Pela primeira vez, Preacher não decepciona depois de um bom episódio. Pois é, também é estranho pra mim dizer isso. Não parece natural, mas felizmente foi o caso. Na prática, Call and Response foi um ótimo final de temporada, embora a filosofia por trás do episódio seja mais repugnante do que qualquer outra coisa que eu tenha enfrentado esse ano.
Preacher precisou de 10 episódios para se tornar… Preacher. Annville explodiu. Já era. Tirada do mapa. O finale é o início dos quadrinhos. O problema é que toda essa ideia de fazer um ano inicial como uma prequel foi terrível. Nós não nos importávamos com ninguém ali em Annville. No máximo com o Donnie, eu diria. Tirei a Emily dessa lista quando viraram a personagem de cabeça do ar sem razão aparente. Aliás, melhor riscar o Donnie da lista também então, já que foi o mesmo que aconteceu com ele essa semana.
Está bem, hora de respirar. Já estou saindo um pouco do assunto. Eu devia estar falando bem do episódio, não é? Até porque não se preocupem, teve muita coisa boa essa semana. Só que como eu comecei a dizer, toda essa confusão em Annville não tinha motivo para estar ali. A graça de Preacher é justamente a história não nos dar tempo para nos acostumarmos com esse mundo, ela vai jogando uma bizarrice atrás da outra num ritmo completamente caótico. Nós sentimos a energia de cada obstáculo que Jesse, Tulip e Cassidy encontram no caminho. E isso não aconteceu aqui. Nem perto.
Com isso dito, passemos para o que importa: o episódio.
O Bom,
As interações de Cassidy com o xerife Root foram muito boas. A motivação do sujeito foi tão compreensível que nem o Cassidy ficou com ressentimento do coitado. Também deu pra acreditar que o policial descobria que o Cassidy é um vampiro, vide estarmos na era da interconectividade e do conhecimento instantâneo. O que mais gostei foi de nos terem mostrado apenas a primeira e a última vez em que o xerife atirou em Cassidy, mas os copinhos de sangue estarem espalhados por toda a cela. Foi de muito bom gosto e passou a informação da forma mais eficaz possível.
Outra coisa que foi de igual bom gosto foi a contagem até a aparição de Deus. Adicionou um senso de emergência ao episódio e as caixas de texto branco enormes na tela já me conquistaram faz um tempinho. É estilisticamente interessante e me lembra bastante os quadrinhos, além de quebrar um pouco o dramalhão.
Adorei a revelação de que o cara no painel misterioso era a única coisa entre Annville e a sua destruição. Assim que ele apareceu no episódio com toda aquela podridão lá atrás eu imaginei que ele não estivesse administrando o céu e sim o inferno e seria assim que os anjos escapariam com o Santo. Ainda bem que eu estava errado. Foi muito bacana estarem dando indícios da obliteração da cidade ao longo da temporada (mas ainda acho que poderiam ter pontuado melhor isso).
“Vamos usar as mãos de um cara pra ligar pro céu com um telefone e deixar um cara branco com barba decidir!”, disse Tulip, com aquele seu jeitinho de misturar a zombaria com ódio. E com o seu jeito palerma de responder a qualquer coisa, Jesse diz “Nós não sabemos se Deus é branco!”. Não tem mais jeito. O Jesse pode se tornar o cara mais violento e confiante da Via Láctea na próxima temporada que vou continuar vendo ele como um boboca. Mas não se enganem, eu achei o momento bem engraçado e é por isso que ele ficou aqui. Só não foi mais engraçado do que o “Hoje: conheçam Deus. Amanhã: a ser decidido.” no placar da igreja.
Minto, a coisa mais divertida do episódio foi a aparição de “Deus” (que acabou sendo um anjo sendo obrigado a interpretar o criador). O pai da humanidade e de tudo que há atende ao chamado (feito aparentemente através de internet discada) do reverendo e aparece numa projeção de vídeo barata usando uma barba comprada numa loja de 1 real (ou qualquer que seja a moeda no céu). Sério, essa parte final do episódio, com algumas ressalvas, foi fantástica. Não só a sessão de perguntas e respostas com Deus, como também tudo que a sucedeu. O pirralho tirando selfies enquanto a mãe sufocava a irmã até a morte, as garotinhas assassinando o pedófilo que por algum motivo o Jesse tinha deixado livre por aí, o suicídio dos amantes mais cartunísticos do mundo (um nativo-americano e um cara vestido de esquilo)… teve de tudo do bom e do melhor.
Ah, e o Santo aparecendo entre os escombros poeirentos da cidade e dizendo “reverendo” foi empolgante pra caramba!
Mas como eu disse, tenho ressalvas.
O Mau
Finalmente tivemos o backstory completo de Jesse, Tulip e Carlos e se eu já não esperava por nada, ainda assim sai decepcionado. A gravidez foi a maneira mais preguiçosa de criar rancor entre os personagens. Isso porque me recuso a comentar a motivação (ou a falta de uma coerente) do Carlos. Foi não só a parte mais chata do episódio como também a pior escrita. Jesse e Tulip discutem com fervor sobre tirar ou não a vida do traidor até que Jesse começa a espernear no meio do mercado e Tulip vai atrás dele no meio da birra. Ele decide, que vai matar Carlos e ela decide, subitamente, que não quer mais a única coisa que pareceu estar procurando a temporada inteira. Porquê… coisas de roteirista.
Também coisas de roteirista: Emilyzaram o Donnie também. Pelo jeito o Jesse fez ele ver a luz de Deus e da misericórdia e por isso o Donnie e a Betsy resolveram ajudar o reverendo. Tudo isso dois episódios depois de nos obrigarem a comprar que o Donnie não tinha uma forma mais esperta de escapar do controle do Jesse que não fosse se ensurdecendo. Pois é, ficou surdo pra nada. Uma pena, ele estava sendo um dos meus personagens favoritos. Ou melhor, um dos poucos personagens em que eu estava interessado. Mas olhando pelo lado positivo, pelo menos não colocaram ele assistindo A Paixão de Joana d’Arc na TV e tendo um esclarecimento espiritual de última hora.
Fora isso, a única coisa que me incomodou um pouco foram as performances do Jesse e da Tulip durante a chamada de Skype com o falso Deus. Parecia teatro amador do pior nível, principalmente pela relação robótica deles com o espaço.
e o Feio
De feio só as caretas do Jesse mesmo. Como habitual.
… e a sentença é…
Esse tribunal declara o último episódio mais inocente do que quem acha que essa temporada adaptou bem os quadrinhos. Ou seja, inocente pra caramba. Longe de mim ser desonesto e fingir que não me diverti pra cacete. Testemunhar os boatos se solidificando e a turminha de Jesse metendo o pé na estrada me deu um quase-arrepio. Teria sido um arrepio inteiro se não tivessemos tido só quatro episódios bons (“See”, “Sundowner”, “Finish the Song” e o dessa semana), mas o jeito é acompanhar a próxima temporada fingindo que foi a primeira mesmo.
Obrigado a todos os masoquistas que sobreviveram a essa jornada comigo e compartilharam as suas histórias de sofrimento. A gente se vê de novo ano que vem.















