Em uma de suas últimas entrevistas, o cineasta Eduardo Coutinho dividiu o documentário em duas classes: o documentário jornalístico e o documentário pessoal. Enquanto o primeiro se ocupa de militar diferentes visões de um determinado recorte da realidade, o outro orbita pessoas, retratando emoções, circunstâncias e outras coisas mundanas. Pessoalmente, concordo com esta distinção. Mas há ainda outra categoria de documentário, que talvez o grande mestre tenha ignorado, uma que tem ganhado cada vez mais destaque nos últimos anos: o documentário ficcional, ou mockumentary.

A estreia da série Documentary Now!, pelo canal IFC, é a mais recente pá de cal que tem esterilizado o documentário enquanto meio jornalístico, transformando-o em uma estética cinematográfica, e apenas isso. E essa foi a melhor coisa que aconteceu ao documentário.

A transcendência de formato veio para sacudir a chatice que o tal “cinema verité” vinha empurrando goela abaixo das audiências nos últimos 30 anos, transformando o voyeurismo em uma forma totalmente nova (para o grande público, pelo menos) de aproximar o espectador do objeto retratado. Isso vale tanto para documentários que trafegam no limiar da ficção (Searching For Sugar Man, A Marcha dos Pinguins) como para a ficção que apenas empresta a estética documental (A Bruxa de Blair, 7 Days In Hell).

É importante entender essa mistureba para não estranhar o que acontece na tela durante esse primeiro episódio de Documentary Now! Derivado do Saturday Night Live, o programa é uma grande homenagem aos documentários que fizeram história, seja por retratar pessoas interessantes, seja por inovações estéticas ou mesmo pela relevância jornalística.

Os criadores Bill Hader, Fred Armisen e Seth Meyers deixam isso bem claro já no primeiro episódio, “Sandy Passage”, em que parodiam o excepcional (e bizarro) documentário “Grey Gardens”, um retrato íntimo de duas mulheres, mãe e filha, que viveram reclusas por décadas em uma propriedade caindo aos pedaços, cercadas por gatos e guaxinins – e não sendo bizarrice suficiente, eram tia e prima de Jacqueline Kennedy Onassis!

Bill Hader e Fred Armissen fazem uma paródia bastante eficiente do que acontecia no filme homenageado, especialmente quando comparamos a interpretação de Hader com a personagem original, a Little Edie, aqui chamada de Little Vivvy. A performance de Hadder é, mais uma vez, irretocável, em uma atuação ao mesmo tempo assustadora e engraçada.

A direção de Rhys Thomas e Alex Buono também ganha pontos pela eficiência do exercício, e por uma semelhança perturbadora com o documentário original. Por um momento, durante o episódio, eu havia esquecido que se tratava de uma paródia, mas logo o roteiro de Seth Meyers atira alguma situação absurda na nossa cara (a Little Vivvy despencando do sótão simplesmente por ter ficado parada no mesmo lugar!).

A estranheza que já era esperada devido ao material homenageado atinge níveis estratosféricos com o final “Bruxa de Blair”, obviamente diferente do Gray Gardens. Inesperado e genial, a construção gradual da estranheza culmina em uma explosão de gore que estraçalha as expectativas de quem esperava algo parecido com os trabalhos anteriores dos criadores da série.

Com um primeiro episódio bastante promissor, Documentary Now! se mostra um eficiente humor de nicho, um belo exercício de estilo e, acima de tudo, uma excelente homenagem ao documentário enquanto arte, independente de qualquer classificação.

P.S.: Eu não comentei no texto, mas a parte mais assustadora da série é a apresentação dos episódios ser feita por ninguém menos que a Dame Hellen Mirren!

P.S.2: Gostou? Eis alguns mockumentaries um tanto desconhecidos para você se aprofundar no tema: Thing We Do In The Shadows, Eu Ainda Estou Aqui, A Morte de George W. Bush, 7 Days In Hell.

P.S.2: Bill Hader acabou de inventar um novo jeito de se usar calças de moleton.

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