de Velasco com sua mulher e, principalmente, aqueles mostrados entre ele e seus sócios do banco, eram absurdamente inverossímeis, ou seja, completamente impossíveis de se acontecer “no mundo real”, o que prejudicou um terço das aparições do protagonista no episódio, só sendo equilibrado graças às geniais sequências em que este apenas observava o mundo a sua volta que, por coincidência ou não, não tinha falas.
Esse defeito, predominantemente técnico, mas evidentemente incômodo, não comprometeu o resultado final do episódio, mas, se a qualidade do texto não evoluir nos próximos episódios, onde a série pretende abordar temas polêmicos como as drogas, a homofobia e a prostituição, o resultado poderá ser catastrófico. Torço, de antemão, que nada disso aconteça, pois como já falei, a ideia apresentada é genial, e seria uma pena vê-la afundar nas praias do Rio de Janeiro unicamente em razão de uma má execução pela equipe criativa por trás do projeto.
PREAMAR, nova série da HBO, é produzida pela Pindorama Filmes e foi criada por Patrícia Andrade, William Vorhees e Estevão Ciavatta, que também dirigiu este primeiro episódio. Sua Primeira Temporada terá um total de 13 episódios sendo exibida às 21hs de Domingo, antes de Game of Thrones.




















