Marco Polo, em sua primeira temporada, compartilhava muito do gênero Western na construção da narrativa. Na verdade, uma espécie de corrupção do gênero (vamos chamar de “Eastern”), já que iriamos ao Oriente é não ao Oeste típico das aventuras dos cowboys. Mas, certos paralelos estavam ali: mongóis – índios, oeste – leste, choque de culturas, o estranho sendo aceito na sociedade “primitiva”, nada que já não tivéssemos visto nos cânones do gênero mor americano (se você ainda tem dúvidas, preste atenção aos acordes dos créditos de abertura). Nessa segunda, porém, a série abandonou o deslumbre da descoberta do novo e adentrou a fundo nas intrigas palacianas, ganhando contornos das melhores tragédias shakespearianas, colocando os personagens em encruzilhadas narrativas entre escolhas onde nenhuma das opções tem um final satisfatório.

Kublai Khan é uma figura curiosa. Sua função na trama pode muito bem ser definida como um gráfico de onda, com altos e baixos definidos. É verdade que mesmo assim, como uma força a ser temida o Khan é uma figura facilmente influenciável. Desde o debut da série foram várias as figuras que sussurraram em seus ouvidos os ditames de assuntos importantes do império. A resignação de ter de agir sob as regras na votação do “Kurultai” é um que foi a duras penas colocado em ponderação, mas no final das contas aceito. O problema é que a aceitação veio num momento em que todos os inimigos já tinham se adaptado ao modo violento do Khan. A traição de Ahmad, que poderia muito bem ser uma adaptação sutil e com mudanças de gênero de Rei Lear, poderia ter sido amenizada se os conselhos de Polo e outros tivesse sido aceito no tempo certo. O problema do Khan é demorar em processar os fatos, na esperança de que sua posição por si só rebata as adversidades.

Assim, quando o momento é propicio, os revezes chegam em torrentes. E no meio de tanto caos acumulado o surgimento de ações impensadas é inevitável. Sabíamos que no prospecto de todos os atos de Kaidu até a finale que ele não ganharia a eleição sozinho, principalmente depois do ataque à aldeia de um dos clãs usando o manto do Khan como disfarce, mas com a ajuda de Ahmad e a influência inefável de sua mãe ele jogou a carta dos herdeiros ilegítimos, dando início a uma sequência de ações que fariam inveja a qualquer Hamlet.  Renegar Polo pelo fator da aparente “traição” e ser o mesmo Polo o salvador de sua vida, matando Kaidu. Enviar Jingim, Cem Olhos e Byamba para dar cabo de Ahmad e ter o prazer arrancado de suas mãos pela irônica virada do destino chamada Mei Lin e a traição cometida por Chabi, na criação dos herdeiros.

Citando Hamlet, Ofélia era uma personagem que por amar demais o personagem título, acabou enlouquecendo e se suicidando numa lagoa. Semelhanças com a história de Kokachin não foram mera coincidência. A personagem vinha sendo dividida entre duas vidas distintas desde a chegada em Cambulac e com o plot dos herdeiros o que era mera conjectura, chegou ao ponto de dupla personalidade. A resignação da “Princesa Azul” perante seu destino nas mãos da Imperatriz Chabi talvez seja um dos momentos mais dolorosos dessa finale. Presa num vórtice de intrigas, ela como inocente é que acabou pagando o “pato imperial”.

E no final de tudo isso, ainda temos a inclusão do fantástico na narrativa. Apesar de todo o misticismo latente (os rituais e tradições praticados desde o início da série), a trama não tinha inserido nada realmente mitológico até então. No episódio quatro, na conversa entre Nayan, Niccolò e Gregório X sobre a salvação do príncipe mongol no deserto por uma figura misteriosa, que se move com um exército sem ser vista e ajuda os “fiéis” em momentos de necessidade, parecia algo da imaginação de Nayan. No entanto, com a cold opening onde Niccolò é resgatado no deserto assim como a história de Nayan e as vilas mongóis que são misteriosamente obliteradas do mapa, podemos confirmar que contaremos com Preste João na trama daqui em diante.

Com um finale anticlimático até, deixando cliffhangers poderosos para a eventual ventura de uma terceira temporada, Marco Polo arrisca em deixar o espectador com uma resolução poderosa, mas com novas tramas abertas em modo tão visceral que será impossível saber para onde os roteiristas irão a partir dali sem que muito seja feito em prol da coesão e da habitual manutenção da qualidade já atingida. E com o parto que foi a execução dessa segunda temporada, as incertezas de se sairia ou não do papel, terminar a temporada de tal modo é um passo arriscado, digno de um Khan, mas muito arriscado. Resta esperar para saber o que Tengri e a Netflix decidem. E que nossa jornada, desse lado daqui das telas, comece novamente.

Bayartaj!

PS 1: Para quem se pergunta até agora o que significa bayartaj: Até logo;

PS 2: Preste João é uma figura lendária, com status quase mitológico, na Idade Média. Dizia-se que era um homem virtuoso e generoso, soberano de um reino magico, sem localização definida. Muitos exploradores e aventureiros tentaram ou clamam ter encontrado tal figura. Alguns relatos sugerem que ele fosse o Imperador da Etiópia e o próprio Marco Polo deu sua versão da história, no Livro das Maravilhas, creditando tais façanhas a Wang Khan (ou Ong Khan), do ramo Turco Mongol. O cristianismo professado aqui é do ramo Nestoriano, advinda da cisão cristã em Constantinopla;

PS 3: Quem tem curiosidade para saber como a abertura foi feita, a equipe de designers da The Mill mostra o passo a passo do processo e é muito interessante;

PS 4: Khutulun é agora a única pessoa viva a saber o segredo de Kokachin, além do Khan, Chabi e Polo. Não queria estar na pele dela;

PS 5: E um grande obrigado a quem acompanhou essa maratona até aqui, assimilando as nuances culturais que a série apresentou em seus episódios. Até a próxima!

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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.