Há muito tempo que a série não conseguia conjugar todas as peças de seu tabuleiro de uma forma tão coesa e sincronizada.
Desde sua estreia, Penny Dreadful tocou em pontos de aceitação e de exclusão. Acompanhamos o Victor Frankenstein como um médico talentoso, mas com anseios obscuros demais para se sentir à vontade no convívio social. Ethan Chandler era um americano que, para esconder o segredo de que era lobisomem, executava uma cautela ao lidar com as pessoas em seu redor. Bona Croft era uma imigrante sexual que encontrou em seu corpo a forma de escapar da miséria. Vanessa Ives era uma mulher imponente, bela, mas com um passado negro e imersa em uma atmosfera pesada de terror que a fizeram abandonar uma vida comum de mulher vitoriana e abraçar a luta contra as forças malignas. E não pode ser esquecido Caliban, que retornou à vida para sofrer com os olhares e o repúdio das pessoas que somente enxergavam a monstruosidade em sua figura. Above the Vaulted Sea (ATVS) foi um episódio singular por concentrar a ideia de aceitação e exclusão e trabalhar todo o seu elenco numa ciranda de drama e sexo.
Há muito tempo que a série não conseguia conjugar todas as peças de seu tabuleiro de uma forma tão coesa e sincronizada. E, depois de alguns episódios sendo desenvolvida de forma separada da trama principal, a relação entre Dorian Gray e Angelique foi incorporada, mesmo que tenha sido pelo tema geral do capítulo. O primeiro fato que deve ser ressaltado sobre o casal é que Angelique é um instrumento para a construção e o fortalecimento de Gray. Em sua base literárias, ele é um personagem sexualmente dissimulado, o que transborda em sua forma de lidar com o contexto em que se encontra. Na primeira temporada, não vimos o estabelecimento de seu caráter, nem o esclarecimento sobre as nuances do personagem, o que prejudicou seu desenvolvimento, porque, além de transão, ele não era nada. Seus momentos na tela não chamavam a atenção justa que um personagem tão rico era capaz. Assim, o contato com a prostituta, a forma que ele a aceita como ela é e levanta a moral desta para enfrentar sua aceitação foi a forma de humanizá-lo, através da liberdade sexual e sentimental que é intrínseca a ele.
Segundo fato a ser levantado é que essa relação não terá um final feliz. Penny Dreadful é uma história cínica e pessimista sobre seu universo e entregar um rumo romântico para o casal é inconsistente com a própria base da série. E, se é certo de que vai terminar em tragédia, é provável que Angelique será a responsável pela revelação do retrato de Dorian na trama da temporada. Já passou do tempo de os roteiristas trabalharem a mitologia do retrato e a personagem é o elemento narrativo de maior força para trazer isso à tona de forma orgânica. Enquanto isso não ocorre, o que não deve demorar tanto, pois agora que os dois estão mais próximos, é o momento de ela começar a descobrir os segredos de Gray, basta aproveitar a dinâmica rica e a química de Reeve Carney e Jonny Beauchamp.
Caliban continua solto na história e isso é preocupante. Depois de ser uma ferramenta assassina na primeira temporada, havia a expectativa de que a transformação de Bona viesse a favorecer o personagem, no entanto o que está acontecendo é o oposto. A exclusão de Caliban já foi trabalhada desde o terceiro episódio da série e insistir nessa tecla de forma prolongada está tornando exaustiva a participação do personagem. Nem mesmo o belo momento entre ele e Vanessa conseguem compensar a preguiça no desenvolvimento de Clare. E, daqui para a frente, o horizonte não se apresenta otimista, uma vez que o que o roteiro entregou ao futuro dele foi a inveja, a raiva, a vingança e o desejo assassino por Frankenstein. Ou seja, John Clare continuará girando em círculos.
