Tem sempre algo quebrado nessa casa”
Bom, lá no ano passado, quando começamos a ver as primeiras movimentações do novo projeto dos criadores de Damages, muitas orelhas de cães-seriadores (me incluo nessa!) levantaram e o faro começou a apurar uma nova estreia para ser aguardada… Daí vieram os nomes importantes no elenco, as primeiras sinopses, os trailers de mais uma produção da Netflix, de ousadia já conhecida… E dia 20/03 ficou realmente marcado na agenda! Procurei não saber nada além daquilo que eles queriam que eu soubesse – só acompanhei seus teasers e fotos promocionais – e, me entreguei de peito aberto, à uma hora de momentos densos e perturbadores, de profunda reflexão. Mas, antes que possa parecer dúbio, isso foi bom. E deu a sensação de que ainda pode melhorar. O que pode vir pode ser ainda mais interessante.
No primeiro episódio, não tivemos a Nova Iorque agitada com tramas e subtramas do mundo jurídico, nem mesmo uma toda poderosa Patty Hewes que mata cachorros e invade casamentos alheios ou uma trama de tirar o fôlego que parece te tirar o fôlego, e ir correndo para o segundo (comparações são inevitáveis). De parecido, ficamos com a história boa e com potencial, e com o flashforward com um cara morto lá no futuro.
Em Bloodline, temos uma família – os Rayburns – como plano de fundo. Totalmente disfuncional por causa de Danny, e pelas mentiras que parecem integrar o DNA desse povo. A mãe que sabe das burradas que o filho faz, mas gosta de tê-lo por perto, os irmãos que não sabem se gostam, mas se defendem, e o pai com suas preferências na prole. A cidade paradisíaca na Flórida, o cenário da vez, contrasta com a densidade das relações daquela família, e nada fica solar durante todo o episódio, apesar da praia estar lá todo o tempo. A ambientação, o figurino, a interpretação ajuda para que o expectador reconheça que aquela é uma família verdadeira e possível. Que de fato pode existir, sem artificialidades.
O episódio de estreia quis nos mostrar como é o funcionamento das relações familiares, do negócio deles, e do cotidiano mais normal, mesmo que num dia de homenagem aos chefes do clã. Se nós conseguimos perceber a normalidade deles mesmo num dia especial – seja no adolescente que não dorme porque está assistindo pornô, no cara surgindo pelado e bêbado no píer pela manhã, ou a mulher que demora pra chegar por causa de uns amassos no carro com o amante – sabemos que é algo “mesmo muito terrível” o que eles vão ser capazes de fazer no futuro, como o pôster nos previa.
Eles são uma família normal, mas acredito que talvez não aguentem a pressão dos problemas trazidos por Danny. Suponho que John – o todo amoroso dos irmãos e cuidador dos problemas – o mate, para não que o irmão não magoe ainda mais a mãe… Será que a mulher prefere um filho morto a um filho atrás das grades? Pode ser uma solução rasa, mas com muitas nuances a ser exploradas. Acho que o roteiro vai ser mais surpreendente do que isso. Talvez o episódio tenha sido muito denso para quem não conhecia o trabalho dos produtores em Damages, mas essa preocupação na construção psicológica de cada personagem me atrai, e acredito que o desenvolvimento deles será ascendente da rotina até o caos – com coerência.
John é da polícia e ele mata o irmão, num futuro próximo. Por enquanto, ele me parece muito sensato para ser tão contraditório. Acredita demais em Danny e em quem o irmão já foi um dia, mesmo sabendo que este cara não existe mais. Enquanto os irmãos acham que Danny pode fazer besteira, ele já está fazendo. Os irmãos estão pensando em dar uma segunda chance, e a “ovelha negra” tá dando motivos de desconfiança para os telespectadores com as mulheres do colar de cavalo-marinho (essa parte eu ainda preciso de mais informações para compreendê-la, confesso), suas conversas com a cunhada cheirando a mentiras e o seu discurso que estava criando coragem para dizer na frente da família toda.
Não se abre mão dos seus – é um valor que parece estar bem nítido na cabeça de alguns Rayburns. Mesmo que algo não funcione muito bem. Mas, não é simplesmente como um ar condicionado que não gela o cômodo, Danny parece trazer muitos problemas para as pessoas a seu redor, do que só calor e suor a mais.
Valeu a pena se entregar para conhecer essa família, e continuarei na expectativa dessa construção aos poucos de conflito me levar ao inesperado. Quero ver até onde os roteiristas serão capazes de levar ao extremo dessas relações. Como disse um dos criadores, a série é como um livro de verão que a cada capítulo a gente vai conhecendo melhor essas pessoas. O bom de estar na Netflix é que o próximo episódio é como virar a página para a parte 2, ou esperar quinze segundos para o episódio começar.
Últimos porta-retratos de família:
– Sheryl e sua inconveniência na mesa do jantar e dançando com o cunhado bem solta foram as únicas e efetivas pílulas de humor do episódio.
– Adoro narração em episódio, quando bem empregadas. John contando a história com uma voz de arrependimento daquilo que fez, ficou muito bom e carrega mais drama para a série.
– Cobriremos essa série em equipe aqui no Série Maníacos. Eu e meus colegas, Daniel Barcelos, Raquel de Meneses e Gladiston Jr nos revezaremos as reviews da primeira temporada para vocês. Todos a bordo?
















