Se em 1984, exatos 30 anos atrás, alguém me dissesse que os grandes astros do cinema estariam migrando da TV, em busca de desafios artísticos, dinheiro e consolidação de reconhecimento, eu diria que o mundo estaria de cabeça pra baixo e que a “tela grande” estaria com os dias contados.
Um olhar arguto e pesquisador constatará que o que temos pra hoje no cardápio dos grandes projetos cinematográficos se resumem a reboots, remakes e franquias. Este triunvirato é responsável (faz algum tempo) por quebra de bilheteria e muita ansiedade por seus fãs. Sem contar, que em tempos quentes de internet, onde o campo de comentários se tornou também o termômetro do que pensa o público, o burburinho é responsável pela hype, que vira fato, que vira notícia e até chega aos poderosos homens que comandam as carrapetas do cinema blockbuster mundial.
Quem não se lembra do barulho que a substituição de Christian Bale por Ben Affleck causou à indústria. Eu mesmo levantei a plaquinha de #ExcelenteSQN para uma das piores notícias envolvendo um heroi da qual sou fã. Este “absurdo” foi tão chocante, que milhares de pessoas se mobilizaram tentando convencer a Warner de que isso não poderia acontecer. Fizeram um protesto civil e organizado (um abaixo assinado virtual) quanto à indicação do vencedor de melhor diretor por “Argo” (2012) no Globo de Ouro e ainda tiveram como esperança onanista os vários boatos que indicavam que Affleck poderia ficar fora do papel. Até uma referente e famosa jornalista brasileira caiu no conto do vigário, do padre, do bispo e do papa, ao dizer em primeira mão em sua conta no twitter, que segundo uma das suas fontes, o ator americano parceiro de Matt Damon daria lugar a outro ator.
Este é só um dos exemplos de como alguma coisa mudou no cinema americano, pra falar de cultura pop contemporânea. Se os parágrafos dos magazines destinavam atenção a atores como Jack Nicholson, Dustin Hoffman, Robert De Niro, Robert Redford, Michael Caine e tantos outros oscarizados seres de outro planeta, agora o meme e a discussão está em volta de quem poderia personificar o Homem Morcego no cinema.
O que aconteceu com a telinha neste meio termo? Vamos até um cenário pontual da história da TV, ok?
Sim, LOST foi um dos maiores e estrondosos sucessos da TV, tenha gostado você do final ou não. Com epílogo longe de agradar a maioria, o show com direção de Carlton Curse e Damon Lindelof e um empurrãozinho criativo de J.J. Abrams dividiu a história da telinha. A série saiu dos controles remotos e tantos sites de downloads (uma realidade inequívoca) e foi parar nas horas de almoço da rapaziada, nos fóruns dedicados à série, em matérias de revista como a Superinteressante, nas vozes de artistas brasileiros, virou expressão para significados do nosso dia a dia e quando uma singela série de TV pára a nossa rotina e modifica um pouco do nosso tempo para virar assunto da nossa resenha tem alguma coisa de diferente.
Um parêntese. Uma história para exemplificar o must que LOST foi. Ainda como atração da ABC em exibição, eu ‘trabalhava’ em um destes sites de download que tinha uma equipe de mais de 30 pessoas organizando um dos maiores acervos de séries ativas e inativas da internet. O organizador desta turma é hoje um famoso youtuber que todos conhecem. Na época ele usava um pseudônimo bastante caraterístico: Cap Sparrow. Eu? Eu assinava como Storm. Numa destas noites em que o episódio chegava ao seu clímax, uma equipe ficava responsável por baixar o AVI (quem nunca?) ‘picotar’ o episódio (normalmente em três), fazer a tradução e legenda e o famoso sync. Numa fase posterior, para uma época de internet bastante precária (quem tinha 2 mb era rei/rainha), eu juntava a legenda e encodava para um formato bastante popular na época: o RMVB. Depois de encodado, eu mandava para um servidor FTP e deixava a disposição da galera matar toda a sua ansiedade. Um ou dois dias depois, Sparrow me chamou no falecido MSN e avisou: “Storm, tivemos quase 100 mil downloads do episódio que a gente jogou para down”. Parêntese fechado.