Lily e Victor, por outro lado, avançaram no seu romance e isso é uma faca de dois gumes. Por mais que Treadaway e Piper trabalhem bem sua química e isso renda belos momentos ao episódio, fica o questionamento: como a relação entre ambos pode acrescentar à trama da temporada ou à história da série como um todo? A resposta é: não há espaço para isso. Como supracitado, diante do que o roteiro demonstrou até o momento, o único caminho para o casal será servir de alvo para a vingança de Clare. Fica a torcida para que a série nos surpreenda, mas, se isso não acontecer, Victor e Lily ficarão presos ao círculo vicioso de medo e sofrimento de seus personagens.
Sir Malcolm caiu nas garras de Evelyn Poole de vez isso foi mais um passo nos planos ainda obscuros da capirotada da vez. Talvez ela queira usar o Murray como acesso à Vanessa, no entanto, se ela quisesse se aproximar da protagonista, ela não passaria tanto tempo se escondendo por trás de suas lacaias. Independente do caso, a curiosidade emana quanto aos próximos passos de Poole. Principalmente depois de seu trabalho com as bonecas voodoo. Que cenas agonizantes e bizarras foram aquelas dela abrindo a cabeça da boneca e exibindo um cérebro real, que ficou sendo perfurado ao longo do episódio. Elogios para a equipe da série que mantém a criatividade em entregar momentos intensamente bizarros. Mais importante que a morte da esposa de Malcolm foi enxergamos o que ela é capaz de fazer com Vanessa através da boneca voodoo.
Rusk finalmente chegou a Chandler através do registro da hospedagem em que ocorreu o massacre e a trama do americano se tornou ainda mais empolgante. Que ótimo desenvolvimento o personagem está apresentando nessa segunda temporada e a tensão em torno da sua captura pelo investigador tende a engrandecer sua participação. No entanto, o que ficou de mais instigante no plot do lobisomem no episódio foi a presença do sobrevivente mascarado. O que a série pretende com o rapaz: a vingança ou a ajuda em entender sua transformação? Fica a torcida pela segunda opção, uma vez que está praticamente óbvio que teremos um segundo lobisomem em Londres. E, se o contato com sua criação fizer Chandler se entregar a seus instintos animalescos? Esse seria um bom caminho para a série mexer na estrutura do grupo de protagonistas e na sua própria base. Ver Ethan se tornar o alvo a ser abatido seria, inclusive, uma ótima deixa para o terceiro ano do projeto.
Vanessa Ives continuou sua jornada dramática e de terror e aqui reside uma preocupação que somente aumenta com o passar dos episódios. Cadê a mulher imponente, forte e sagaz? Cadê a intensidade sexual que somente reforçava a personagem? É necessário trabalhar o medo da personagem diante de uma vilã à altura, no entanto é injusto diminuir Ives para que haja o empoderamento de Poole. O roteiro precisa urgentemente reerguer sua protagonista e, por isso, o olhar trocado entre ela e Chandler no final do episódio foi recompensador. Ali estava a Vanessa que nos encantou anteriormente.
Como o elenco todo esteve aproximado pelos temas de aceitação e exclusão, dessa vez a direção e montagem da série trabalharam a dinâmica do grupo de uma forma maior. Foi muito interessante e empolgante acompanhar o grupo protegendo a mansão de Sir Malcolm com todos os instrumentos de diferentes crenças e religiões. Além disso, a montagem final, com a fornicação coletiva foi bem construída, principalmente por ter trabalhado na escala de entrega física o próprio estágio de conforto entre si que os personagens se encontravam no momento. Angelique e Dorian envoltos em uma áurea explícita e viva. Malcolm e Poole em um ato impulsivo. Frankenstein e Lily contidos em sua descoberta. Vanessa e Ethan se desejando, mas num momento em que não podem se entregar.
Penny Dreadful trabalhou a dinâmica de seus personagens e estabeleceu certas possibilidades quanto ao futuro da temporada e agora nos resta esperar que a série exceda as expectativas e nos surpreenda em todos os lados.






















