Quando ser sólido e correto vai contra a maré.
Dramas policiais e legais não são nenhuma novidade na TV mundial. Law & Order, Castle, CSI e Criminal Minds são alguns exemplos passados e atuais. Nesse cenário altamente concorrido, para ganhar público e prestígio, os projetos buscam trazer elementos diferentes e aqui destaco como exemplo Damages, que contava com uma protagonista vilanesca e uma estrutura narrativa temporalmente fragmentada. Então, foi uma grande surpresa constatar, ao fim do piloto de Bosch, que os roteiristas optaram por confiar somente na história para conseguir o apoio do público e o consequente sinal verde para a produção da temporada completa pela Amazon Studios.
Bosch conta a história do policial homônimo que, durante uma perseguição a um suspeito, mata-o. Dois anos depois, nós acompanhamos a preparação para o julgamento do caso da morte do suspeito, ao mesmo tempo em que o detetive suspenso (devido ao processo legal em curso) acaba se envolvendo em um caso de um pré-adolescente morto cujos ossos são encontrados por um cachorro em uma colina. Dessa forma, o roteiro abre duas frentes narrativas, tribunal e investigação, no entanto não consegue o mesmo êxito em ambas.
A trama do tribunal não foge do que já vimos em vários procedurals e, até mesmo, o realismo na apresentação dos procedimentos do julgamento soa mais como uma forma de retardar o desenvolvimento da trama do que uma escolha de estilo. Com esse retardo, é deixado um gancho para prender a curiosidade do público para os próximos episódios. Por outro lado, a história da descoberta dos ossos do pré-adolescente morto se destaca por ir se desabrochando aos poucos.
Inicialmente, vemos o doutor aposentado (interpretado por Scott Wilson) identificando um osso de uma criança encontrado por seu cachorro, logo em seguida, ossos das mãos surgem à tona e, posteriormente, sessenta por cento do esqueleto. A criança passa a ser um pré-adolescente que, de tão abusado fisicamente, teve um crescimento ósseo inferior ao ideal. Essa evolução da investigação ocorre paulatinamente, sem pressa, o que, aqui sim, representa uma escolha estilística louvável por permitir que elementos externos interfiram na averiguação policial e tornem-na mais complexa.
Titus Welliver evita transformar o protagonista em uma figura com uma personalidade muito unívoca, então acrescente traços diversos de orgulho, explosão, leveza, solidão e sagacidade à sua composição. Essa escolha impede que Harry Bosch seja um personagem marcante no primeiro contato, mas permite que, em médio e longo prazo, suas facetas sejam acentuadas e a série cresça com isso. O elenco secundário não teve muita brecha para mostrar a que veio ainda, porém acho válido destacar Eric Ladin que, esse sim, conseguiu deixar claro que poderá ser uma pedra no sapato do detetive.
Através de clichês e conservadorismos, Bosch entregou um piloto sólido. Não consegue ser um carro-chefe para a divulgação e o prestígio da Amazon Studios (que quer uma fatia do mercado dominado pela Netflix), mas cumpriu, com competência, a tarefa de me fazer ficar atento e interessado no que ocorreu ao longo de seus 49 minutos de exibição.
P.S.: Dos pilotos lançados pela Amazon para avaliação do público, Bosch é o mais visto e o que tem a maior cotação (5 estrelas de 5).
















