Um começo cambaleante.
2014 foi o ano da Netflix. 2013 foi o momento do serviço de streaming estourar na indústria e para o público: tivemos House of Cards e Orange Is The New Black, a entrada nas premiações e, principalmente, a quebra da lógica conservadora de que produtos televisivos de qualidade somente poderiam ser encontrados em canais de TV. O que tornou o presente ano especial para a empresa foi o fato de que ela consolidou seus projetos: não, as primeiras temporadas de seus dois grandes sucessos não foram acidentes, o ano de seguinte de cada uma segurou a qualidade ou, até mesmo, avançou. Por outro lado, havia a questão de expandir seu catálogo, afinal, como o AMC está descobrindo por agora: não é possível depender de dois ou três grandes sucessos eternamente, é necessário procurar e apresentar novos produtos. Percebendo isso, vimos o alastramento da Netflix pela fatia de animação adulta (Bojack Horseman), de stand up comedy (com Chelsea Handler) e de séries históricas e épicas, Marco Polo.
Marco Polo foi um projeto complexo de ser concretizado. Para começar, a série seria do canal Starz, no entanto, devido a problemas de logística, o canal acabou abandonando o barco e a Netflix o assumiu e mudou as locações da China para a Malásia. A história, como descrita pelo chefe executivo do serviço de streaming seria “uma trama atemporal sobre poder, aventura, traição e luxúria com fortes elementos narrativos e muita ambição cinematográfica”. Mesmo assim, ao longo de 2014, não houve o burburinho real e a expectativa significativa por parte do público. No entanto, tudo mudou quando o trailer foi revelado: até mesmo os mais descrentes e os haters tiveram que admitir que ficaram empolgados com o que tinham visto. Não havia somente a escala épica, mas também uma ninja-samurai pelada fazendo acrobacias com uma espada e a insinuação de toda a luxúria e aventura que tinham sido prometidas. E, assim, lá fui eu assistir o primeiro episódio da série de braços abertos, preparado para encontrar duas possibilidades: algo de qualidade ou uma porcaria completa. Marco Polo, curiosamente, não se encaixou em nenhum dos casos.
A primeira coisa que deve ser anunciada sobre a nova série é que, tecnicamente, ela impressiona. Os figurinos alcançam um patamar quase ridículo de luxo: a cena em que entramos pela primeira vez no salão central de Kublai Khan foi, de fato, de fazer os olhos brilharem. Ali não vimos somente o belo desenho das vestimentas, mas principalmente a inteligência em insinuar a diversidade de etnias (e, consequentemente, de interesses dentro do império de Khan) e a forma ameaçadora que aquele luxo esmagava a simplicidade dos mercadores latinos. Por outro lado, a maquiagem pecou ao expor, em vários momentos com bastante clareza, a cola usada para montar o penteado do rei. Os cenários apresentados exalavam um cuidado louvável com detalhes: o salão principal do rei intimida com a amplitude e os belos desenhos espalhados ao longo dos pilares e do mural atrás do trono; o local em que Marco é treinado pelo seu mestre cego transborda simplicidade (mas deixa sua identidade própria exposta nos padrões geométricos das janelas); e eu não poderia deixar de elogiar a caracterização mais realista da embarcação em que o protagonista e seu pai viajavam, afinal não vimos nada imponente ou amplo, uma vez que no período histórico em que a série se situa não haviam as grandes embarcações modernas que estamos acostumar a ver.
No entanto, não vivemos unicamente da estética em projetos, o coração de toda e qualquer série está em sua história e a forma como ela é contada e esse é o ponto em que Marco Polo peca constantemente. Diante da necessidade de impressionar o público e fisgá-lo rapidamente, os primeiros dez minutos da série atropelam várias informações ao mesmo tempo. E esse atropelamento de informações gera um erro grave na lógica narrativa do episódio: o longo flashback que apresenta a relação do protagonista com seu pai deveria ter sido, na realidade, o início da história, pois ali acompanhamos o desenvolvimento do relacionamento fraternal. Se feito dessa forma, por exemplo, o momento em que Marco é entregue a Khan poderia ter alcançado o alto patamar de importância que foi tentado. E, para piorar o ritmo da primeira metade do episódio, depois de o pai anunciar que ia voltar para buscá-lo no reino mongol, o flashback se tornou desnecessário: já sabemos que aquela tinha sido uma ação racional e que havia o laço entre ambos, então para quer acompanhar dez minutos de cenas em que vemos a construção da relação entre ambos?
Tirando essa questão da ordem dos fatores, outro ponto negativo do episódio foi a sua insistência em ser épico a qualquer custo e, para tal, a fotografia apresenta planos abertos constantemente. Não que apresentar a escala do ambiente e da situação seja um erro: de forma alguma, no entanto martelar isso repetidamente não impressiona, na verdade cansa. Além disso, fomos apresentados a vários personagens e a subtramas com disputa de poder. E a prova da falha na execução desse aspecto foi o fato de que, ao fim dos 50 minutos, eu não me lembrava do nome de nenhum personagem além do rei e do protagonista, muito menos conseguia me lembrar adequadamente qual figura tinha realizado determinada ação e qual a função de cada uma daquelas peças no contexto total da história. Se você, por exemplo, já assistiu House of Cards, você terminou o primeiro episódio sabendo quem era Zoe Barns, Frank Underwood, Claire Underwood, Douglas Stamper, Peter Russo e o mais importante, qual a função de cada um na trama. Isso é fundamental para nos dar um senso de expectativa em relação à história e nos aproximar dos personagens, por nos entregar a oportunidade de criarmos diversos cenários para seus rumos na série.
O mais curioso em relação a Marco Polo, no entanto, é o fato de que, apesar de todos os problemas, a série me cativou. Há tantas possibilidades de colocar a série no rumo certo e tantos caminhos que a história pode seguir que eu simplesmente me peguei com vontade não de abandonar o barco, mas sim seguir em frente para verificar se a série aprenderá com seus erros e ajustará seus problemas. Afinal, se tem uma coisa no mundo das séries que todos nós sabemos é que até os projetos mais insossos podem se tornar grandes histórias quando não se tem vergonha e arrogância de olhar para trás e buscar consertar os erros. E, assim o que me resta é maratonar a série para descobrir quais são os planos de Khan para Marco Polo dentro de seu reino.
P.S.: não sei se fui o único que teve essa impressão, mas a sequência final em que várias tramas paralelas dividem a tela foi totalmente aleatória. Poderiam ter encerrado cada trama em separado e evitado a bagunça desconexa que ficou.
P.S.: não basta ser mestre de artes marciais, tem que saber lutar contra a cobra.
P.S.: simplesmente linda a abertura da série.















![Marco Polo 2×10: The Fellowship [Season Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2016/07/c649694322-218x150.jpg)