A arte de abandonar não é ensinada a ninguém”
Não há hora certa para abandonar alguém, e não há hora certa para ser abandonado. Nós até podemos nos enganar, assim, presunçosos, e pensar “agora tudo bem, pode ir embora se quiser”, mas a verdade é que nunca estamos prontos. Queremos sempre mais um tempo, sem sequer notar que quanto mais nos acostumamos com a presença alheia, mais desacostumados ficamos com nós mesmos. Em um relacionamento, nunca haverá um bom momento para desestruturar uma vida que pelo menos um dos dois tanto sonhou — ou a vida que pelo menos um dos dois está tão acostumado que mal consegue se imaginar vivendo outra. O desastre que sempre é o término, o constrangimento de olhar dentro do olho e reconhecer no parceiro a derrota, a desistência, não é uma lição que a vida ensina: cada final é um conto diferente, jamais poderá ser repetido. É nesses momentos que todo ensaio na frente do espelho, todas as palavras treinadas durante o caminho e todo o roteiro tão bem costurado em nossa mente fogem do planejamento e se despedaçam quando o assunto se resume aos dois. A hora certa para nós nunca será a hora certa para a outra pessoa. Mesmo nossas maiores semelhanças com a pessoa com quem escolhemos dividir a vida não nos colocará em seu ritmo. É que cada um tem um ritmo particular e nosso timing, mesmo por dois segundos, estará sempre atrasado ou adiantado se comparado ao outro. Certo é que mulher alguma (cabe-se qualquer gênero, mas vou me restringir à série) está preparada para ouvir que será deixada tão de repente. Certo é que mulher alguma está preparada para ouvir que será deixada, depois de quarenta anos de casada, porque o marido é gay e quer se casar com seu sócio, marido da única pessoa no mundo insuportável o suficiente para você sequer desejar dividir um cômodo.
Netflix, aparentemente, quer um grande e variado catálogo, não permanecendo na zona de conforto que seus dramas lhe proporcionam. Bom é saber que quando o alvo é comédia a produtora também acerta muito bem e nos proporciona mais uma história original, cuja qualidade não demora muito a ser apresentada. Série boa precisa ser boa desde o começo, não é? Precisa ter Piloto apaixonante e nos deixar fascinados pelo resto da temporada, esperando ansiosamente pelas semanas que não passam, ou, nesse caso, por um ano todo até a estreia da nova temporada. Com essa, não há muito que falar além de confirmar o que o trailer já me dizia, mas que eu fingi não ouvir por teimosia: Grace and Frankie é para guardar no coração.
Grace e Frankie são duas mulheres opostas, ricas, mas com personalidades tão diferentes que mal suportam a presença uma da outra: enquanto a primeira é a típica rica, arrogante e esnobe que controla até o que o marido deve ou não comer (que irônico), a segunda é uma senhora hype-paz-e-amor, calma, delicada e amorosa. Durante um jantar com seus respectivos maridos, sócios de longa data, elas ficam sabendo que eles, na verdade, são amantes e pretendem pedir o divórcio delas para se casarem e passarem o resto da vida juntos. Pronto, temos a nossa série. O momento devastador chega bem rápido, logo na primeira cena, e não poderia ser mais cômico e trágico. A série vai ter muito desse agridoce.
Como o título deixava a entender, esse primeiro episódio explora as consequências que esse fim tão repentino e assustador causa a suas protagonistas. Elas não estavam prontas para o abandono. Mesmo com características diferentes, ambas estabeleceram, até então, uma vida prática e confortável; rotineira. Em certo ponto, pouco importa se gostavam ou não de seus maridos, pois o mais vergonhoso e dolorido é ser expulsa da própria rotina. Soa quase como morte, e, em partes, não deixa de ser. São avisadas, sem qualquer advertência anterior, que serão deixadas de lado, não importando o que pensem disso, e que (talvez o pior) envelhecerão sozinhas. Se envelhecer já é tão assustador que pessoas na casa dos vinte (vulgo eu) tremem com a menção desse verbo, é inimaginável como deve ser passar por isso na situação de qualquer uma das duas. Nesse caso, não dá para não ficar com uma pontinha de raiva desses maridos babacas. O cúmulo do egoísmo, para ser politizado.
É um alívio saber que o abandono da série ficou apenas em seu texto, porque todo o resto está bem cuidado e em seu lugar. Todas as quatro personagens protagonistas são bem construídas, e, logo nos primeiros minutos, conseguimos traçar um rascunho de suas personalidades. Os atores não desperdiçam esse bom material em mãos e entregam performances dedicadas e enérgicas. Estão confortáveis em seus respectivos papéis, e o timing cômico do grupo funciona bem junto; a química, por sua vez, é inegável. Ninguém sobra no grupo, ninguém é abandonado pela série, e todos têm pelo menos uma cena que lembraremos após os créditos finais.
Pela nossa experiência de série maníacos, sabemos que muitas comédias, em nome de um bom roteiro, abandonam qualquer vestígio de cômico que poderiam ter. Aqui não é o caso: não só o humor é bem construído, como funciona pontualmente. Não é aquele humor que precisa pipocar o tempo todo. É um humor culposo, daqueles que rimos e depois olhamos para o lado só para ter certeza de que ninguém nos flagrou rindo de tal coisa. Isso porque, pelo que ouvi falar, rir da desgraça alheia é errado. Confirmem-me isso, por favor.
The End cumpre bem sua tarefa de criar empatia entre público e personagens, ambientar bem sua história e preparar terreno para uma temporada de gargalhadas nervosas. Por enquanto, não dá para abandonar essa parceria improvável. Diálogos afiados e momentos divertidos são a cobertura de uma série que já veio pronta para ser devorada como pote de sorvete — sem adicionar álcool, como Frankie aprendeu do modo mais difícil. Um conselho? Deixe seu dia de lado, abandone somente meia hora de sua rotina, e deixe a tragédia alheia divertir você.
ps: A frase que inicia a review é de Clarice Lispector.
ps2: A primeira temporada já está toda disponível na Netflix, assim como suas outras séries. Que tal resistir à tentação de devorar tudo de uma vez e me acompanhar pelos próximos doze dias?






















