No seu oitavo episódio, Preacher faz uma materialização literal do adjetivo ‘anticlimático’. É difícil de engolir e estávamos todos esperando algo épico, tenho a certeza, mas a culpa é nossa por acreditar. Preacher já marcou como uma daquelas séries que semana após semana promete algo bom e nunca entrega, mas o seu mérito está na sua capacidade de nos enganar. Não tem um golpista mais eficiente na minha grade atualmente.
El Valero não é exatamente um dos piores episódios da temporada. Aliás, eu o acho um dos mais estranhos. De todos os episódios negativos (ou seja, 6 dos 8), esse foi o que teve mais conteúdo. Não foi um daqueles em que nada acontece, muito menos sofreu de falta de material pra fazer um episódio bacana. Simplesmente não disse nada. Não tivemos nenhuma sequência de ação inventiva ou qualquer momento particularmente hilário. O episódio só voltou a nos alertar da dificuldade dos produtores de desligarem o piloto automático (e um que não leva a lugar nenhum, só mantém a existência contínua e insignificante da série).
Preacher está tão ruim que até o retorno de The Walking Dead deve servir pra tirar o gosto amargo que essa série (infelizmente) vai deixar na boca.
O Bom,
O sujeito levando um tiro nos Países Baixos foi bem engraçado. Não me fez perder o fôlego de tanto rir, mas quebrou o gelo. “Tá tudo bem, não dói tanto assim”. O humor da série funciona justamente quando ele pega esse espírito cartunístico, aquela famosa escrita propositalmente disfuncional. Infelizmente, os roteiristas parecem estar escrevendo esse tipo de comédia acidentalmente.
“Você cavou do inferno até aqui?” “Não é tão longe”. Provavelmente as melhores linhas de diálogo da série até agora.
O discurso do Quincannon também foi muito divertido, sempre. Principalmente a parte dos capangas não serem escudos humanos mas tecnicamente serem humanos e estarem servindo como escudo.
A aparição do Fiore e do DeBlanc foi, mais uma vez, a melhor parte do episódio. Matem logo o Jesse e transformem eles nos protagonistas.
Ah, e Stranger Things saiu esse fim de semana. Eu sei que não tem nada a ver com Preacher, mas é a coisa mais positiva que tenho a dizer nessa review.
O Mau
Como já comecei a discutir lá em cima, El Valero é mais um dos episódios a adotar a política do coito interrompido. Eu ainda não entendi se a série tem sido propositalmente ruim. Talvez seja uma coisa bem experimental, sabe? É tudo porco porque a graça está em ser porco. O script é péssimo porque escrever algo decente é muito mainstream. Preacher vai contra uma das leis fundamentais de qualquer tipo de ficção: o seu protagonista não é ativo. As coisas acontecem à volta de Jesse Custer e não por consequência das suas decisões. Todo o arco da ascensão do Odin, por exemplo, no fim acabou não sendo relacionado a Jesse de qualquer modo (e ainda não nos deram uma explicação para a Palavra não ter funcionado nele).
Quando os anjos dizem que Jesse tem o Gênesis há semanas e ainda não fez nada de bom com ele, eles estão certos, mas ainda há mais. A coisa mais significante que o reverendo fez com os seus poderes até agora foi mandar o personagem mais compreensível da série para o inferno. E não porque ele tinha essa intenção, mas por acidente! As coisas vão acontecendo por acidente. Vejam bem, este tipo de gatilho narrativo funcionaria se Preacher fosse sobre um azarado que é vítima do impossível, mas não é essa a história. Até o momento Preacher tem sido sobre Jesse agindo como o típico fanático do Sul dos Estados Unidos e decidindo de vez em quando fazer algo com o seu poder, só pra depois mudar de ideia. E agora eles querem que nós acreditemos que a súbita mudança de espírito do imbecil, de cristão psicótico a “eu vou obrigar Deus a responder por seus crimes”, foi natural em qualquer nível. Err… não foi e só um idiota não conseguiria ver isso.
Esse tipo de coisa raramente acontece. As pessoas não vivem as suas vidas de um jeito até que um evento grandioso ocorre e elas têm uma epifania esclarecedora sobre tudo. Não é assim que funciona, certamente não para um humano. Mas o problema é esse: Jesse Custer não é humano. Tudo o que ele tem feito com a Palavra não é nem remotamente similar ao que um humano faria se ganhasse um poder tão absoluto. Nas últimas semanas tenho apontado, texto após texto, o quão porcamente tem sido a ‘construção’ do personagem. Acredito que já esteja provado que Jesse não é um personagem carismático (ninguém torce para ele aparecer em tela), relacionável (ninguém se vê fazendo as escolhas que ele faz) ou mesmo inteligível (nós não entendemos porque ele faz nada do que faz).
O problema se expandiu ainda mais essa semana: ele é artificial. A aura de proficiência e brutalidade que a série cria em torno dele não é real. Eu não teria medo do Jesse se passasse por ele na rua, porque quando a série tem a oportunidade perfeita de mostrar que ele é um soldado se vestindo de líder religioso, eles jogam ela fora. Nós não vemos Jesse chutando bundas, porque os seus feitos são transformados em comédia (o rapaz perdendo o pinto, por exemplo) e porque a série acha que é competente ao ponto de dizer mais não mostrando do que mostrando. Mas não é! Isso é gravíssimo: em 8 episódios nós ainda não entendemos porque Tulip amaria alguém assim e porque qualquer um na cidade teme o reverendo. Está bem, ele quebrou o braço do Donnie lá no piloto, mas aquele foi virtualmente a única vez que vimos Jesse se impondo. E há precedentes. Eu poderia passar o dia listando personagens que seguem o arquétipo do “pacifista badass”. Pô, o exemplo mais óbvio e recente é o Morgan nas últimas temporadas de The Walking Dead. Por mais que nós achemos o cara e a filosofia dele um saco, nós sabemos (porque já nos apresentaram evidências disso) que ele conseguiria se livrar de qualquer ameaça. Com o Jesse? Ele passou o episódio todo sendo um excelente sniper (supostamente, eu pelo menos não vi) só pra levar uma coronhada que até eu previ. Você não pode pintar o seu personagem como uma máquina de violência e matança só pra depois acabar com o frenesi todo e dizer que shit happens. É desonesto e preguiçoso.
Todo o drama no episódio só mostrou que essa série NÃO sabe fazer drama. A origem trágica do Quincannon foi mais engraçada do que triste; o Cara de Cu voltando como uma alucinação foi estúpido, inútil e previsível; o arco da Tulip se resumiu a ela adotando um cachorro pra alimentar o Cassidy (que poderia muito bem se alimentar de uma das vacas do Quincannon, mas a série quis ser edgy novamente) e chegamos ao preocupante ponto em que a storyline com que mais me importo é a do Donnie.
e o Feio
Será que esse painel de controle fica no céu? Bem que a série podia começar a dar pistas. Não é mistério se não derem pistas, é só mais uma forma de desperdiçar tempo de episódio.
… e a sentença é…
Este tribunal declara o episódio culpadíssimo e o condena a 8-2+16:3-5 décadas vendo o Eugene imaginário beber água. Se vocês estão imaginando porque eu escrevi a pena em forma de expressão aritmética, é porque eu quis seguir a série e complicar coisas simples por nenhuma razão. Nenhuma razão mesmo. Eu diria que temos de torcer pro próximo episódio ser melhor, mas aprendi a minha lição.