Ninguém achava que a TV fosse capaz de produzir histórias tão intrincadas (quanto sem respostas), roteiros que deixavam todo mundo de cabelo em pé. Ninguém estava acostumado a ver uma atração pop abordar filosofia, física quântica, religião, família e tudo mais que cabia na cabeça daqueles roteiristas. Uma honrosa menção seja feita a “Prison Break” e “Heroes”, séries que com pouquíssima vida útil continuaram mexendo com o imaginário da galera. RIP Tim Kring (ainda não te perdoei).
A série acabou e muita gente ficou órfã da atração. O mundo foi devastado para quem curte séries de qualidade e textos de peso? Nada. Tivemos “Dexter” (ah, gente! Vamos dar uma moral para o Michael C. Hall), “Damages”, “Breaking Bad”, “The Walking Dead”, “Homeland”, “Game of Thrones”! O mercado já estava no talo e se o merchandising de produtos de LOST foi bem abaixo do que poderia, “Breaking Bad”, “The Walking Dead” e “Game of Thrones” estão aí para mostrar como fazer fortuna com bugigangas de todo tipo.
A questão não é só mercadológica. Não. Estamos diante de produções milionárias que trouxeram do Olimpo de Hollywood astros como Glenn Close e Claire Danes e revelou ao mundo atores de primeiro escalão como supracitado Michael C. Hall e Bryan Cranston que acreditaram em caras como Vince Gilligan e o próprio JJ Abrams, em tantos outros projetos como Fringe, Orange Is The New Black, House of Cards (alguém imaginava que Kevin Spacey, um dos melhores em sua “posição”, pudesse protagonizar uma série via streaming no Netflix) e tantos ótimos e excelentes projetos que alcançaram todas as plataformas tecnológicas a nossa disposição.
Este ineditismo não está no cinema. A sétima arte que chocava o mundo com suas histórias “sabe se lá de onde vieram”, hoje se renderam a recriar o que já está e continuar uma história, dividindo um release em quantas partes for mais rentável em detrimento da qualidade. E toma-lhe Harry Potter e toma-lhe Vingadores! “Vamos usar 600 milhões de dólares em efeitos especiais e retomar a franquia do Star Wars”. Blindemos os clássicos! Para quê?
… E se alguns dizem que a pirataria é responsável por isso, ora bolas, o mercado seriador é talvez o mais afetado pelos “torrentes da vida”, embora até alguns produtores defendam a sua disseminação via internet. Paradoxo do paradoxo?
Matt Damon voltará a ser Bourne. Cogitou-se, transloucadamente, que De Volta Para o Futuro tivesse um remake. Assim como rolou o boato de que Eddie Murphy poderia reviver Alex Foley em Um Tira da Pesada. Temos Anjos da Lei com Tatum e Hill. O Quarteto Fantástico vai para seu primeiro reboot após 10 anos do fiasco do primeiro filme e não se espantem se este for um fracasso também. Jim Carrey e Jeff Daniels soam caricatos em um novo Debi e Lóide e assim está sendo construída a história contemporânea da indústria cinematográfica.
Vejam bem: existem excelentes filmes ainda no mercado, mas antes eles eram os protagonistas deste concorrido ramo. Hoje passam batidos e muitas vezes sequer chegam até as salas de cinema do nosso país. Você assistiu um dos últimos filmes de Phillip Seymour Hoffman, “A Most Wanted Man”? Pois é.
Um contraponto no minha ode à TV: séries de herois por mais simpáticas que sejam e mesmo com um público cativo, ficam bem atrás no quesito qualidade quando comparadas aos exemplos dos parágrafos acima. Os roteiros continuam aquém do desenvolvimento rico das HQs e os produtores e roteiristas, por assim dizer, inventam screenplays que podem fracassar mediante uma total falta de aprofundamento com a mitologia do heroi ou mesmo esbarrar nos direitos do mesmo. Acho até que a CW aprendeu a lição de Smallville. Vamos ver até quando.
Precisamos aproveitar e ao mesmo tempo lamentar. Dar um “enjoy” porque TV é uma diversão barata, mesmo se você é politicamente correto e não recorre aos downloads. Lamentemos porque minhas maiores lembranças e sentimentos de arte vieram de uma sala escura onde ficava imerso sob histórias que ainda ventilam minha mente vez ou outra, como se de lá jamais tivessem saído.












