Que comece a carnificina.
Fargo é um dos melhores filmes dos Irmãos Coen, cineastas donos de uma carreira brilhante e repleta de obras-primas. Quando houve o anúncio de que seria adaptado para uma minissérie, obviamente diversos narizes se torceram, por conta da crise de criatividade que a TV americana enfrenta nos últimos anos. No entanto, Noah Hawley, showrunner da série, cria uma abordagem que se aproveita apenas da atmosfera de noções distorcidas criada pela dupla de diretores há quase vinte anos. O que cria este belo The Crocodile’s Dilemma, que inicia a curta jornada de Fargo na televisão.
Escrito pelo próprio Hawley e dirigido por Adam Bernstein (Californication, Breaking Bad, 30 Rock), esse piloto narra a história da chegada de um misterioso Lorne Malvo (Billy Bob Thornton) a uma pequena cidade em Minnesota. Lá, encontra Lester Nygaard (Martin Freeman), após sofrer uma curiosa sessão de bullying. Inconformado com a atitude passiva do vendedor de seguros, ele decide ajudá-lo, matando Sam Hass sem grandes floreios, distorcendo tudo que Lester conhece sobre sua vida, passando até mesmo a confrontar pessoas que sempre se aproveitaram dele. Enquanto isso, a determinada Molly Solverson tenta investigar um crime cometido por Lorne, chegando a conexões que podem colocar a situação de Lester em risco.
O que Fargo traz de melhor é sua atmosfera. Repleto de homenagens ao filme que inspira a série (alguns planos chegam a ser idênticos), esse piloto utiliza o mesmo cenário opressivo, completamente envolto em neve, para gerar desconforto no espectador (não é por acaso que há diálogos que fazem questão de ressaltar o frio). Além disso, cria um contraste entre o branco da neve e o sangue quase onipresente, em uma forma quase poética de exaltar a violência quase cotidiana imprimida por The Crocodile’s Dilemma.
Aliás, embora o número de cadáveres seja consideravelmente grande, Fargo é extremamente feliz em se afastar de ser uma experiência capaz apenas de entregar violência gratuita, conseguindo equilibrar o impacto de cada morte com algo que não se torna excessivamente gráfico. Ao mesmo tempo em que não se furta em matar uma infinidade de personagens a bel prazer, algo necessário para mostrar ao espectador a intenção da série com seus personagens principais, mostrando a ele que os perigos corridos são reais.
Para matar tantos personagens, Bernstein confere ao episódio um ritmo incrivelmente fluido, se revelando alucinado no que diz respeito a conduzir e evoluir suas tramas, mas cadenciado o suficiente para não atropelar a apresentação dos protagonistas, criando diálogos capazes de fazer o espectador compreender perfeitamente as motivações tanto de Lester quanto de Lorne. Esse cuidado todo do diretor se comunica com maestria com o que Hawley constrói para sua série. É interessante como o showrunner procura sempre dar importância ao que acontece. Note, por exemplo, como a morte do chefe de polícia ganha um impacto muitíssimo maior pelo fato de Fargo introduzir uma trama envolvendo sua esposa grávida, dando a impressão de que ele não desaparecia já no piloto, além de estabelecer uma certa empatia dele com o espectador.
Mas o que Fargo faz de melhor é tratar seus protagonistas. A começar por Lester, apresentado como um ser humano constantemente diminuído por todas as pessoas em sua vida. Desde Sam, passando por seu irmão e chegando na própria esposa, ele é tratado como alguém desprezível e insignificante. Praticamente tudo que acontece no início de The Crocodile’s Dilemma procura exibi-lo como alguém incompetente. Por isso, o vemos tendo enormes dificuldades para fazer seu próprio trabalho de vendedor, além de sofrer enorme humilhação ao ser bulinado aos 40 anos de idade. Nesse ponto, o trabalho de Martin Freeman é excelente, já que o ator é feliz em conferir a seu personagem uma aura de fracasso e passividade.
Da mesma forma que Billy Bob Thornton consegue criar um personagem sombrio e cativante. Enquanto Lester é inicialmente mostrado como um perdedor, Lorne se mostra implacável em cumprir seus objetivos, o que o episódio consegue mostrar nos primeiros minutos, em que não há um diálogo sequer, revelando a atmosfera de frieza do personagem. É imprescindível que a primeira imagem que tenhamos dele seja de alguém que, mesmo diante de um inesperado acidente, mantém-se ligado ao seus objetivos.
Até o momento em que Lester e Lorne se encontram pela primeira vez. Ali, o segundo se mostra incrédulo com o fato de seu companheiro de hospital não fazer absolutamente nada para se vingar de Sam, oferecendo ajuda definitiva para o novo amigo. Nesse momento, Fargo procura passar ao espectador que Lorne é um justiceiro, incapaz de suportar que pessoas como Sam possam existir. No entanto, ao longo do episódio, podemos ver que o que realmente acontece é que o personagem de Thornton tem enorme apreço pela matança e pelo caos. É o que faz com que ele, mesmo depois do assassinato, ainda busque criar desavenças entre os filhos de sua vítima. Ou quando dá um conselho terrível a uma pessoa apenas para denunciá-la em seguida. Em outras palavras, a série termina The Crocodile’s Dilemma revelando que Lorne é um sádico, mas sua atitude inicial, de ajudar um necessitado, é suficiente para que criemos um certo vínculo com ele.
Por outro lado, Lester é facilmente influenciado pela presença de Lorne. O curioso é que isso toma forma de maneira gradativa e muitíssimo bem conduzida. Assim, o vemos reagindo aos poucos a situações constrangedoras. Se no primeiro confronto ele se revela passivo, quando vê seu irmão o ofendendo ele não se furta a atingi-lo. E, em seu momento mais agressivo, assassina sua esposa com frieza semelhante à de seu novo amigo, além de tomar uma inteligentíssima decisão para buscar escapar da polícia. Dessa forma, Fargo constrói a deterioração de um ser humano de maneira muito semelhante à obra original, e dá a impressão de que seguirá por esse caminho durante toda a sua curta empreitada.
O que torna Fargo uma criação praticamente obrigatória, independente de o filme ter sido visto ou não. Se seguir nos próximos nove episódios com algo nesse nível, será uma obra definitivamente marcante.















