Da arte de saber quando não dizer nada.
The Good Wife tem uma coisa que eu sempre admirei imensamente na sua forma de contar histórias: ela consegue sair do grande para o pequeno e focar no trivial para deixar que o substancial possa ser percebido por olhos panorâmicos, realmente. Um bom exemplo disso foi a forma como o episódio dessa semana começou mostrando um homem comum, tentando falar com um atendente de telemarketing, para conseguir com ele a compra de ingressos para um show onde iria com a esposa. Claro que essa situação é absolutamente normal para qualquer pessoa e correr contra o tempo no trabalho, na escola, para conseguir fazer tudo no prazo, é parte do script. O problema é que quando aquele homem sai do banheiro, ele atravessa um corredor e revela-se um juiz, um homem que precisa ouvir com calma, que precisa ponderar, porque a vida de outras pessoas está nas mãos dele.
Isso é o que torna o episódio passado de The Good Wife tão aterrador… Foi realmente muito triste ver como o destino de Cary foi decidido por conta da proximidade dele com certas pessoas, por causa de decisões tomadas sem planejamento a longo prazo, por conta de desatenção e falta de sorte. Parece que no meio do ano passado os Kings de certa forma perceberam que decisões drásticas podem ajudar a acelerar o ritmo da trama e resolveram trazer essa vibe para essa temporada. A condenação de Cary é algo que eu não esperava mesmo que fosse acontecer.
O pior da questão toda é que não só o juiz apressadinho negligenciava o processo, como também acabou contaminando a defesa de Agos com o impulso de medidas desesperadas que não tinham como dar certo. Levar Kalinda para a bancada foi o de menos, o que não deviam ter feito era permitir que ela chegasse a pensar, mesmo que por um segundo, que podia intimidar Bishop e sair dessa experiência desfrutando de qualquer soberania. Assim que ela enfrentou o sujeito eu dei como certa a força da vingança. Kalinda foi extremamente ousada, mas o tiro saiu pela culatra numa intensidade que arruinou qualquer chance do acusado se safar. Foi uma ousadia que flertava tanto com a burrice que eu cheguei a admirar Lemond ao vê-lo ir ao tribunal dizer o óbvio: não me pressione nunca mais.
Mas, duas outras chances surgiram nas mãos de Cary e ambas seriam impossíveis para ele por questões de coerência. Entregar Bishop seria insano e fugir do país (numa oferta “generosa” do traficante) mais ainda. Ele então apenas se conforma e tem com Alicia um dos grandes momentos desse ótimo ano. Bastou o primeiro olhar entre os dois para estabelecer a dimensão daquele resultado. Cary foi a ferramenta para atacar terceiros e Alicia, no fundo, permite que essa percepção flutue bem próxima da superfície. Ela irritou Castro e ele resolveu atingi-la do jeito que dava. Foi realmente muito triste ver a forma como Cary perdeu essa batalha, mas foi muito importante para mim, como fã, saber que o personagem não foi protegido.
Tivemos também o lado meio cômico do episódio, com a brincadeira entre Alicia e Grace indo parar nos noticiários. A rede de oportunismos é simplesmente incrível… O bilhete foi parar nas mãos da professora de Grace, que prometera não fazer nada com ele, embora o tenha apresentado à direção em seguida. A direção chama Alicia para reforçar que tem o poder e a professora que mantém o bilhete pede favores em troca de devolvê-lo. Mas mesmo assim a coisa vaza e Prady aproveita para “responder perguntas sem conhecimento dos fatos” e Alicia abraça a oportunidade de “não vazar a homossexualidade enrustida do oponente”. E então, de novo, ser a boa esposa ganha a dianteira dos fatos e ela é salva por Peter. Ver essa engrenagem maledicente funcionar é um imenso deleite.
Não se pode ter a MENOR ideia do que acontecerá em seguida. Acho que ainda podem encontrar uma forma de livrar Cary da prisão, mas, mesmo que isso aconteça, toda a sujeira que o colocou nessa situação ainda vai estar lá. E sem Cary para impedir que Florrick & Agos se contamine completamente por Diane, as firmas que controlam a atmosfera da trama podem colapsar. Bem, é exatamente isso que eu queria que acontecesse, e do jeito que The Good Wife está dedicada ao imprevisível, ela pode não me corresponder e ainda assim me impressionar. Que beleza de temporada, meus amigos… Que beleza.
Objection: Atrasei muito a entrega desse texto, mas as circunstâncias me forçaram. Prometo mais atenção daqui pra frente. Obrigado, gente.















