
Matar é o mesmo que morrer.
Spoilers Abaixo:
Um dia alguém adentra a porta da sua casa, ou te aborda na rua, ou mesmo pode vir a acontecer quando seu telefone toca. A morte não precisa nem ser de alguém que você conhece. Pode ser só um corpo estendido no seu quarteirão, ou no meu caso, um cadáver ensangüentado na calçada. E que me fez, aos 11 anos de idade, ficar isolado dentro de casa, até que ele fosse removido e tudo fosse arrumado.
Naquele dia na minha casa, só se falou de morte. E quando nos deparamos com a morte, é o que costuma acontecer. Os pensamentos vão todos para isso… E se fosse eu? E se fosse alguém que eu amo? O que ele pensou no momento final? Será que ele viu alguma coisa do outro lado?Pressentimos a morte quando ela se aproxima? É sempre assim… Ninguém sai ileso do vislumbre da morte. Nem quem morre, nem quem vê morrer, nem quem mata.
Mia estava indo muito bem até a morte de John. Não que ela não o quisesse morto, muito pelo contrário, mas as circunstâncias abalaram a já frágil estrutura familiar onde fora inserida. Mia não reage mais emocionalmente à morte, mas sem que perceba, esse conceito fúnebre é o que a ronda o tempo todo, já que nem mesmo suas fantasias maternas existem sem os adornos de sua “profissão”.
Aliás, o conceito materno reforçou as já habituais síndromes de ambigüidade do programa. Enquanto Ryan e Leone festejam a presença pseudo-maternal do tio, Reily limpa o sangue do pai de seu filho. A alternância é assumida, e as simbologias continuam rondando o episódio inteiro: Mia mata alguém que prepara um corpo morto, e logo depois adquire um acessório que a faz parecer alguém que gera a vida e não que a ceifa. Mia entra na casa de John para plantar a inocência de um outro crime, mas acaba vendo o parto de um pedaço de seu algoz.
Hit & Miss continua ótima. Se não por todas as analogias possíveis, pelo competente senso de narrativa. Temos sexo para os que querem sexo, tiros para os que curtem tiros e sangue para os que “bebem” com os olhos. Temos romance e emoção, tudo untado com a imprevisibilidade do universo bizarro.
Como o picadinho de John, que foi à altura de um belo torture porn. Tripas, mãos, pernas e cabeça pra quem quisesse ver. Mia não é boa em desovar corpos, até porque sua especialidade mesmo é apertar o gatilho. Comprometeu-se mais ainda com Eddie e anunciou o fracasso dessa relação. Aliás, ainda precisam dar conta das motivações dele. A insistência de Eddie em fazer parte da vida pessoal de Mia não faz muito sentido pra mim.
Já a relação entre ela e Ben só fica melhor a cada semana. Ben continua num conflito de gostar dela, mas não conseguir lidar com a informação de que ela foi homem (capaz até de engravidar alguém). A paternidade de Ryan fez com que ele regredisse um pouco, mesmo que já esteja claro que ele está muito envolvido e que a dualidade da sexualidade dela o atraia imensamente.
Não sei o que achei do rompante de Mia perante a informação de que ele tem saído com outras pessoas. Chorar e sentir esse evento, que nem pode ser chamado de traição, é algo que acho que Mia fingiria em nome de suas fantasias, muito mais do que tornaria um problema. Seria mais como ela faz com a barriga. Mia entende os limites e problemas que envolvem um heterossexual estar transando com ela, ela é inteligente e esperta o suficiente pra perceber isso. Claro que as escapadas de Ben a magoariam, mas não entendo como ela pode esperar criar modelos de comprometimento assim tão rápido.
Temos bons cliffhangers para o último episódio. E só lamento ainda mais que já estejamos no fim. A promo do season finale misturou uma série de elementos impactantes que unidos à cabeça de John, podem transformar essa despedida num verdadeiro evento.
Infelizmente, não é possível vislumbrar finais felizes. São vidas cercadas de morte e pesar, e todos – não só Mia – fingem que não existe um certo tom de prenúncio naquela existência tão nublada. A beleza em Hit & Miss está implícita tanto para nós (que vemos lindos quadros visuais servirem de fundo para tragédias e ações hediondas) quanto para eles (que festejam sobre um solo que se transformou pelo câncer e pela dor).
Transdetails: A seqüência que revela como Riley atirou em John foi das mais bem feitas da série.
Transdetails 2: Passávamos bem sem aquele sonho de Mia. Meio forçado.












