Pose revela que a única escolha possível na relação entre pais e seus filhos gays é a escolha de amar ou não.

Desde que começou, Pose tomou uma decisão a respeito de quais relações familiares iria explorar: as relações entre mães e filhos. Era uma decisão coesa, afinal de contas as casas que dominaram os bailes daquela época eram todas lideradas por mulheres fortes e sem laços consanguíneos com os jovens que abraçavam, sendo chamadas de mães da mesma maneira. Essa decisão de falar sobre as tensões entre mães e filhos gays ou trans é curiosa, porque o caminho mais óbvio seria mostrar como os pais são atingidos por essas mudanças. Ao mesmo tempo, a coisa toda é muito acertada já que reside no afeto materno a grande ternura da humanidade e ao passo em que Blanca oferece-o com todo coração, isso também lhe é negado.

Existe na comunidade gay uma tensão constante a respeito disso. Quem acompanha RuPaul’s Drag Race sabe que grande parte das histórias familiares mais duras tem a ver com mães, embora na sua maioria, as mães sejam figuras acalentadoras. A rejeição existe, é claro. Mas, a memória é parte muito importante do processo de superação desses pesares. Não é coincidência alguma que drags, gays, trans e toda a comunidade, busquem uma referência que ocupe a posição outrora perdida por aquelas que lhes deveriam ter acolhido incondicionalmente. O mais duro para quem foi rejeitado por ser gay ou trans é aceitar que aquele amor que deveria superar tudo, não consegue superar uma expressão da alma.

Assim, pensando nesses desdobramentos, Pose construiu seu quinto episódio em torno das respostas maternas que constituem quem Blanca e Elektra são. Enquanto Elektra já perdeu o contato com a sensibilidade em nome do próprio ego, Blanca está tentando fazer diferente, abraçando os que estão em volta como uma forma de compensar a própria rejeição, que surge no episódio de maneira muito objetiva. Numa espécie de espelhamento social provocativo, lá estão os filhos de Blanca, sendo amorosos com ela, enquanto os filhos de Elektra reproduzem sua arrogância e individualidade, sempre com ironia, cinismo e crueldade. Curioso notar que uma “criação” ainda molda personalidades, seja na idade que for.

Category is… Unconditional Love 

Já é clássico das produções de Ryan Murphy usar flashbacks pequenos que levem o público até uma compreensão de como funcionam as emoções de um personagem. Geralmente esses flashes vem na cena antes da abertura. Aqui vimos Blanca no dia que foi adotada por Elektra. Notem como o roteiro foi esperto e mostrou que quando conheceu Damon, Blanca seguiu os mesmos passos que Elektra: observou, abordou, levou pra comer e depois para casa. Por mais que não concorde mais com os métodos da mãe, Blanca e Elektra estão unidas por uma afetividade que carrega uma formação. Exatamente por isso é que Elektra aceita as indicações de que perdeu-se do caminho materno. Ainda acho que ela não faz certo, mas houve ali algum tipo de ponderamento.

É incrível como a equipe de diretores e roteiristas consegue fugir do apelo sentimentaloide de certas decisões dramatúrgicas. Vista de modo frio, a storyline da morte da mãe de Blanca é uma grande obviedade, que está ali para se correlacionar com o resto do enredo. O momento em que ela se lembra da mãe cozinhando, por exemplo, tem um texto simplório, que parece estar com os dois pés no brega. Porém, quando aquilo se transporta para o presente na cena em que Damon e ela cozinham, de algum jeito as intenções se encaixam e funcionam de um jeito delicado e sensível. É realmente comovente.

Correndo por fora – e meio deslocada do episódio – estava a trama entre Angel, Patty e Stan. É bem evidente que embora Angel esteja certa em se valorizar, o que ela espera do amante é uma imensa utopia. Exatamente por isso, a entrada mais direta de Patty na história fez com que esse embate passasse a ser a parte mais interessante da coisa. É sempre um mistério a maneira como uma esposa vai reagir a uma traição, sobretudo a uma traição nas diretrizes em que Stan traiu. Fico feliz que os roteiristas tenham providenciado um cliffhanger, já que a série precisa de todo apelo possível para continuar no ar. Ela não é uma série de grandes acontecimentos, mas de estudo de personagem. E precisamos de tempo, tempo para continuarmos estudando.

Eu já vi mães humilhando seus filhos gays… Já vi uma mãe entrar na minha casa para dizer a seu filho que preferia vê-lo morto. Minha mãe soube de mim por acidente… Ela leu uma carta onde eu falava sobre o assunto e não me disse nada. Descobri tempos depois, por um parente, que quando ela soube pensou em me expulsar, mas mudou de ideia. Fiquei grato por isso… Alguns anos mais tarde eu saí de casa para morar com um grande amor e foi só aí que falamos sobre o assunto. Ela foi carinhosa e me confortou na minha angústia. Eu tive sorte… Meu amor por ela quase não sofreu arranhões no meio desse processo todo de incompreensão. Nem todos podem dizer o mesmo e é uma pena que alguém que deveria enxergar tão bem as dimensões da sua alma, prefira lutar contra a correnteza, em nome de tudo aquilo que não te faria feliz.

REVISÃO GERAL
Nota:
Artigo anteriorArranha-Céu: Coragem Sem Limite fica refém da obviedade de suas situações
Próximo artigoPose 1×06: Love is the Message
pose-1x05-mothers-dayPose revela que a única escolha possível na relação entre pais e seus filhos gays é a escolha de amar ou não.