Ambíguo, frio, distante e cru. Just like Mia.

Spoilers Abaixo:

Não foi fácil lidar com o piloto de Hit & Miss. Mesmo tendo visto duas vezes, ainda não sei bem o que acho dele. Sua natureza é tão indecifrável quanto à dos transexuais que ele representa, e talvez toda essa ambiguidade seja proposital, já que esse primeiro episódio passa metade do tempo sendo previsível e a outra metade, sendo estranho.

Previsível como são os seres humanos, devemos dizer. As ações escolhidas para nos apresentar Mia, a transexual assassina, estão longe da originalidade e partilham do clichê que é a própria vida. Desde o momento de sua primeira apresentação até o final, o que vemos é uma série de recorrências de gênero, mas que se formos parar pra pensar são justificadas pelo enredo.

Não foi a primeira vez que vimos uma mulher se revelando a autora de uma execução enquanto passa batom nos lábios. Nem a primeira vez que uma personagem sexualmente relativa vai a um bar provocar os moradores de uma cidadezinha de interior. Já vimos filmes e séries sobre isso aos montes. Claro que o roteiro poderia ter optado por outra direção, mas eu compreendo as decisões de manter as coisas assim. Toda a previsibilidade humana das cenas sobre Mia conquistando aos poucos seu lugar vão ficando perdoáveis diante da estética. Essa sim, muito estranha.

E o tempo todo no episódio o clichê e o inesperado caminham juntos, um depois do outro, como parte do conflito biológico em que se encontra a protagonista. Pensamos na obviedade da cena do batom logo depois do crime, mas imediatamente o corpo nu de Mia entrega o compromisso com a realidade. Já esperamos que ela vá espancar o grosseirão do bar, mas não que vá incitar a violência ao filho. Ir ao bar faz parte da cartilha hollywoodiana, mas aparecer cantando grotescamente sob uma luz azul, não.

E esse desconforto está presente em cada quadro. As escolhas de câmera são trabalhadas, ansiosas por uma beleza advinda da realidade. As movimentações são lentas, não há cortes bruscos, e as tensões parecem todas abafadas, como num tiro através de um travesseiro. Existe uma falta de envolvimento na narrativa que pode prejudicar a relação com o espectador, mas que confere elegância ao episódio. É como eu disse antes, tudo é estranho, desconfortável… E exatamente por isso, correto. Assim como uma mulher presa num corpo masculino, temos uma série previsível, presa na estética de um filme independente.

Vale citar as semelhanças com o filme Transamérica. A interpretação de Chloe Sevigny parece flertar com as escolhas de Felicity Huffman, mas não tem a mesma sensibilidade. Estamos falando de uma assassina profissional – principal diferença entre os dois – e talvez por isso Chloe estivesse escolhendo ser mais durona. O fato é que por enquanto ela não diz a que veio, se limitando a olhares e gestos que já fazem parte de seu cardápio desde Kids.

Tivemos um bom final. John pode ser um bom vilão, Riley pode render também, e já temos até um romance se anunciando. Ainda acho que com tantas características recorrentes, Hit & Miss vai precisar caprichar mais no texto se quiser fazer a diferença. De todo jeito, a série despertou meu interesse e espero que a porção criminosa de Mia sirva pra movimentar a personagem para além da vitimização habitual desse tipo de narrativa.

“Se nada nunca mudasse, não existiriam as borboletas”.

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