Uma decisão pra lá de arriscada.
Zoe Barnes é o Jesse Pinkman de Frank Underwood. Uma pessoa que estava muitíssimo bem cuidando de sua própria vida mundana e pragmática até que se envolve com alguém inteligente e capaz, mas com sérios problemas de vício por poder. A única diferença – e crucial, neste caso – é que, ao contrário do querido personagem de Breaking Bad, Zoe é quem toma a iniciativa exatamente para fugir da monotonia e tentar alcançar sucesso em sua carreira. É partindo desse paralelo que House of Cards inicia sua segunda temporada, em nível tão bom ou melhor que o excelente primeiro ano.
Após os acontecimentos da primeira temporada, este season premiere nos posiciona diante de um iminente conflito entre Frank e o time formado por Zoe, Lucas e Janine, que buscam a verdade sobre todo o processo que culminou na morte do deputado Peter Russo. Acuado, o futuro vice-presidente manda Doug se livrar de Rachel enquanto ele próprio decide cuidar de Zoe, buscando reatar seu antigo relacionamento profissional para evitar que a jovem repórter continue procurando problemas. Enquanto isso, Claire toma todas as medidas necessárias para que Gillian deixe de ser uma ameaça jurídica, ainda que não o faça de forma ética ou mesmo legal.
O que House of Cards traz de melhor em sua primeira temporada é o fato de mostrar uma infinidade de intrigas políticas dentro do congresso americano pelos olhos de um personagem complexo e muitíssimo bem interpretado por Kevin Spacey. Mas seu segundo ano não poderia trazer as mesmas características, especialmente porque isso insinuaria uma falta de evolução dos personagens e das tramas, e até uma certa enganação ao vermos Underwood sendo indicado a vice-presidência e ainda agindo da mesma maneira.
Para evitar que isso ocorra, a série aborda seu season premiere como uma passagem para um lado perigoso de Frank Underwood. Se na primeira temporada o vimos se livrar de Russo sem grandes remorsos, aqui o vemos implacável em impedir que qualquer um impeça seu crescimento político. É exatamente por isso que o vemos extremamente focado e decidido, se esquecendo até mesmo de suas constantes conversas com seu ego, o espectador. Aliás, a frase proferida por ele ao finalmente se lembrar disso pode até criar uma indesejada artificialidade, mas adequada para ressaltar a felicidade e o alívio de Frank por ter se livrado de uma incômoda pedra em seus sapatos.
Pedra que atende pelo nome de Zoe. E, ao tratar dessa personagem, House of Cards toma uma decisão extremamente arriscada. Matá-la é, sem dúvidas, um ato muito mais cruel e desumano do que quando Frank decidiu eliminar Russo, já que, enquanto um provavelmente o faria em algum momento, a outra surgia enérgica para continuar sua escalada rumo ao sucesso. Tudo isso leva Underwood a um patamar de psicopatia mais elevado, e faz com que o espectador passe a temer suas atitudes, além de provar sua incontestável superioridade, que o diretor Carl Franklin faz questão de ressaltar ao posicionar o deputado de forma ameaçadora diante da frágil repórter, quando os dois conversam pela primeira vez.
Além disso, a cena em que o assassinato ocorre tem como principal função provocar choque imediato no público. Objetivo que é precisamente atingido com a ajuda do agudo e desesperador grito de Zoe pouco antes de ser atingida pelo trem, que ecoa por vários minutos na cabeça do espectador. Um destino certamente trágico para uma garota ambiciosa, cujo único desejo naquele momento era dar uma chance ao homem que, de uma forma ou de outra, a colocou na posição de prestígio em que ela se encontrava naquele momento, sem saber que este se aproveitaria exatamente desse único momento de fraqueza.
No entanto, tirar a personagem de Kate Mara da trama pode trazer seus problemas. Zoe é a antítese de Frank, uma personagem forte e de grande presença, que certamente traria outros problemas a ele, ainda que a série decidisse trazer de volta o acordo costurado no primeiro episódio. Com a saída de Janine, em uma bela cena em que ela revela exatamente o sentimento que Frank desejara provocar com a súbita morte de Zoe, apenas Lucas investigará todos os acontecimentos envolvendo Peter Russo, além de, certamente, a falecida namorada. Evidentemente, o resultado poderá ser ainda mais interessante, desde que o repórter não seja engolido pela trama. Nesse caso, a série certamente tirará proveito do impacto pelo cruel assassinato. Mas há sempre a chance de House of Cards se atrapalhar um pouco tentando trazer algum perigo para Frank. Em outras palavras, caso Beau Willison seja capaz de tirar proveito da situação, o resultado será excelente, mas caso isso não funcione, toda a tensão da série pode desaparecer.
Retornando ao que Frank representa dentro deste season premiere, vemos a trama de Claire ganhar novos acontecimentos. Aqui, a série tem como objetivo revelar exatamente o estrago que Frank provoca nas pessoas, tornando atitudes desumanas, como ameaçar um bebê ainda no útero da mãe, algo simples e corriqueiro. Aliás, é curioso como House of Cards sempre tenta tornar Claire uma personagem detestável para que Frank não soe tão mal, como uma forma de trazer o espectador para o lado do futuro vice-presidente, além de mostrar uma esposa corrompida pela doença por poder do marido.
Diante de todas essas investigações, assassinatos e intrigas, ainda há pessoas que gostem de Frank Underwood. É interessante ver o episódio dando tanta ênfase a um caro par de abotoaduras dado por Edward Meechum (a quem Frank também tenta ajudar exatamente por sua lealdade). Desse modo, a série consegue mostrar os dois lados do personagem. Se por um lado ele parece com um político amigável e capaz de retribuir favores de maneira aparentemente altruísta, por outro se revela uma pessoa rancorosa e capaz de qualquer coisa para se livrar de um mero incômodo, além de não sossegar enquanto não vir um inimigo abatido.
O que, na verdade, não é absolutamente nada diferente dos políticos da vida real.















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